Lázaro de Carvalho

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152 – O inventário

In Artigos on 30 de abril de 2012 at 1:42

O Lobo está onde termina a Terra e o Cordeiro onde começa o Céu. O ocaso contempla as sombras da noite da mesma forma que o alvorecer oscula a face do dia. Há um limiar (art. 056) entre o pressuposto fim e a celebração de um recomeço, mas para celebrar é preciso ver a grandeza do universo contido numa pequenina gota de orvalho. Assim, quando o último aceno romper a magia da vida, estaremos livres a sobrevoar aquele chão de estrelas. Nada e coisa alguma celebrarão o Todo, enquanto a intemperança do ego vestirá luto pelo naufrágio do seu próprio eu.

O INVENTÁRIO É UMA TRAVESSIA DE MÃO ÚNICA. PODEMOS SEGUIR OU SEGUIR, NÃO HÁ OUTRA ALTERNATIVA.

A mesma palavra com entonações diferentes expressa respostas diferentes. O discurso tem o direito de se vestir de quantas formas lhe convier, usando para isso o artifício da palavra. Podemos usar as vestimentas do Cordeiro, ou profanar o Santuário do Lobo, usando apenas o artifício da eloquência, ou a sutileza da palavra. O inventário responde pelo poder e acúmulo de valores. Ele incentiva o ego a se enaltecer perante si mesmo, por não partilhar de forma humana valores represados pelo poder e ambição.

Podemos seguir ou seguir, ou quem sabe prosseguir. Podemos seguir irrequietos, roendo as cordas; também é possível seguir naturalmente o fluxo; ou podemos nos adiantar a ele, colocando-nos simplesmente à disposição. O ‘fazer’ do homem pressupõe a primeira possibilidade, ou seja, seguir roendo as cordas.

O INVENTÁRIO É UMA CORDA QUE NOS PRENDE AO PASSADO, TIRA A VISÃO DO AGORA E TORNA SOMBRIO O FUTURO.

Por isso é tão difícil abrir mão da obstinação e seguir o fluxo natural. Nós amamos o ‘sofrimento inútil’.

Basta observar e ver que as crianças em tenra idade não se expressam pelo pronome pessoal ‘eu’, e também não assimilam o possessivo ‘meu’. Quando muito choram, dizendo: ‘dá… dá…’ para logo em seguida, satisfeitas, buscar outras conveniências.

O INVENTÁRIO DO HOMEM TEM INÍCIO COM O ‘EU’ E SUA ILUSÃO DE INDIVIDUALIDADE E PODER.

PERDEMOS A SEGURANÇA DO ‘COLETIVO’ E NOS ISOLAMOS NUMA ILHA CHAMADA ‘EU’.

Essa ilha, ou Tonal (art. 050) é o berço do inventário do homem.

Diz-nos a tradição que abrimos mão de quase tudo menos da parte que nos cabe dentro do inventário. De acordo com a nossa cultura e tradição o inventário se desenvolve após o falecimento de alguém, ou o pressuposto fim de alguma coisa. Portanto, são riquezas pobres em valores reais, pois não expressam nossas conquistas pessoais. Para uma melhor compreensão do inventário vamos dividi-lo em três partes: a parte que compete ao homem, outra que pertence ao Lobo e ainda uma terceira que alude ao Cordeiro.

Ao homem devem ser legadas todas as condições para que venha a posuir o máximo possível. Humildade não é sinônimo de pobreza, mas sim a arte de administrar riquezas reais.

O SIMPLES É O RICO EM RECUROS REAIS, ENQUANTO O SIMPLÓRIO É O RICO EM CONTENÇÃO.

Diz-nos a Tradição Judaica que Deus enviou um anjo à Terra em busca de um homem simples. Depois de algum tempo, o anjo retornou aos Céus em companhia de um homem que se apresentava como honesto, trabalhador, leal cumpridor dos seus deveres, um bom caráter e ótimo pai de família, além de um exemplo de simplicidade. Uma recepção jamais vista os aguardava, quando Deus dirigindo-se ao homem, falou: ‘Toda esta riqueza agora lhe pertence, por direito adquirido. Peça tudo aquilo que quiser e lhe será dado.’ Ao que o homem respondeu: ‘Pode ordenar, então, aos seus anjos que me tragam um cafézinho com leite e pão com manteiga’. Tamanha foi a convulsão no Céu, que o anjo envergonhado cobriu o rosto entre as mãos.

NO LUGAR DE UM HOMEM SIMPLES, ELE HAVIA TRAZIDO UM SIMPLÓRIO.

Mas é preciso entender que o máximo que nos é permitido está numa relação direta com o mínimo de perdas para o outro. E ambos dever gerar um mínimo de perdas para a natureza. Em tudo e todas as coisas há sempre uma relação de Três Forças (art. 003)

A natureza interior do Lobo se agrada de três coisas, portanto, o seu inventário é agraciado de três formas diferentes: liberdade, respeito ao seu habitat e à sua prole. O inventário do Lobo pressupõe a noite e todas as suas riquezas ocultas. Diz-nos a Escola dos Magos Yazidas que à meia-noite o Lobo inicia a ronda, para confirmar o cumprimento de tudo aquilo que lhe é devido.

O HABITAT DO LOBO É O CORPO DE NOSSO PRÓXIMO, ALÉM DO NOSSO PRÓPRIO CORPO. PORTANTO, RESPEITAR OS DIREITOS DO OUTRO SEM EXCEDER NOSSOS LIMITES PERTENCE AO INVENTÁRIO DO LOBO.

NÃO JULGAR, NEM ESTABELECER FRONTEIRAS OU ATITUDES PRECONCEITUOSAS, PRESSUPÕE RESPEITO À LIBERDADE DO PRÓXIMO, AOS SEUS IDEAIS E SONHOS. REFLETE  INSTINTO E ALMA LUPINA, SEU CONCEITO DE LIBERDADE E VIDA.

OS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE SÃO INERENTES AO LOBO E À SUA PROLE. SIGNIFICA RESPEITAR E PROMOVER O CRESCIMENTO DE TODA E QUALQUER FAMÍLIA EM PROL DA ESPÉCIE.

O LOBO FAREJA O CIO DE GAIA E DEMARCA O SEU TERRITÓRIO NATURAL. ANTES DE CONDENÁ-LO PELOS INFORTÚNIOS DE SUA VIDA OBSERVE A SI MESMO E VEJA SE OS SEUS ATOS ESTÃO DE ACORDO COM AQUILO QUE ESTABELECE O INVENTÁRIO DO LOBO.

A ESCOLA DOS MAGOS YAZIDAS NOS DIZ QUE O LOBO É O MAIS LEAL DENTRE TODOS OS HABITANTES DO SUBMUNDO DA EXISTÊNCIA, E NÃO COBRA NEM UMA MOEDA ALÉM DAQUILO QUE O SEU INVENTÁRIO LHE OUTORGA POR HIERARQUIA E ORIGEM.

NO ENTANTO, TAMBÉM NÃO ABRE MÃO DE UM CENTAVO SEQUER DAQUILO QUE LHE É DEVIDO.

O inventário do Cordeiro é um não-inventário. Mas esse não-inventário é uma partilha mais perigosa que o inventário do Lobo. Quando nos colocamos sob os cuidados do amor, bondade, misericórdia e compaixão estamos em verdade lidando com forças poderosíssimas.

TRATA-SE DE SE COLOCAR COMPLETAMENTE NU DIANTE DO ESPÍRITO, SENDO ESTE UMA ALFÂNDEGA EXTREMAMENTE RIGOROSA.

Todos os critérios citados acima, em número de quatro, subentendem a prática de servir e a arte de viver. Não são conceitos teóricos, ou de cunho exclusivamente emocional. O caminho do Getsêmani ao Gólgota (art. 125) é o resumo de todo o inventário do Cordeiro, pois ao pecorrê-lo tornou-se o legítimo herdeiro dos bens do Alto.

DIGO QUE O INVENTÁRIO DO CORDEIRO É UM NÃO-INVENTÁRIO PORQUE NOS ACENA COM UM TÚMULO VAZIO (ART. 127). AQUELE QUE DESPERTOU  JÁ SE FOI E EM SEU LUGAR RESTARAM APENAS TRAPOS PELO CHÃO.

Não é o inventário em si que torna o homem um ser adormecido, mas o apego a ele.

SIGNIFICA QUE UMA FALSA SEGURANÇA GERADA PELO TER E ALIMENTADA PELA VAIDADE E AUTO-IMPORTÂNCIA TOMOU O LUGAR DO SER E SUAS POSSIBILIDADES DE SUPERAÇÃO DO EU IMAGINÁRIO (ART. 091).

O MEDO DO SOFRIMENTO NOS FAZ LIMITADOS PELA DOR.

A CLAREZA DO DEVOTO (ART. 099) APRISIONA OS SEUS SONHOS AO LIMITADO MUNDO DAS CONVICÇÕES PESSOAIS.

O poder anuviou mente e coração nos fazendo reféns de nós mesmos. Abrir o cofre das posses imaginárias significa ficar nu diante do espírito. Esta é a senha de acesso que permite um salvo conduto a outras estrelas, de maior grandeza, com menor número de imposições ou leis.

A outra senha é um brinde da ESCOLA a todos nós. Se apresentarmos o inventário do Lobo em dia e com todas as suas exigências cumpridas, com certeza, nos será concedido um salvo conduto para a próxima escala.

Por isso a extrema importância em manter indenes o Lobo e o Cordeiro que foram confiados à nossa guarda.

ELES SÃO PORTAIS ABERTOS A UMA NOVA ERA, ONDE A CONSCIÊNCIA SERÁ O ALIMENTO DA FÉ, E A LUZ DO CONHECIMENTO UM FAROL QUE A FARÁ REAL NO AGORA.

O QUE VIRÁ DEPOIS NÃO MAIS ALIMENTARÁ O INTERESSE COMUM DO HOMEM, POIS O SEU INVENTÁRIO TERÁ CHEGADO AO FIM.

Que assim seja!

 

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151 – Mas nos deram espelhos

In Artigos on 22 de abril de 2012 at 0:08

Estamos condicionados a usar principalmente os olhos em nossa percepção. As imagens ocupam no mundo moderno um lugar de destaque, enquanto os sons, especialmente, a música, vêm logo a seguir. Uma vez que somos extremamente descuidados, pensamos que tudo aquilo que percebemos é expressão sensorial comum. Aprendemos a viver assim. Todo esforço é bem-vindo dentro de um mínimo necessário à sobrevivência. Qualidades do olfato, tato e paladar foram relegadas a posições inferiores. Quando a serviço da vaidade, ou por imposição evidente da vida moderna, ainda podemos nos dar ao prazer de cultivá-las, mas nada além disso.

“QUEM TEM MAIS DO QUE PRECISA TER QUASE SEMPRE SE CONVENCE QUE NÃO TEM O BASTANTE.”

Já os animais por interagir instintivamente com Gaia são capazes de identificar níveis outros de energia, enquanto nós em virtude do auto-reflexo tendemos a nos distanciar cada vez mais de nossas origens comuns. Como resultado, perdemos contato com o abstrato. A forma que encontramos de fugir da abstração é erigindo escudos, ou melhor, criando uma crosta extra em nosso ‘casulo luminoso’, de tal forma a dar continuidade ao fluxo ininterrupto dos pensamentos. É uma espécie de ‘droga’ que acalma o inconsciente e nos transporta para bem longe da realidade.

“EU QUIS O PERIGO E ATÉ SANGREI SOZINHO.”

O corpo físico pode estar condicionado a 96 ordens de leis, e isso representa uma anormalidade. Estamos obesos por falta de ‘impressões ricas em hidrogênio’. Impressões (art. 086) são alimentos. E ainda mais: são o mais importante alimento do corpo, pois representam por si só mais de 60% dos nutrientes e proteínas necessários à sobrevivência. Não custa lembrar que a todo momento são inseridos novos parágrafos, outros incisos e ainda outros. As facilidades do mundo moderno estão de tal forma nos automatizando que presumo em algumas décadas quase nada restará da sensibilidade que um dia foi o norte da nossa existência. Os grandes edifícios estão ocupando o lugar dos jardins, enquanto praças cedem lugar a postos de saúde e órgãos de cidadania.

 ” …E VIMOS UM MUNDO DOENTE.”

O homem moderno tem como sagrado o ‘sofrimento inútil’. Em seu nome ergue templos interiores e o cultiva no ego solidário do seu coração em chamas. Suas preocupações são o auto-reflexo de uma alma vazia de significado que “procura nuas pelas luas, pelas ruas, na solidão de quem se desespera a encontrar o amor”. O analgésico é o consumo exacerbado seja de sexo, drogas ou Deus, não faz nenhuma diferença, quando tudo é apenas alimento do imaginário. Mas o ‘Homem de Conhecimento’ ao reduzir seu auto-reflexo inverte todo o processo, utilizando a energia inútil antes consumida na preservação de sua imagem para a aceleração dos sentidos, permitindo assim uma faixa mais ampla de percepção.

“QUEM ME DERA AO MENOS UMA VEZ QUE O MAIS SIMPLES FOSSE VISTO COMO O MAIS IMPORTANTE.”

A única oferta realmente agradável aos olhos de Deus, aquela que ressalta em gratidão e fé é o sacrifício do ‘sofrimento inútil’, restringindo assim a submissão à auto-imagem.

PRECISAMOS URGENTEMENTE ESTILHAÇAR O ESPELHO DO AUTO-REFLEXO.

A obstinação em ‘fazer’ é a argamassa que une e possibilita a edificação da auto-imagem. Uma vez edificada precisa ser decorada segundo conveniências de estilo, por ser o palco sagrado dos ‘papéis’ que representamos (art. 098).

Cada um de nós tem um grau diferente de apego ao auto-reflexo. Sentimos esse apego sob a forma de necessidades. Essas necessidades são sinônimos de interesses, e estes delimitam território e tempo. Cada um só dispõe de tempo para aquilo que  interessa, ou seja, aquilo com o qual está identificado. Mas só nos identificamos com os nutrientes do auto-reflexo.

ESTE TEATRO DE ESPELHOS NOS MANTÉM CATIVOS NUM CÍRCULO CHAMADO SAMSARA.

A única ajuda real e concreta com a qual estamos lhe presenteando nas páginas do Tratado é o fato de atacarmos sutilmente o espelho do seu auto-reflexo. Se não fosse por isso estaria perdendo o seu tempo por aqui.

ESTAMOS NUMA MAGNÍFICA ESCOLA QUE INSISTE EM NOS ENSINAR A PERDER.

Nenhum artifício em nome da ‘falsa  personalidade’ tem acesso a este lugar.

O ‘NÃO-FAZER’ É O PRINCÍPIO DO FAZER DO HOMEM.

Transformar alguém não é questão de instrução, pois se assim fosse aqueles letrados e detentores do conhecimento institucionalizado seriam os baluartes da nova era, enquanto acontece justamente o contrário. O maior número de suicídios ocorre exatamente nos países mais instruídos, enquanto escândalos sociais e morais têm maior ênfase entre aqueles com maior nível de instrução. Não custa lembrar que problemas sociais como o narcotráfico tem suas ramificações em níveis hierarquicamente superiores. Sabemos que na sua origem existem signatários de ostentação e poder. O exemplo do México não deixa dúvidas em relação a isso.

 MUDAR É QUESTÃO DE DISCIPLINA E IMPECABILIDADE. SÓ O ACÚMULO DE ENERGIA PODE TRANSFORMAR ALGUÉM, PORTANTO, NÃO É EXCLUSIVIDADE DE INSTRUÇÃO.

A sequência específica que temos em mente traz em si o firme propósito de nos despertar para o enorme poder que está incutido por detrás da ‘auto-importância’ (art. 053). É necessário que fiquemos atentos ao enorme poder que nos mantém cativos nos mundos inferiores da existência. Quando rompemos as barragens da identificação, toda energia antes acumulada passa a estar disponível para outras funções. Diria que esta energia é o trampolim que nos possibilita saltar para o desconhecido. Sem a energia necessária qualquer salto é uma imprudência e pode ser fatal.

Antigos espaços culturais estão perdendo espaço para os templos da razão pura. O romantismo perdeu espaço para o ‘ficar’. O conhecimento está aos poucos sendo erradicado, cedendo lugar à instrução objetiva em valores e produtividade.

O MUNDO REAL ESTÁ SENDO AOS POUCOS SUBSTITUÍDO PELO IMAGINÁRIO, ONDE O TER É SOBERANO E O SER APENAS CONSEQUÊNCIA.

O Tratado é uma viagem inconcebível; uma viagem de retorno. Voltamos purificados ao Templo Natural do Espírito; aos mananciais e bosques de carvalho, depois de termos descido ao Inferno. Mas é exatamente do fantástico mundo da Escuridão que trazemos dois significativos troféus: A compreensão e o amor incondicional. A primeira  nos predispõe a aceitar valores sem a imposição do auto-reflexo, dos preconceitos e da racionalidade, enquanto o segundo nos torna irmãos de todos os seres sencientes da Terra. ‘O colecionador’ (art. 106), com certeza, tem estes dois troféus na sua ‘coleção de fatos memoráveis’.  O colecionador é aquele que antes de exorcizar o Lobo ou vangloriar o Cordeiro, serve-se de ambos como formidáveis operários na demolição do edifício do auto-reflexo. Ele vê além da forma e das aparências.

Quando alguém diz que necessitamos de tão pouco para seguir em frente tornamos relutantes em aceitar. Fomos preparados para esperar instrução, guias e mestres. É difícil acreditar, mas não precisamos de ninguém. O verdadeiro propósito passa necessariamente pela coragem de estar só. Necessitamos de ajuda, mas não em métodos, e sim em ênfase. Quando alguém bate à porta dizendo que temos de ter coragem para estilhaçar o espelho do auto-reflexo, este alguém é real.

UM INOPORTUNO TOCADOR DE TROMBETAS NÃO É BEM-VINDO AO MUNDO DA IDENTIFICAÇÃO, POIS AS MURALHAS DE JERICÓ NADA MAIS SÃO QUE ESPELHOS ESTILHAÇADOS.

Mas nos deram espelhos. Independente de nossa escolha, eles os implantaram em nosso corpo, mente e coração. Vemos através desses espelhos, ou seja, por uma mente que não é nossa. Uma ‘mente imaginária’, cujas necessidades e interesses nada têm a ver com a nossa realidade, como ‘organismos auto-evolutivos’ (art. 147). Esta mente é como um chip que os alerta a todo instante sobre comportamentos, direção e sentido. Somos alimentos para essas formas de vida, e felizes caminhamos sem perceber a aproximação do abate. Estilhaçar essa mente, este espelho, é a única possibilidade que temos.


 

Que assim seja.

Este texto é um tributo a Renato Russo e foi publicado no Dia da Terra. Beijos no seu coração. Saudades.

150 – Quebra da continuidade

In Artigos on 15 de abril de 2012 at 23:10

O momento mais importante na vida de um ‘homem em busca do verdadeiro conhecimento’ acontece quando seus pensamentos são providencialmente paralisados, cedendo lugar ao ‘silêncio interior’.

Somente a partir daí coexistimos com a possibilidade de outro ‘estado de consciência’, onde inquietude e ansiedade cedem lugar à uma profunda paz interior. Cessamos de buscar afoitamente, passando assim a nos observar mais e melhor, pois o ‘silêncio interior’ significa suspensão do ‘diálogo interno’ e de tudo aquilo que gira ao seu redor. Esta faculdade nos transforma num ser mágico em harmonia com tudo e todos à nossa volta. Sem este incessante ‘diálogo interno’ cessa também o julgamento e todas as necessidades circunstanciais identificadas com o ego.

O homem moderno alimenta uma conta bancária onde possa acumular valores, mas nem por um segundo é capaz de imaginar que a sua verdadeira riqueza, os seus valores reais vêm da acumulação contínua de ‘silêncio interior’. Este cancela perdas, limita necessidades e cessa obrigações, tendo como resultado a ‘quebra de nossa continuidade’. Este ‘silêncio interior’ alude ao momento onde tudo à nossa volta cessa de ser aquilo que sempre foi. Descortina-se então a verdadeira natureza do homem, aquela que liberta por não estar mais condicionada aos elos da identificação. O imaginário torna-se assim passivo, enquanto aquilo que é real em nós ganha objetividade, confiança e poder.

Tornamo-nos assim capazes de feitos memoráveis diante do olhar incrédulo do homem comum, pois nossa percepção do mundo passa a desafiar toda e qualquer manifestação linear de imaginação pessoal e coletiva. Somente a partir daqui se processa a suspensão de todo julgamento e suas conseqüentes causas e efeitos. Uma mente isenta do fluxo ininterrupto dos pensamentos é capaz de aquietar-se e dar um novo rumo aos acontecimentos. A Observação de Si Mesmo necessita de um mínimo de paz interior para que possa alcançar o objetivo proposto. Esta paz é sinônimo de quietude, de mansidão do corpo e do espírito.

A ‘quebra da continuidade’ ocorre, quando o sistema cognitivo deixa de ser a força que, através do uso constante e da repetição contínua, decide por nós a natureza objetiva do mundo. Precisamos ser exemplos de coragem e honestidade para aceitar com naturalidade a quebra da continuidade, pois esta significa abrir espaço para o inusitado, ou seja, toda e qualquer possibilidade inerente ao desconhecido e suas eventuais propostas alternativas.

Pode ser que venhamos a navegar mares nunca antes navegados, isto por algum tempo até que possamos reencontrar os fios invisíveis do nosso destino. Esta ruptura no tecido pessoal e social dos valores vigentes não é tão facilmente aceitável, e a resposta natural do ‘homem adormecido’ é lutar com unhas e dentes para reconstituir os elos da continuidade rompida. O que me deixa com ‘pulgas atrás das orelhas’ é ver que todo o sistema religioso atual insiste na continuidade, enquanto deveria crias novas bases para a transformação espiritual do homem. O grande exemplo de Jesus é a ruptura com a continuidade para a renovação da alma e do espírito. Todo o seu ensinamento e vida gira em torno desse objetivo.

Precisamos observar também que a ‘quebra da continuidade’ não é uma escolha previamente pensada e decidida. Sendo antes uma imposição do ‘intento’, onde as convicções e intenções sofrem uma ruptura incorrigível dentro do nosso sistema de sustentação de valores. Criamos escudos artificiais de proteção e quando estes se mostram incapazes de cumprir o seu papel nos tornamos frágeis e indefesos. A partir daí somos alvos fáceis para todo tipo de alimento espiritual, os mais oportunos e ocasionais ao alcance de nossa mão. Atente para o fato que nos acenam com a ‘restituição dos valores perdidos’, enquanto deveríamos ser encorajados a prosseguir em busca de um conhecimento mais sólido e menos induzido a manifestações exteriores de dialética cristã. Mais uma vez Jesus nos convida a prosseguir: “Sai da tua terra e vai!”

Todos nós, mais cedo ou mais tarde, temos que conviver com ‘quebras de continuidade’ em nossas vidas. Chega um momento em que é praticamente impossível fugir delas, não importando se somos ricos ou pobres, poderosos ou fracos. Como já dissemos não se trata de uma escolha individual, mas sim de uma ‘afronta do desconhecido’. Infelizmente, no momento crucial de nossa angústia surge um bem intencionado cristão com propostas de ‘restituição’ e um convite para ingresso em sua comunidade, ou seja, uma linha de pensamento condizente com a continuidade. Entendo que sua ação não é aleatória, nem visa o mal do próximo, mas por estar a serviço do ego e sua ramificações acaba tirando a oportunidade de ouro de reencontro com o ‘silêncio interior’, suas origens e intenção. Estive numa situação semelhante, mas tive a felicidade de ter ao meu lado ‘O Colecionador’ (art. 106). Ele se manteve ali durante três semanas em silêncio, somente se manifestando quando solicitado, e mesmo assim com frases rápidas e oportunas. Não me influenciou em nada. Respeitou meu estado interior, e jamais fez qualquer tipo de oferta, visando restituição. Ele é um amigo único, um ser prático e objetivo.

O modelo religioso atual tem o propósito de ‘restituir’, mas não é capaz de ver a infinidade de estilhaços espalhados pelo chão, como o vidro dianteiro do veículo depois de um choque. Age assim em causa própria, mas deixa nas entrelinhas a proposta de realização em nome de Deus. O ‘verdadeiro conhecimento’ nos diz: “Sai da tua terra e vai!” E ainda: “Leveis apenas o necessário ao dia de hoje…” Ou seja, ‘dai a César os bens que lhe pertencem por direito de origem e tradição, mas dai a Deus aquilo que é real e verdadeiro dentro de ti mesmo’.

Não sei até que ponto é facultada a compreensão, quando a ESCOLA nos diz: ‘É impossível avançar no  caminho do Verdadeiro Conhecimento, levando consigo os estilhaços de sua história pessoal’. Eis aqui mais um significado das palavras de Jesus: “É preciso que o homem morra para que possa renascer”. Por isso tememos tanto a Lembrança de Si Mesmo e impomos tamanha resistência à Observação de Si Mesmo, pois ambas acenam com a ‘quebra da continuidade’. Outrossim, tememos ao Lobo e o exorcizamos, tendo em vista ser agraciado como ‘aquele que tem influência direta na quebra da continuidade’. Infelizmente, o Cordeiro tornou-se o ‘alimento predileto do imaginário do homem’, pois sem a presença constante do Lobo suas propostas tornaram-se evasivas e destituídas de originalidade. A tensão dos extremos é necessária à existência. Nós somos o suporte dos braços da balança, portanto, a Terceira Força.

TUDO FOI MINUCIOSAMENTE CALCULADO AO LONGO DE MUITOS SÉCULOS, PARA NOS TOMAR COMO CATIVOS NUM IMENSO UNIVERSO DE FANTASIAS E ILUSÕES.

Devemos simplesmente partir e arcar com todas as conseqüências que isso possa representar. E sem olhar para trás, sem remorsos. Parta da maneira que puder. Mas é necessário dar o primeiro passo para tornar esse estado uma realidade. Partir, ir além, acreditar que é possível está na mente e coração do homem. Basta que antigos valores, estilhaços de um passado mesquinho e cheio de indecisões, sejam abandonados ao longo do caminho. Aí sim seremos verdadeiros ‘Missionários de Nós Mesmos’ numa terra hostil, onde suportar a dor da perda e a solidão é o desafio maior de uma vida. Isto significa ‘quebrar a continuidade’. Deixamos para trás apenas um ‘túmulo vazio’ (art. 127), onde a continuidade é tão somente restos espalhados pelo chão.

ESTE É O RENASCER DO HOMEM AQUI E AGORA. ETERNIDADE É APENAS UM INSTANTE DE SILÊNCIO, QUE POR SUA PRÓPRIA NATUREZA NÃO TEM PRINCÍPIO, MEIO E FIM.

Um ‘Homem de Conhecimento’ usa a ‘quebra de sua continuidade’ para renascer. Alguém que nunca esteve só em toda a vida, de repente, encontra-se em tal situação. Outro, que nunca soube o que é passar necessidades está agora diante dela. Aquele que nunca soube o significado da palavra ‘infortúnios’ pode ver-se diante da dor, num mundo hostil repleto de amarguras. Pode ser que algum ser compassivo lhe acene com a ‘restituição’, o seu imaginário com certeza o receberá com festas e fogos, pois são alardeados de aplausos em muitas congregações. A ESCOLA nos diz que o mais sensato seria ‘cuidar de todas as feridas e, uma vez cicatrizadas, apontar as terras distantes, dizendo: Vai! Ele te mostrará’.

Atente para o que vamos lhe dizer:

VOCÊ É A SUA MENTE, MAS A SUA MENTE NÃO É SUA.

O critério que indica se você está realmente ‘morto’ ou não, é quando não faz nenhuma diferença se está em companhia de alguém ou completamente só.

QUANDO TIVERMOS  CORAGEM DE ABANDONAR TODOS OS ESCUDOS QUE USAMOS PARA SOBREVIVER, COM CERTEZA, IREMOS RENASCER.

Não há outro modo. Acredite, não há. O caminho ‘do Getsêmani ao Gólgota’ (art. 125) comprova o que estamos dizendo agora.

A RELIGIÃO É O ESCUDO DO HOMEM MODERNO, ENQUANTO PERMANECER CATIVO NOS TEMPLOS, SEM UMA VISÃO AMPLIADA DE SI MESMO E DO MUNDO AO SEU REDOR, COM CERTEZA, NÃO VERÁ A DEUS.

Que assim seja!