Lázaro de Carvalho

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138 – O espelho estilhaçado

In Artigos on 29 de dezembro de 2011 at 21:05

Numa daquelas madrugadas insanas, onde somente a noite é capaz de ocultar o silêncio e a dor, estava à deriva ao labor dos ventos, quando aportei no cais daquele bar às margens de uma rua quase deserta. Pedi um conhaque, talvez uma dose a mais esticasse a calada, me possibilitando ver além das espessas nuvens de mim mesmo. Bebi de uma só vez para não ter do que me arrepender depois.

Poucas mesas, todas vazias, exceto uma. A um canto, quase esquecido, um conhaque intocado esperava por algum trago decidido. Um leve carinho na taça me chamou a atenção. Aqueles dedos negros e compridos pareciam escrever algo na superfície seca e voraz. Erguendo os olhos acenou com a cabeça, pedindo que me aproximasse. Puxou uma das cadeiras, e me acomodei. “Quer que lhe revele mais um segredo? Esta taça é minha companhia. Não bebo”

Foi assim que novamente o encontrei: O Colecionador (art. 110). Com olhar fixo em mim, em momento algum impôs qualquer tipo de pensamento além do meu próprio. “Você continua agindo como um homem comum, o seu impulso diário o carrega. Continua agarrado à sua racionalidade, mas sua estrutura hoje é inconsistente. Reparou nisso?” O que fazer, meu velho Amigo? Perguntei. “Nada”. Respondeu. “Você não pode voltar atrás, no entanto lhe falta magia para seguir em frente. Diria que você está num mato sem cachorro”.

Passamos algum tempo observando as águas de um córrego, que desfilavam aos fundos do bar. Então, prosseguiu: “O espelho de si mesmo, o seu auto-reflexo foi estilhaçado, não pode mais se guiar por ele. Já não reflete o convencional. Está além do seu alcance”. E apontando em direção à taça, sugeriu que bebesse um gole. Sem pensar duas vezes, assim procedi. Então, continuou. “Há uma impossibilidade de restaurar a sua continuidade, pois só resta dela alguns estilhaços no chão. No entanto, ainda não está convicto de sua nova posição, o que lhe impede de prosseguir”.

Foi quando notei que um casal, ambos vestidos de branco, ocupou uma das mesas nas laterais. Depois de uma breve pausa, disse: “Essa nova continuidade é muito tênue, e necessita de tempo para ganhar a solidez da forma. Você perdeu a segurança do imaginário, seus escudos e obstinação. E o horizonte que se descortina bem à sua frente não traz em si a segurança necessária para fazê-lo prosseguir em seu próprio mundo”.

Outro casal, também se cobrindo de vestes brancas, ocupou uma das mesas laterais à direita. Pareceu-me que lhe fizeram um breve aceno, mas não posso confirmar isso. Minha cabeça estava ainda muito confusa para testemunhar decisões. Perguntei-lhe, tocando levemente as suas mãos. Diga-me, o que devo fazer? Ao que respondeu: “Nada. Nem você, nem ninguém pode fazer absolutamente nada”. Olhou-me nos olhos. Eu estava perplexo diante de tal revelação. “O espírito faz, ou não faz. Não há como explicar isso. Se faz, você viaja o desconhecido. Mas não lhe será possível reconhecer isso utilizando os seus sentidos costumeiros. Se não faz, nada de novo lhe sucederá. Você prosseguirá dando nomes novos às antigas circunstâncias, mas não moverá um passo de onde se encontra agora”.

O ambiente já estava bastante solicitado. Chamou-me a atenção o fato de todos os clientes estarem vestidos de branco, e descalços. Mas os atendentes tinham vestes negras, embora todos também estivessem descalços. Sem se preocupar com a minha aparente aflição, prosseguiu: “Até pouco tempo atrás suas armas foram a obstinação, as posses, o poder de persuasão, a força e o ‘eu’. Mas já não as possui. No seu lugar lhe foram dadas: frugalidade, atenção, simplicidade e inocência. Seus aliados hoje são outros, mas não respondem à cobiça, à auto-importância e aos propósitos anteriores”.

Continuou: “É preciso dominar o espírito e direcioná-lo, segundo um propósito inflexível. Mas você ainda não pode fazer isso. Simplesmente, não pode fazer absolutamente nada. Quem faz é o espírito. Mas mesmo que soe como um paradoxo à sua mente confusa, o espírito somente fará se lhe for ofertado um ser de acordo com a magnitude de sua ação. Portanto, o estímulo parte de você mas quem realmente faz é o espírito. Sem o estímulo não há intenção, e sem intenção qualquer atitude é ineficaz”.

O velho bar às margens de uma rua deserta já não tinha espaço para tanta gente. Os atendentes corriam a colocar mesa e cadeiras na parte externa. Alheio a todo movimento, prosseguiu: “O que estou lhe dizendo ainda não é compreensível a você. Estou lhe falando a respeito de ‘Uma nova maneira de pensar’ (art. 003). A sua luta agora é contra a estupidez e a ignorância de sua cultura como um todo. Ela lhe determinou rumos, onde os seus recursos, ou seja, aquilo que é ‘real em si mesmo’ foi relegado ao esquecimento. Por isso, insisto em lhe dizer: Observe a Si Mesmo, pois é a única possibilidade que lhe restou para reativar na memória aquilo que você realmente é, ou seja, um ser mágico, repleto de possibilidades”.

“As ideias novas sobre as quais lhe falo têm a ver com o seu mundo interior. É uma canção que ensina a partir do agora. Uma canção que alimenta e torna possível prosseguir. É um alimento mágico que restitui a vida. Mas você não pode assimilar tudo isso que lhe falo aqui, pois muitas são as amarras que ainda o prendem ao mundo mesquinho de sua racionalidade.”

“PROSSEGUIR É TUDO QUE LHE APRAZ NO MOMENTO”.

 “NÃO HÁ LIMITES PARA UM GUERREIRO SONHADOR”.

Todos, então, se levantaram para contemplar o primeiro raio de luz de um alvorecer solitário. Brindaram a ele, enquanto cantavam de todo o coração. Lançou mais um olhar em minha direção e se pôs a caminho. E ainda acenou, como num gesto de adeus.

 “VEM, AMIGO! NÃO HÁ PERIGO QUE HOJE POSSA ASSUSTAR. NÃO SE ILUDA, POIS NADA MUDA SE VOCÊ NÃO MUDAR”.

 

FELIZ ANO DE 2012! BOAS FESTAS! BEIJOS BÁ, NETINHO E LÁZARO.

137 – Artefatos da mente

In Artigos on 21 de dezembro de 2011 at 21:01

“A TERRA, PORÉM, ESTAVA SEM FORMA E VAZIA; HAVIA TREVAS SOBRE A FACE DO ABISMO…”

A Mente Criadora declara e manifesta na matéria. A forma responde à sensatez daquele que cria e à insensatez daquele que extingue e mata. As emanações irrompem do caos absoluto da não-existência para o universo manifesto da sensação e da forma, portanto, são condizentes com a mente que as encanta e seduz, e respondem submissas às ordens e valores que irrompem do ser. Deus é um princípio ao mesmo tempo ascendente e descendente de todas as culturas manifestas em todos os povos da Terra. As emanações da água, por exemplo, nascem da mente divina, crescem no âmago de seu ser e escoam do seu corpo aos confins e afins de um universo relativo.

DEUS CRIOU O UNIVERSO; AINDA PENSA EM CRIÁ-LO; O ESTÁ CRIANDO; E NÃO SABE SE O CRIARÁ.

As decisões absolutas, contidas na linearidade de espaço/tempo, são apenas um limitador da mente humana. É como um bolo fermentado e repleto de ameixas, quando levado ao forno. As ameixas distam entre si à medida que a massa ganha forma, mas é completamente improvável que tomemos uma delas como a origem manifesta das outras. Somente nos é possível obter um referencial, pois aquilo que é absoluto está além do relativo e ao mesmo tempo contido nele. Não podemos ter um aval completo do bolo a partir das ameixas, pois são muitas em espécie e respondem além da linearidade, por profundidade e extensão.

SOMOS CO-CRIADORES DE UM COSMOS CHAMADO ‘EU’, E SEMEADORES DE VIDA NUM COSMOS IMEDIATAMENTE SUPERIOR, CHAMADO ‘TERRA’.

Para a infelicidade geral do ego, a que delimitamos e denominamos ‘EU’, nos outorgamos valores absolutos e ditatoriais, quando na verdade não passamos de uma ‘Legião de eus’ , com status de relatividade e escala (art. 048).

SE O UNIVERSO AINDA NÃO DESPERTOU É NATURAL QUE AINDA NÃO EXISTIMOS COMO ENTIDADES INDIVIDUALIZADAS.

Respondemos como espécie, portanto, o nosso ‘FAZER’ é absoluto na espécie. Somos pequenas gotas caindo das nuvens numa noite de tempestade; somos dependentes do vento e da intensidade das águas. Mas o orgulho manifesto na forma nos faz crer na importância da fertilização, e nos reveste de poder como adubadores do solo fértil de nossa mente imaginária. Basta que a intensidade assuma formas grosseiras e desproporcionais para que deixemos de ser fertilizadores e passemos então à lixiviação e às intempéries.

SOMOS CO-CRIADORES DE NÓS MESMOS, SENDO DEUS APENAS A EMANAÇÃO QUE NOS PERMITE ASSUMIR FORMAS E EXISTIR COMO ESPÉCIE.

OS GUERREIROS SONHADORES SONHAM E MATERIALIZAM SONHOS. DÃO FORMA AO CAOS DA EXISTÊNCIA, ENQUANTO DEUS DETERMINA OS LIMITES DE SUA AÇÃO.

Todo aquele que sonha e determina o existir é senhor de si mesmo na proporção exata em que respeita e não agride o sonhar do outro. O homem é divino na matéria, e a magia consiste em existir, permitir existir, coexistir, e existir além. A magia do agora não é completa sem um referencial de passado e futuro, mas quando se omite no passado ou teme o futuro torna-se irreal no agora.  Somos a própria Lei das Três Forças (art. 003): Elementares, Canalizadores e Criadores.

O HOMEM DESEJOU SER HOMEM E A SUA VONTADE SE FEZ NO PRÓPRIO HOMEM.

O HOMEM SE PERMITIU SER HOMEM, PARA QUE A VONTADE ROMPENDO DE SI MESMO TORNASSE REAL O SEU SONHO DE VIR A SER .

O HOMEM TORNOU-SE SENHOR DO PRÓPRIO HOMEM AO CONTER O SEU CRESCIMENTO LINEAR, IMPONDO A SI MESMO OS LIMITES DE SUA EXISTÊNCIA.

Estas são as Três Forças manifestas no mundo de Asiyyah. Os estudiosos da kabbalah a conhecem muito bem, pois são o OCULTO DE TODOS OS OCULTOS. E a tecem na Árvore dos Dez Sefirots, ou Árvore Sefirótica da Existência. Podemos afirmar, sem margem de erro, que Deus é o Princípio Manifesto do mundo ainda imanifesto, pois o Espírito “pairava por sobre as águas”, no Mundo ainda não manifesto do reino de Asiyyah.

NEM DEUS, NEM O DIABO, NEM O LOBO, NEM O CORDEIRO TEM EXISTÊNCIA REAL NA TERRA SEM A MENTE CO-CRIADORA DO HOMEM.

O PRINCÍPIO NÃO PODE SER NÃO MANIFESTO SE O AGORA É MANIFESTO; E NÃO HÁ MANIFESTAÇÃO SEM MENTE E FORMA.

NÃO SE PODE AFIRMAR A EXISTÊNCIA DE DEUS NA MENTE DO HOMEM, SEM TERRA, HOMEM, O BEM E O MAL.

E NÃO HÁ FUTURO OU ETERNIDADE SEM A PRESENÇA DIVINA NO CORPO, CONFIRMADA NA MATÉRIA E ASCENDENTE NO ESPÍRITO.

NÃO HÁ PASSADO SE A MENTE E A FORMA SE ABSTIVER DELE, POIS É REAL NA LEMBRANÇA E PRÁTICO NA VIVÊNCIA.

E NÃO HÁ FUTURO SE MENTE E FORMA NÃO O MATERIALIZAR NO SONHAR ATIVO, POIS O AGORA O TRÁS EM SI COMO POTENCIAL, MAS É A MENTE QUE O TRANSPORTA E CONCRETIZA.

Homens omissos são ociosos tanto no coração, quanto na mente. Isso porque o coração tem a sua própria mente, e responde por um Emocional Superior. Da mesma forma que a mente é potencial no intelecto, pois todo conhecimento além da forma, responde por um Mental Superior. Alma é emoção divina, pura; enquanto espírito, é sua materialização no Plano Mental Superior. Deus é aquele que tudo faz do espírito, por ser Ele mesmo a sua fonte, emanação e limitação. É o senhor das almas e responde pelas emoções santificadas que fazem morada no coração do homem.

O HOMEM É A EXPRESSÃO DIVINA NA FORMA, É UMA ALMA QUE POSSUI FORMA, PORTANTO É DIVINO E CO-CRIADOR DO COSMOS.

A DIFERENÇA ENTRE O HOMEM E DEUS É QUE DEUS ESTÁ DESPERTO O TEMPO TODO, ENQUANTO O HOMEM AINDA DORME NO SUBMUNDO DA IMAGINAÇÃO.

MAS QUANDO O HOMEM DESPERTAR JAMAIS SE VERÁ IGUAL A DEUS, POIS A CRIATURA É APENAS UMA FORMA E A FORMA NUNCA PODE SER IGUAL OU SUPERIOR À MENTE DA QUAL FOI GERADA.

A própria morte é um artefato da mente quando condicionada à vida. A morte é a fiel amiga e conselheira do homem desperto, bastando para isso não estar identificado com a vida. Quando nos identificamos com a vida, nos perdemos em suas ilusões de eternidade, posse e poder, e todo o referencial de morte torna-se inacessível ao homem. Todo homem de conhecimento ao completar o seu ciclo de aprendizado na Terra, queima de dentro para fora e sua forma flui no universo como uma centelha, apaga-se e extingue, como se jamais tivesse existido.

A ISSO EU CHAMO DE GRATIDÃO ABSOLUTA À TERRA, AOS HOMENS E A DEUS, EM PRESENÇA, VERDADE E VIDA.

Que assim seja!

 

           

136 – A criança é o pai do homem

In Artigos on 6 de dezembro de 2011 at 19:37

O professor Jung nos ensina que somos originários do arquétipo primordial; o Sr. Gurdjieff nos fala a respeito de nossa essência ter origem nas estrelas, ou mundo 6, no Raio de Criação. Diversas culturas introduzem a simbologia do arquétipo criança como modelo integral para o processo evolutivo do homem, ou seja, um lastro infinito de possibilidades latentes. Em torno da criança orbita o arquétipo do guerreiro sonhador, ou um universo crescente que interage com todas as possibilidades.

O LOBO E O CORDEIRO MANIFESTOS NA CRIANÇA SÃO INTEGRAIS, SENDO QUE AMBOS, ALÉM DA PRÓPRIA CRIANÇA, ESTÃO SUJEITOS AO AMPARO DE FORÇAS SUPERIORES.

Quando este universo criança aproxima-se do estágio tridimensional da Terra sua alma sonhadora anseia por um modelo de pais biológicos perfeitos, como perfeitos são os pais primordiais. Mas ao iniciar o seu processo de evolução por meio de uma célula intra-uterina começa a se dar conta do mundo de contradições que a espera. Como um sino que ao badalar numa igreja próxima produz vibrações que são recebidas pelo sistema auditivo na forma de sons, também a criança entra em consonância psíquica com tudo que ocorre nas proximidades. Desde os primeiros momentos de sua vida já começa a se dar conta do universo de imperfeições que a rodeia, e como um animalzinho acuado se contorce de medo em um cantinho do útero. Toda e qualquer manifestação externa de violência é absorvida pelo feto com uma intensidade muito maior que aquela que normalmente aprendemos a conviver no cotidiano. POR ISSO, A ESCOLA É IRREDUTIVELMENTE CONTRA QUALQUER IMPOSIÇÃO DE ABORTO.

Toda criança no seu processo de evolução interior não maculado pelas experiências humanas é perfeita, por trazer em si mesma um leque infinito de possibilidades ainda não contaminadas pelas agruras da vida. Entrar em contato direto com esses pequeninos seres de luz é uma oportunidade grandiosa e rara para os pais biológicos. Mas a ânsia de inseri-los numa cultura, ou modelo social viciado pelas dicotomias, ou extremos, tira dos pais a real possibilidade de OBSERVAR A SI MESMOS. Perdemos então a oportunidade rara de nos LEMBRARMOS DE NÓS MESMOS, ou seja, de que somos sementes para um novo tempo, um universo de possibilidades latentes, infelizmente limitado pela imaginação e identificação.

Passam então à cultura das respostas condicionadas, fazendo da criança um projeto de continuidade de suas próprias ideias e convicções, como se o filho fosse um troféu de auto-importância, uma posse. “Este é o meu filho”, dizem com orgulho estampado no rosto, “É a cara do pai”. Pouco temos à acrescentar, pois a identificação com o imaginário já está em andamento. Um homem adormecido não pode entrar em contato direto com a fonte, ou universo desperto, por isso leva junto de si todo um aparato de defesas compensatórias. O sistema é tão cruel e ignorante que são capazes de realizar “festinhas de um ano”, com algazarra, bebida e som estridente, quando é justamente o contrário que a criança necessita. Não é necessário acrescentar aqui que tal festa não tem absolutamente nada a ver com o universo da criança, mas serve como um modelo de coação e coerção sobre o arquétipo infantil, além de reverenciar a auto-importância dos pais diante dos amigos mais próximos.

Atentem para estas palavras do psicólogo junguiano Charles Breaux: “Como bebês buscamos a nutrição e a orientação inerentes a esses progenitores psicológicos através da relação com nossos pais biológicos”. Em seguida, ele afirma aquilo que descrevemos nos parágrafos anteriores: “A necessidade fundamental de nos relacionarmos com a Grande Mãe (art. 097) e de sermos alimentados, protegidos e guiados por ela, muitas vezes foi frustrada dolorosamente pelas inequações de nossos pais biológicos”. Ainda nos diz: “Os complexos emocionais que as crianças desenvolvem e os valores psicológicos absorvidos do ambiente parental criam barreiras ao crescimento”.

Compreendam que essas barreiras, ou entraves psicológicos nos faz preencher o vazio de duas maneiras: Ou somos impelidos por privações ou controlados por defesas compensatórias. Em ambos os casos perdemos contato com o Lobinho (art. 076) que um dia fomos. Assim, as possibilidades reais de aprendizagem são inerentes à criança e não ao homem. Ao homem ficou restrito o universo da racionalidade para justificar de forma satisfatória a sua perda existencial.

A CRIANÇA E O PAI DO HOMEM, E NÃO O CONTRÁRIO. ENQUANTO COMEMORAMOS O SEU NASCIMENTO ELA ASSISTE À NOSSA DEGRADAÇÃO E MORTE.

QUANTO MAIS DISTANTES ESTIVERMOS DE GAIA E DOS SEUS CICLOS NATURAIS, MENOS CONTATO TEREMOS COM A NOSSA CRIANÇA INTERIOR (ART. 069).

Diz-nos o conhecimento dos Feiticeiros Toltecas que a fim de possibilitar a materialização do sonho criança os pais biológicos tiveram que abrir mão de 50% de sua disponibilidade energética existencial. Assim o pai cedeu 50%, enquanto a mãe os outros 50%, perfazendo o primogênito uma integralidade de 100%. Por isso as primogenituras eram vistas como um diferencial nas culturas antigas. Também tem uma relação direta com esse conhecimento a célebre frase do Mestre Jesus: “Não separe o homem aquilo que Deus uniu”. Os 50% restantes do homem, somados aos 50% da mulher criam uma integralidade, ou “união”. Vamos um pouquinho mais além: como pai, mãe e filho formam uma realização individualizada de Três Forças (art. 003), a sua ideia de unidade passa a ser inserida num universo de quatro dimensões: Pai, mãe, filho, família. O homem não tendo acesso aos poderes de um universo quadridimensional não poderia através de suas próprias leis separar aquilo que Deus uniu. Portanto, a infinita grandeza da família no contexto cristão primitivo. Outro ponto importante, agora dentro de um contexto tridimensional: Sendo o filho a Força Neutralizante (art. 038) dessa Tríade, será a Força Ativa da próxima, ou seja, aquele que possui todas as possibilidades latentes de evolução.

O VERDADEIRO CONHECIMENTO PERTENCE POR DIREITO AO FILHO E NÃO AOS PAIS, POR ISSO O PAI ENVIOU O FILHO À TERRA, POIS SENDO HERDEIRO DE URANO E GEIA, ERA A CONTRAPARTE MASCULINA E FEMININA DO COSMOS, OU SEJA, A MATERIALIZAÇÃO DE OCEANO E TÉTIS, A IMENSIDÃO DA TERRA E AS ÁGUAS PRIMORDIAIS.

Vamos citar aqui dois exemplos, para que possamos compreender melhor, de forma prática e objetiva, o teor deste conhecimento.

1 – A criança depois de tomar um sorvete, simplesmente joga o copinho ao chão.

A – Os pais lhe ensinam que dentro de uma cultura civilizada é preciso agir com educação, usando critérios de continuidade, respeito e disciplina. Portanto, o copinho deve ser jogado no lixo.

B – Com essa atitude a criança nos convida a refletir sobre o desprendimento e a sutileza de seus atos, pois entende o copinho como extensão de seu próprio corpo. É incapaz de compreender como nós somos capazes de criar um artefato plástico que possa ser tão nocivo a nós mesmos como espécie.

2 – A criança com total naturalidade leva as mãos sujas de terra à boca e a saboreia com se fosse um delicioso sorvete.

A – Os pais batem na sua mãozinha e a tiram de sua boca até com certa violência, dizendo que isso não se faz. Terra não se leva à boca, porque é suja e faz mal.

B – A criança chora e nas suas lágrimas nos convida a refletir sobre as riquezas do solo, de Gaia, das árvores e dos regatos. Ela ainda trás em si o elo de conexão com todos os elementos formadores do seu corpo, inclusive a terra.

Somos filhos das estrelas, materializados do barro, água, ar e fogo. Divinos por ascendência cósmica, e únicos por individualidade e soberania.

A CRIANÇA É O PAI DO HOMEM, UMA CENTELHA DIVINA IMANENTE NA MATÉRIA.

Observar-se a Si Mesmo torna-se muito prático quando do convívio com uma criança. Basta avaliar a naturalidade de suas respostas, sem imposições ou métodos, para ver o quanto estamos distantes de nossa origem e propósito. A Lembrança de Si Mesmo passa necessariamente por uma recapitulação de nosso universo criança. Somente através do espírito criança que habita cada um de nós, somos realmente capazes de entrar em contato com algo muito maior, e manifestar a Consideração Externa (art. 110) de forma autêntica e real.

Que assim seja!