Lázaro de Carvalho

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165 – O poeta e o mendigo

In Artigos on 10 de junho de 2012 at 20:16

Semi-nua a lua deslizava sonolenta naquele céu entrelaçado de cordéis, enquanto um imenso harém de estrelas vadias, ainda sedentas de amor, piscavam aos transeuntes à espera de um beijo. Reflexos reluzentes e afoitos acolhiam a alma da noite nos confins daquele convés adormecido: velas ao vento, rumo desconhecido, cortinas aveludadas de um negro azul, rompidas pela nau dos sonhos. O cenário perfeito para o enlace profano de uma alma errante.

… COM SEUS CESTOS DE PÃES E OLHAR TRISTONHO ELES VAGAVAM À PROCURA DE UM CORPO FAMINTO.

Ao longe, próximo ao regato ouviu-se o pio de uma coruja, acompanhado de outro, com suave flagrância de enxofre no ar. Passos de lagarto, paradas bruscas, sorrateiras, olhou ao redor e pode ver apenas dois olhos ocultos na escuridão. Navegar estrelas no mar revolto do ocaso é como adormecer no divã de um psicanalista. Sonhar eternidade, sem ter os pés no agora.

A DOR, A MISÉRIA E A FOME SÃO CRIAS DE UMA MENTE INSANA, QUE NECESSITA DELAS PARA SACIAR-SE A SI MESMA.

Com sua flauta de ossos humanos um vulto coberto de cetim confundia-se com o tecido amarelo daqueles negros sorridentes, fazendo ressoar tambores de cobre. Outros levavam ao ombro jarros de barro e os depositavam sobre esteiras vermelhas. Ainda outros, esquálidos, usando turbantes, sopravam um som monótono em sua flautas de junco.

ENQUANTO ELES RECURVADOS SOBRE A MESA ELEVAVAM PRECES AO SEU DEUS, CLAMANDO PELO MORIBUNDO.

Alheio a tudo isso o poeta nu desfilava sua miséria num rosário de conchas à beira do rio. Contemplava o reflexo das estrelas e as acariciava com os olhos. Seu único alento eram cabaças pintadas, repletas de desilusões, dor e martírio, que quando sacudidas emitiam um som latente e contínuo. Sentinelas empoleirados nos galhos de um ipê amarelo testemunhavam seu divâ ingrato e ao mesmo tempo poético.

…ENQUANTO ELES ABRAÇAVAM O CÍRCULO CATIVO DE SUAS DOUTRINAS, NUM APELO DRAMÁTICO DE SALVAÇÃO.

Arrumava, desarrumava e remexia em seu estojo de madeira as pedras preciosas da razão. Observou o crisoberico verde-oliva, o cimofânio de faixas prateadas e os topázios cor-de-rosa e de vinho amarelo. Tinha o suficiente para viver a devassidão durante um século, mas escolheu se ver nos peixes que sonhavam a madrugada. A sensatez do poeta, sua forma plena e simples era um contraste à peocupação revelada nos olhos aflitos daquele círculo de aprendizes.

RECOLHEM O EXCEDENTE FÉTIDO DE SUA MESAS PARA APLACAR A MISÉRIA DE UMA PROCISSÃO AFLITA, ENQUANTO MANTÊM EM LUGAR SEGURO O NECESSÁRIO PARA QUE NADA LHES FALTE.

Os súditos galopavam em seus cavalos de crista marron-acinzentado, o rei acariciava seu colar de rubis. Era noite de coroação num reinado distante, numa primavera frondosa. Convidado o poeta se absteve, pois já havia se comprometido com as borboletas e rouxinóis. Foi lhe oferecida uma casula cor de âmbar, realçada com fios de prata e contas de vidro coloridas, mas preferiu se vestir  de estrelas, com fios azuis de um celeste negro.

ABRAÇADOS AOS SEUS CESTOS CONTINUAVAM CAMINHANDO ANSIOSOS POR AVISTAR ALGUM PEDINTE.

Ao lado daquele retrato poético da noite estava o baton que comungava lábios finos de uma elegância nua vestida de preto. Viu-se por um momento diante de sedentos lábios cor de vinho, o que o fez revestir-se de paixão. A noite lhe sorria com seu vestido solto de bacante. Folhas de parreira eram jogadas ao lançar seus cabelos ao vento. Quanto prazer no ocaso! Quanta paixão incontida no divâ do poeta. Mas por um instante o colorido antes frondoso esmaeceu, restando apenas um sorriso pálido de bromélias cálidas.

AO LONGE, LÁ ESTAVA ELE: O MENDIGO. GRAÇAS A DEUS! DISSERAM.

O poeta teve sua efígie queimada em Roma por ser inimigo de Deus e dos homens, mas o seu espírito navega luas douradas na mansidão do martírio.  Suas veias escarlates são o salvo conduto de um vinho vermelho, repleto de ternura e paz. Preces lhe acenam do mundo inteiro, mas ele apenas as traduz em gratidão, poesia e flor. A verdadeira prece vem da Terra, seus frutos, sementes e pão. A tez magenta do poeta ainda reflete espinhos de uma coroa insana, enquanto suas mãos perfuradas apontam a imensidão dos rios, lagos, fontes e igarapés.

FINALMENTE, EIS AÍ O LEGADO DE SEU PROPÓSITO: O MENDIGO. EI-LO DIANTE DOS CESTOS A OBSERVÁ-LOS. TOCOU-OS LEVEMENTE, COMO O ORVALHO OSCULA A FLOR. E PERGUNTOU: PARA QUE SERVEM?  AO QUE ELES RESPONDERAM: PARA APLACAR A FOME DO MORIBUNDO. ENTÃO, PEGOU UM DOS PÃES, LEVOU-O ATÉ À BOCA, MAS SE LIMITOU A TOCÁ-LO LEVEMENTE COM OS LÁBIOS.

O poeta maltrapilho levantou-se e os convidou a caminhar. Os pães foram jogados à margem do caminho e o cesto deixado ao relento. A partir dali, longe da identificação e do imaginário seriam pescadores de estrelas.

A TERRA ENCHERIA OS CESTOS QUANTAS VEZES FOSSE NECESSÁRIO, BASTANDO AO HOMEM APRENDER A REPARTIR.

Então, o fascínio da noite os envolveu e isentos de preocupação descobriram em si mesmos a concepção de sua própria beleza interior.

Que assim seja!