Lázaro de Carvalho

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143 – Ponto de encontro

In Artigos on 27 de fevereiro de 2012 at 20:24

MUITOS SÃO OS CONVIDADOS, MAS POUCOS OS ESCOLHIDOS. A ESCOLHA É UM PROCESSO E NÃO UMA PREFERÊNCIA INDIVIDUAL. NÃO CONDIZ COM MÉRITOS, SENDO ANTES UM REFERENCIAL DE ENTREGA E CONFIANÇA.

Um ponto é a confluência de muitas linhas, portanto um ponto de encontro significa o ponto comum a diversas linhas de pensamento. Ele representa a convergência, ou somatório de pensamentos, sentimentos e ações. Muitas atitudes inconsequentes e omissas aportaram ali, e assim permanecem inconscientes. Tememos as mudanças, pois muito daquilo que foi esquecido pode vir à tona ao refazermos antigas malas. Todo este conjunto de pensamentos, sentimentos e ações, tanto conscientes como inconscientes, tornou-se o tecido a que chamamos ‘ser’. O ponto de encontro sinalisa o fixo e todas as suas possibilidades de transformação, sendo estas últimas o conteúdo de interesse deste artigo.

Um instante é indiferente ao passado, presente e futuro. Em milésimos de segundos uma simples idéia, um instante de pensamento, já se tornou passado. A sua projeção integra o futuro, mas o instantâneo de uma ação pode não estar tão presente como  desejamos que esteja. O ponto pode ser o extremo de duas linhas, mas ao mesmo tempo é a própria linha, pois uma linha é um limiar entre dois mundos, um instante de tempo. O temporal e o atemporal são diferentes apenas numa retórica de espaço-tempo, mas únicos quando suscetíveis a um simples ponto. Estar conscientes do encontro e se colocar no local exato onde ocorrerá é um exercício que poucos são capazes de praticar.

Afastamo-nos do mistério! Sendo esssa nossa condição humana, nos afastamos da escuridão e de tudo aquilo que não conseguimos razoavelmente explicar. Ao chegarmos em casa a nossa primeira atitude é acender as luzes e verificar se tudo está exatamente como deixamos ao sair. Mas o vasto mundo das ruas, sua rotinas e procedimentos, também adentram junto de nós. Somos entidades condutoras de todo tipo de respostas, inclusive aquelas que julgamos já esquecidas, ou pensamos ter deixado lá fora.

Há uma infinidade de pontos ou posições estratégicas em que podemos ou não definir o  encontro, mas preferimos um local privilegiado, onde nossa segurança pessoal esteja credenciada como possibilidade real de êxito. Este ponto inclui um senso racional de segurança pessoal, ou seja, o comum e rotineiro, sem qualquer interferência do abstrato, daquilo que induz ao mistério e à vida.

Mas, de alguma forma se faz necessário contrapor o mistério à estupidez que habita cada um de nós. Em verdade, esse mistério não é louvável, ou talvez, seja até digno de censura por parte do consenso e da razão. Se algo ou alguém não nos convidar ao inusitado, continuaremos dormindo e sonhando rotinas, as mesmas que nos dão uma falsa segurança de existir razoavelmente dentro de padrões aceitáveis.

Há um propósito sutil, ou até mesmo uma aparente incongruência no Tratado. O seu propósito é nos conduzir pelas mãos a um novo ponto de encontro, onde a convicção não esteja tão segura de si quanto agora. E, em seguida, ratificar essa posição como o início de uma nova fase de assimilação e relacionamento. A isso chamamos ‘Uma nova maneira de pensar’. Não existe posição mais convidativa à Observação de Si Mesmo que aquela em que nos encontramos distantes do nosso sistema normal de precisar e nos reconhecer como seguros e protegidos. Somente assim nos abstemos de julgar algo como ofensivo e prejudicial aos artifícios impostos pela razão.

Quando alteramos conscientemente a posição do ponto de encontro e impomos a nós mesmos a não-pecepção emocional  de tê-lo mudado sistematicamente (ou seja, aquilo que chamamos ‘fazer’), as possibilidades de reencontrar nossa totalidade tornam-se bem maiores. Algo ‘fez’ e assim possibilitou mudanças. É um não-ego, uma não-convicção, um tributo à gratidão. É como se partes fagmentadas de nós mesmos, separadas e não-comunicantes, tivessem a oportunidade de se recompor como um todo pensante e ativo. A isso chamamos ‘homem integral’, aquele que unificou as partes dissociadas de sua personalidade. Em outras palavras,  torna-se possível a Lembrança de Si Mesmo, que seria impossível na rotina de uma vida plenamente segura e repleta de marasmos.

Vale salientar que não existe nada mais difícil em nossa vida de homens comuns que mudar a posição previamente fixada do ponto de encontro. Ele encontra-se selado pelas circunstâncias e nutrido pela razão. Diria que este ponto de encontro é um auto-reflexo, induzido por tudo aquilo que nos é condizente. Mudar a sua posição é a coroação daquilo que chamamos de ‘Uma nova maneira de pensar’. Portanto, é essa mudança que possibilita deixar a terra firme de nossas convicções, abrindo assim um leque a novas possibilidades e conquistas

UM VERDADEIRO MISSIONÁRIO É AQUELE QUE MARCA UM NOVO PONTO DE ENCONTRO CONSIGO MESMO, SEM NECESSIDADE DE ALTERAR NADA À SUA VOLTA.

No caminho de um Homem de Conhecimento mudar esse ponto de encontro é tudo, pois aquilo que foi demarcado pela tradição e previamente escolhido por outros fica para trás.  Mas quando insistimos em mantê-lo coeso abrimos mão do novo, ou seja, nos mantemos selados a toda e qualquer possibilidade. É a versatilidade deste ponto que desnuda sentimentos e a maneira como interpretamos o mundo; como nos sentimos e reagimos diante de eventuais circunstâncias. Uma das maneiras práticas de alterá-lo  é abrindo mão da vaidade e auto-importância, possibilitando receber ao  outro com espírito aberto e alma festiva.

QUANDO ABRIMOS MÃO DA SOLIDEZ DE NOSSAS CONVICÇÕES, PERMITIMOS AO OUTRO FLUIR EM NOSSO SER, COMO AS ÁGUAS DA VIDA ROMPENDO OS NÓS DE UM BAMBU.

Lembramos que a compreensão emocional somente chegará anos após a consolidação de um novo ponto de encontro, que por sua vez também deverá abrir mão de suas convicções para permitir ainda a ascensão de outro, e ainda outro, e mais outro. Isto é real, constante e tem cheiro de eternidade. Toda vez que permitimos ao universo fluir, fluimos junto dele.  Estar sempre aberto ao novo é tudo na vida de um Homem de Conhecimento. Ele sabe que por analogia a ascensão é como uma escada estreita no acaso, se permanecemos cativos em qualquer degrau, além da estupidez e ignorância de nossa atitude, ainda comprometemos o fluxo constante do ir e vir. Na Escola Bíblica esta escada é conhecida como ‘Escada de Jacó’. Anjos sobem e descem no interior do homem, por uma escada conhecida como Sushuma e Pingala. Todo o processo é interior e o ponto, tanto de partida, quanto de chegada é determinado pelo ponto de encontro.

É PRECISO POSSIBILITAR CONTINUAMENTE NOVOS PONTOS DE ENCONTRO, PARA QUE POSSAMOS COMPREENDER O PREÇO TREMENDO QUE PAGAMOS PELO SIMPLES FATO DE EXISTIR.

No exercício prático da vida somos convidados a marcar novos pontos de encontro quando nos vemos diante de um relacionamento fracassado, ou quando perdemos um ente querido, ou ao sermos despedidos de um emprego. Quantas vezes as intempéries nos arrojam a novos encontros e desencontros.

A MENTE DO HOMEM É UMA NAU SEM RUMO, FIXAR UM PORTO É A SUA MAIOR ESTUPIDEZ. CADA PORTO DEVE SER VISTO COMO GRATIDÃO E PONTO DE PARTIDA PARA UM NOVO APRENDIZADO.

É preciso estar sempre aberto, sem a prisão das doutrinas, dos dogmas, dos credos, das crenças, das rotinas, da razão, da convicção, das justificativas, para lançar asas ao vento, veleiros a singrar o desconhecido em busca de novos pontos de encontro. Somos ‘Viajantes solitários do Apocalipse’ , por isso a Sabedoria dos Tempos nos diz: “Sai da tua terra e vai”. Ou seja, ‘Vai ao encontro de novos pontos, outras possibilidades, onde tudo possa se transformar em comunhão com o teu ser e a nova terra onde habitas’.

A VERDADEIRA MISSÃO DE UM HOMEM ESTÁ MUITO ALÉM DA FIRME CONVICÇÃO DE SUA IDEIAS. POR ISSO A SABEDORIA DOS TEMPOS NOS DIZ: “VAI, ONDE TE MOSTRAREI”.

Acreditar que é possível é o começo de tudo. Não podemos nos cansar nunca, nossas pernas podem não responder com tanta eficácia, mas a mente há de voar e alcançar o misterioso, antes do anoitecer. Lembrando sempre que o universo está em contínuo movimento, daí tentar solidificar um ponto como raíz e sinônimo de segurança pessoal e familiar é uma tremenda estupidez. É preciso marcar um novo ponto de encontro a cada segundo, e estar aberto  a todas as circunstâncias que o acompanham.

SIM E NÃO POVOAM O CORAÇÃO A CADA INSTANTE, TENTAR FAZER DO OUTRO UM PONTO DE ENCONTRO SEGURO E EFICAZ É PERDER-SE A SI MESMO NO LIMITADO MUNDO DAS PAIXÕES E POSSES.

Em verdade, o ponto de encontro não é um lugar previamente escolhido. Por analogia é um ‘estado de ser’ que possibilita mudanças. O ‘ser’ é um conjunto interior de fatores que nos credencia como seres espirituais em dado momento. Podemos estar abertos a determinadas circunstâncias ou não; significando estar submetidos a um menor ou maior número de leis. Cada circunstância trás em si um certo número menor ou maior de leis.  Portanto, estar disponível para o encontro, ou em outras palavras, colocar-se no local onde o encontro se processará não depende de mera escolha pessoal, sendo antes de tudo uma questão de poder pessoal.

O encontro não é uma formalidade. Caso estejamos nos preparando para ele ao longo dos anos, com certeza, ele não ocorrerá. Se você presta louvores ao Senhor com a finalidade de alcançar o Céu, lamento lhe dizer mas está caminhando para o nada. Quem escolhe o ponto de encontro é o Desconhecido, quem determina sim ou não é o Acaso. Interesses pessoais não movem um centímetro sequer na sua direção. Mas atente para o que vamos lhe dizer: as águas do rio podem lhe conduzir de encontro a ele, basta fluir com elas; as asas do vento são hábeis condutoras. Não existe caminho mais simples e pleno de significado para alcançá-lo que o brilho dos olhos de uma criança. E toda e qualquer atitude desprovida de propósito, que tiver como prioridade elevar o espírito do nosso próximo também é um condutor eficaz.

Cada novo ponto de encontro é uma possibilidade de reencontro, um ato repleto de magia. Mas é necessário estar livre de preconceitos; não se deixar limitar.

Que assim seja!

142 – Uma escola de contempladores

In Artigos on 17 de fevereiro de 2012 at 16:43

Contemplar é uma dádiva que herdamos da espécie.  Todo o reino tanto mineral, quanto vegetal ou animal é contemplativo.

“DIZEM QUE TODOS OS RIOS CONTEMPLAM O MAR INFINITO. DIZEM QUE ALÉM DO HORIZONTE TUDO SE FAZ MAIS BONITO. DIZEM QUE AS ÁGUAS DA FONTE SENTEM SAUDADES DO MAR E QUE BORBULHAM, E SALTAM, E PULAM, E CORREM QUERENDO CHEGAR”.

Contemplar é uma arte e tem relação direta com a ‘Segunda Atenção’. Os contempladores sabem que é preciso ‘Parar o Mundo’, para que a mente em comunhão com o espírito possa aquietar-se o suficiente para vislumbrar o desconhecido. Quando paramos o mundo, o fluxo ininterrupto dos pensamentos cessa por alguns instantes, permitindo assim ‘Ver além dos montes’ (art. 085). Os Guerreiros Sonhadores são hábeis contempladores, por isso materializam sonhos a partir do quadro energético de sua percepção.

“DIZEM QUE TODAS AS FLORES CONTEMPLAM O AZUL INFINITO. DIZEM QUE ALÉM DO HORIZONTE TUDO É MAIS VERDE E BONITO. DIZEM QUE AS FLORES DO CAMPO SENTEM SAUDADES DO SOL E QUE BEM CEDO SE ENFEITAM, SE AJEITAM, ESPREITAM PRA VER O ARREBOL.”

Toda a Terra é amor, tudo respira luz e eternidade. O reino canta odes à criação, reacende na alma a grandeza do Criador. Não se pergunta por Deus, apenas contempla um universo verde de esperança e um gramado azul de estrelas. O reino não reconhece cores, apenas a beleza da luz refletida nos olhos do Poeta.

“DIZEM QUE TODAS AS NUVENS CONTEMPLAM O ESPAÇO INFINITO. DIZEM QUE ALÉM DO HORIZONTE TUDO É MAIS CLARO E BONITO. DIZEM QUE AS NUVENS SE ENCONTRAM PRA CONVERSAR SOBRE O MAR, E QUE TROVEJAM E BRIGAM, E PINGAM, E CHOVEM QUERENDO VOLTAR”.

A Terra é uma ESCOLA de contempladores. Toda a sua extensão respira firmamento e eternidade. Assim é o homem em sua origem, uma criança a contemplar os olhos da Grande Mãe. Há um peito repleto de leite; uma cachoeira de sonhos a banhar o leito de um rio, antes seco e sem vida.  Assim caminham os Guerreiros Sonhadores sobre a Terra: Contemplando, amando, sonhando e sentindo o fluxo contínuo do viver.

A TERRA CONTEMPLA O SOL; A LUA CONTEMPLA A TERRA; TODOS OS PLANETAS CONTEMPLAM O FIRMAMENTO, E NUM CÍRCULO DE LUZ DÃO BOAS VINDAS À ETERNIDADE.

Não é preciso muito esforço para ver aquilo que o homem moderno contempla. O homem moderno é carinhosamente reconhecido na ESCOLA como ‘um idiota de plantão’. Contemplamos diariamente a tela de um aparelho de televisão; contemplamos as vitrines das lojas; contemplamos as saias justas das belas moças. Contemplamos índices comerciais e batemos palmas vangloriando o consumo. Milhões de dólares são investidos no mercado para nos induzir a uma contemplação artificial. O inacreditável de tudo isso é que se investe mais para nos induzir ao ‘IMAGINÁRIO DE DEUS’ com suas doutrinas e rituais, que na realidade do Planeta, seus recursos naturais e preservação. A ambição do homem está ultrapassando todos os limites aceitáveis e interagindo com o absurdo em nome da sustentabilidade ambiental, social e humana.

CONTEMPLAMOS A ETERNIDADE SEM COMPREENDER QUE ELA É UM INSTANTE DE TEMPO CONTIDO NO AGORA. ENFIM, ETERNIDADE É UM RECURSO DO UNIVERSO QUADRIDIMENSIONAL, ONDE O FATOR TEMPO REFLETE ESPAÇO E LIBERDADE.

A arte de contemplar tem como protagonista maior o Cordeiro, portanto viaja do Chakra de Mil Pétalas (art. 080) ao Chakra do Coração (art. 083). O seu habitat é o coração do homem e por analogia o coração de Gaia, a alma da Terra. Os Contempladores são a essência da ecologia, os verdadeiros amantes do Planeta, aqueles que unem o Céu e a Terra numa dádiva de amor incondicional e gratidão. Mas quando a arte da contemplação é ferida na sua essência entram em cena os Guerreiros Espreitadores, como um convite ao retorno do homem à sua origem divina. A espreita pertence ao Lobo, é a sua forma de contemplação. E nem sempre é reconhecida pelo homem como extremamente necessária ao seu despertar.

SOMENTE OS CONTEMPLADORES DO FIRMAMENTO EM TODA A SUA EXTENSÃO SÃO CAPAZES DE VISLUMBRAR O UNIVERSO DE LUZ DENTRO DE SI MESMO.

A contemplação traz em si a ausência de todo e qualquer julgamento. Ela antecede o sonhar, mas ao mesmo tempo é fruto do sonhar ativo. A obstinação não contempla e a ansiedade também não, enquanto a depressão é uma não-contemplação. A auto-importância não sabe o que é isso e a auto-estima não a reconhece como necessária. A ‘Consideração Interna’ nunca faz uso dela, enquanto a ‘Consideração Externa’ é a própria contemplação numa prática genuinamente pura.

OS CONTEMPLADORES  DA VASTIDÃO DO UNIVERSO NUNCA ESTÃO SÓ, POIS RECONHECEM A INFINITA GRANDEZA DO CRIADOR. INGRATIDÃO É AUSÊNCIA DE CONTEMPLAÇÃO.

Podemos iniciar contemplando as plantas, todas as plantas por mais pequeninas que sejam. Mas é preciso cuidado ao contemplá-las, pois redirecionam a luz ao contemplador. Se a projeção de luz do contemplador não for autêntica, ou seja, fruto de um verdadeiro propósito, pode receber impressões ruins. O reino vegetal é inteligente e reconhece nossas intenções, também pode sentir as emanações de nosso ser.  Todo aquele que ainda não aprendeu a arte de Observar a Si Mesmo pode se sentir pouco à vontade ao contemplá-las. Depois, contemplamos as árvores. Contemplar árvores é diferente de contemplar o verde. Devemos escolher uma árvore em especial e adotá-la como a uma filha. No meu caso particular, tenho os eucaliptos como filhos adotivos, pois sempre foram os meus preferidos na contemplação. Quando os contemplo minha ‘Segunda Atenção’ é levada por eles, então viajo no perfume de suas flores para o desconhecido. Quando ainda bebê, um grande raio caiu no quintal de nossa casa, destruindo por completo um pé de manga e atingindo o quarto onde dormia. Suas fagulhas chegaram a queimar parte de uma antiga cortina, mas o berço não foi atingido. Havia nele folhas de eucalipto que mamãe colocava em vários pontos da casa em caso de tempestade.

Também contemplamos as pedras. Elas possuem um aroma especial. Sua pele é sutil como as pétalas de uma rosa, quando contempladas por um Guerreiro Sonhador. As rochas não se abrem facilmente ao contemplador, mas vale à pena tentar, pois são reveladoras de segredos muito bem guardados pela Terra. Um contemplador de pedras pode sentir a presença delas e de todo o reino mineral no seu próprio corpo.

Com o tempo irá perceber que tanto as árvores como as pedras ficam sossegadas e tristes ao anoitecer, e nos dão a impressão de estar nos contemplando, e não nós a elas. Quando estamos depressivos fugimos do anoitecer. É o momento onde nos tornamos vulneráveis, pois trocamos de lugar com o objeto da contemplação.

A chuva é um caso especial de contemplação, e também deve ser evitada por aqueles que sofrem de estados depressivos. A água tem fluidez e pode nos conduzir facilmente pelo seu poder, o mesmo acontecendo com as chamas de uma vela. Alguns Guerreiros Sonhadores usaram pontes formadas pela chuva e pelo nevoeiro para cruzar as ‘Linhas Paralelas’ e assim buscar conhecimento, além do conhecido. A contemplação da chuva pode nos levar a outro estado de consciência, principalmente se tiver como tela de fundo o mar.

As nuvens também são um caso especial de contemplação. Os Guerreiros Sonhadores prendem nelas a sua ‘Segunda Atenção’ e as cavalgam na imensidão do céu. É assim que os Anjos de Deus sonham a Terra, da mesma forma que o Lobo espreita a sua vastidão. Lembrando que o Lobo é um Guerreiro espreitador, portanto, a sua contemplação é feita a partir dos Chakras inferiores. Qualquer um de nós que tentar fazer uso dessas práticas ainda presos às rédeas da ‘Imaginação’ não terá sucesso. Primeiro é preciso vencer a si mesmo e aos limites impostos pela ‘Identificação’, antes de qualquer tentativa.

AS MULHERES SÃO CONTEMPLADORAS POR NATUREZA ÍNTIMA, E TAMBÉM HÁBEIS ESPREITADORAS, POIS TRAZEM O CHEIRO DO CIO; O LOBO CATIVO NO BAIXO VENTRE. SÃO AS GUARDIÃS DE GAIA, SEU ÚTERO, CARNE, SANGUE E VIDA. A FORMA COMO AS TRATAMOS NA TERRA REFLETE COMO O LOBO NOS VÊ COMO ESPÉCIE.

A ESCOLA nos diz que somos extremamente frágeis, diante do poder descomunal da Grande Mãe. É preciso cuidado ao contemplar as águas do rio, ou a imensidão do mar. As águas podem facilmente colher a nossa ‘Segunda Atenção’, levando-a consigo para sempre. Lembrando que as ‘Águas da vida’ (art. 075), simbolizam o aspecto inconsciente feminino de Gaia, portanto, a sua natureza mulher. Lembram-se da frase? ‘Ele se deixou levar para sempre no coração daquela mulher’. O coração mulher é um oceano imenso, e se perder nele é uma viagem sem volta.

INSANO É O HOMEM QUE SE AVENTURA ALÉM DA NOITE ESCURA DO INCONSCIENTE. SE ASSIM PROCEDER SOMENTE UM CORAÇÃO MULHER PODERÁ RECONDUZI-LO À VIDA.

Toda a arte da magia da antiguidade e idade média, inclusive nos dias de hoje, tem os seus alicerces na contemplação. O Mago sabe conduzir a ‘Segunda Atenção’ por labirintos não dados a conhecer ao homem. Toda a arte virtual da atualidade faz uso da contemplação induzida para prender a ‘Segunda Atenção’ aos seus artefatos tecnológicos. A magia da antiguidade trocou de nome e agora chama-se ‘Tecnologia da Modernidade’. A contemplação, tanto quanto a arte dos Videntes Toltecas, pode ser direcionada para o bem (Magia Branca), ou servir ao mal (Magia Negra). Tudo depende da pré-disposição do homem.

Que assim seja!

Este texto contém três citações que foram adaptadas da letra original do Pe. Zezinho, inseridas em uma de suas canções: ‘Dizem que é saudade’. Ele sempre será um dos fatores mais influentes na minha formação tradicional católica. Sua vida é um exemplo de contemplação e gratidão ao Pai. Minha adolescência nos grupos jovens foi marcada por seu amor e dedicação. Suas canções são marcantes na minha vida e ainda as tenho comigo. Quando o Concílio Vaticano II e o Encontro de Puebla abriram as portas da Igreja aos jovens e aos mais necessitados, ele se tornou o mais influente nome do catolicismo junto a nós jovens, cheios de esperança por um mundo melhor.

141 – Viajantes solitários do Apocalipse

In Artigos on 10 de fevereiro de 2012 at 22:25

Sentado à mesa da sala de estar eu a via arrumando seus pertences com as mãos trêmulas e gestos apressados. Seu olhar úmido não desviava um só instante do objetivo. Sacolas mal arrumadas de um jeito qualquer, sem precisar, nem medir, avolumavam-se em cinzas de um passado eterno, de incontidas juras de amor. Seus cabelos encaracolados, agora colados ao suor do rosto de uma tez morena; pele macia que ancorava nos poros sussurros de uma paixão. Por vezes lançava em minha direção, de forma disfarçada e cruel, um olhar lupino. A intensidade dos movimentos deixava bem claro o firme teor de sua decisão.

UM SOL DE QUASE DEZEMBRO SEMPRE HÁ DE PRECEDER AS ÁGUAS DE MARÇO; DO MESMO MODO QUE AS SOMBRAS DA NOITE ACALANTAM O ALVORECER.

Da sala de estar levantei-me, e sem dizer nenhuma palavra peguei a mochila. Abri-a e calculei de maneira brusca o espaço necessário para meia dúzia de bugigangas: alguns CD’s de valor sentimental, meias necessárias para uma semana, e o celular, onde sua imagem e música insistiam em me fazer relutar de minha decisão. Calcei o tênis ainda molhado, pois chovera  ao cair da tarde. Peguei apressadamente o bombom que ainda restava na caixa que lhe presenteara, abri e vi que era de avelãs, os seus preferidos. Senti o gosto ainda contido de seus lábios úmidos junto aos meus, enquanto recostada a um canto da cozinha ela fingia não me ver.

 A ANGÚSTIA DE UMA LONGA ESPERA É O PRENÚNCIO DE UMA CHEGADA FESTIVA; DO MESMO MODO QUE UM RIACHO DE ÁGUAS CRISTALINAS SONHA RENCONTRAR SEU OCEANO DE LUZ, SUA PÁTRIA, SUA GENTE.

Desajeitada levantou-se do canto sujo de uma cozinha por fazer, e num gesto incontido de volúpia e dor lançou o copo de vidro contra a parede. Estilhaços espalharam-se pelo chão, enquanto um líquido vermelho e quente lhe escorreu pelas mãos. Levou-as aos olhos e suas lágrimas tomaram um teor rosa acinzentado, tendendo ao magenta. Mal se podia ouvir os seus soluços, abafados pelos latidos de um cão no quintal. Indiferente a tudo decidiu ir até à porta, os últimos pertences eu os estava colocando na mala do carro. Fechei-a com força, como a demonstrar o teor resoluto de minha decisão. Mas minhas mão têmulas a divagar gestos apressados, desnudavam lembranças de um passado repleto de carícias e ternura.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO SÃO TRÊS FORÇAS QUE SE REALIZAM NO AGORA. O NÃO INCONSEQUENTE DE UM TALVEZ, É A QUASE CERTEZA DE UM SIM QUE SE APROXIMA.

Ao bater com força o porta-malas, como se a pedisse para apressar os passos, diminuindo assim a minha angústia, tentava em vão adiar a sua decisão. Há um grito incontido no olhar, uma solidão de espinhos a perfurar as veias do coração. Como pode o tempo ser um ente tão frio e cruel em suas decisões? Não há limites para a sangria exaustiva dos sonhos, quando feridos de morte na sutileza de sua espera. Ela, decidida e a passos rápidos, tirou do jeans as chaves da casa, jogando-as em direção ao meu corpo. Sua voz firme e rouca assertiu-me que fosse feliz, sem nenhuma palavra a mais tomou a direção do portão.

HÁ ALGO DE MUITO BELO NO ADEUS, PARECE UM GESTO DE RECOMPOSIÇÃO DO SOLO APÓS A ANGÚSTIA DA QUEIMADA. AS CINZAS DA DOR ADUBAM O SOLO E O VERDE TORNA-SE PASTAGEM A NOVOS REBANHOS.

Ao ouvir o som extridente do portão, correu e o abriu apressadamente. No silêncio das lágrimas sua voz rouca insistia que voltasse, sem que nenhuma palavra se fizesse ouvir. O som do silêncio se confunde com o cantar dos pássaros, da mesma forma que a orquestra das margens dá o tom exato ao desfilar soberano das águas do rio. Com gestos nervosos de uma lucidez cristalina procura pelas chaves, sem se dar conta que o portão está totalmente aberto. Pelo retrovisor a vi de pé junto ao portão, com olhar triste a divagar, mas o coração pede a Deus proteção, onde quer que eu vá.

AINDA ONTEM O REPICAR DOS SINOS DE UM ENTARDECER LÚDICO VEIO A MIM E DISSE: EU TE AMO. HOJE SELEI OS OUVIDOS, POIS O MESMO REPICAR TEM O TOM DISTORCIDO DE UM ADEUS.

Uma canção romântica a convida a voltar, mas a liberdade das ruas a incita a prosseguir. Outros portões fecham ao som de dobradiças sonolentas, outros abrem, e ainda outros não-portões estão plenos à chegada e à partida.

FRONTEIRAS IMAGINÁRIAS DA DOR SÃO TÃO REAIS COMO A MORTE; SÃO PONTES QUE RUÍRAM, MAS AINDA RESTAM O RIO E AS MARGENS.

Viajantes solitários do Apocalipse somos todos por origem e destino. Choramos ao abandonar o aconchego de Gaia, rompendo os pulmões ao primeiro contato com o ar. Singramos então o mar do existir; velas ao vento, veleiros, fúria e flor. Somos insanos clandestinos num mar bravio, sob as tormentas de um mundo aflito. Sofremos desatinos e dor, onde o porto amigo de um oásis de luz nos acolhe e reconduz.

CADA PORTO ANUNCIA UMA NOVA VIAGEM, CUJOS RUMOS NEM SEMPRE SÃO AQUELES QUE JULGAMOS ESCOLHER; CUJA OFERTA NÃO NOS DEIXA OPÇÕES, ALÉM DO ACEITAR E PROSSEGUIR.

Navegamos uma nave mãe chamada Terra. Repleta de sonhos ela conduz mais de sete bilhões de sonhadores, quase sempre adormecidos e inconsequentes, navegando um imenso oceano de estrelas. Atores mágicos no palco da sobrevivência acenamos a nós mesmos como protagonistas e platéia, só nos restando fazer-nos sonhar e sorrir. E assim prosseguimos, algumas vezes relutantes em remar, outras seguindo o fluxo contínuo das águas. Somente a ternura da chegada traduz na alma um breve instante de descanso, reflexão e paz.

ACENA-NOS DO ALAMBRADO O LOUCO, ENTÃO O VEMOS A ELE E À SUA ROSA BRANCA. O SEU ACENO É UM CONVITE A PROSSEGUIR SEMPRE EM FRENTE, COMO SE NUNCA TIVÉSSEMOS EXISTIDO ALÉM DA ETERNIDADE DO AGORA.

Que assim seja!