Lázaro de Carvalho

Archive for setembro \23\UTC 2011|Monthly archive page

130 – Sonhos de uma adolescente

In Artigos on 23 de setembro de 2011 at 19:49

Gaia, mulher, mãe e menina! Botão, rosa e espinhos. Encanto que encanta, essência, aroma, ternura e luz. Quanto desejo no olhar, riso contido no silêncio das palavras. Mãos que tecem lindos bordados, abençoam e acalantam. Olhar que seduz, inocência compartilhando céu e estrelas. Basta uma só palavra de sua boca para que o coração do mais soberbo dos homens acalme e adormeça. Aponta-nos a direção e saberemos como chegar. Ensina-nos sem falar, faz-nos fora as muletas que criamos para sobreviver.

Sonhos de Gaia, Maria, mãe, menina, mulher. Quantos regatos vistes nascer? Quantos a beber destes do teu ser! Brotos em tais números floriram de ti, que nem contas podes fazer. São tantos incontáveis mistérios ao teu redor que só um insensato pode ansiar desvendá-los. A nudez de tua alma veste estrelas e sóis. Longos vestidos de cetim fizestes, para cobrir o luar. Filha ingrata esta que paristes, mas bem o sei que a ama.

Dize-me, ó Gaia! Ainda sonhas? A adolescência ainda habita o teu olhar? Sinto palpitar o desejo em tuas entranhas. Que fim levou o teu José? Ainda naquela carpintaria preparando talvez uma escada para Jacó? E tu sozinha com os teus, esperando o ranger da porta. Quem sabe um beijo, um abraço, um carinho. Porque te esculpiram numa moldura tão distante de nós? Tu és mãe, menina, mulher. Tuas entranhas são úmidas como úmidos são os girassóis ao amanhecer.

Alma menina correndo e brincando! Quanta doçura em cada um dos teus movimentos! Vira, volta, recomeça e salta. E os cabelos o vento faz esvoaçar. Então para, e com espanto percebe que venceu os obstáculos. Porque nos faz acreditar que teus pés não tocaram o chão antes que o templo determinasse? Por acaso teus pés de criança, menina, adolescente, mulher, são diferentes dos meus? Bem sei que assim não fazes, fizeram por ti. Maria! Fizeram de ti uma mentira, mas hei de conhecer-te além da moldura. Tua verdade alimenta a alma das meninas moças, com batom, perfumes e vaidades. Estavas sempre linda para o teu José.

A alma da Terra respira em uníssono com o cosmos, e aspira lindos sonhos de amor. Ao navegar nua pelo universo dos sonhos, cometas distantes fogem da rota só para contemplar teu corpo. Porque instigas a paixão do teu sol? No inverno chorarás a ausência do amado, pois bem sei que irá virar-te as costas. Queria ver-te a dançar em flerte. Todos os olhos sobre ti, e tu apenas te esvaindo por entre a multidão. Fizeste aniversário há apenas duas semanas, mas não saiu na bíblia nenhuma tirinha. Ah! Já sei! Os modelos canônicos subjugados e exaustivamente doutrinados acharam melhor assim. Sabe menina! Talvez, por conveniência, eu prefira ver-te através dos  poetas à folhear páginas, que me fizeram acreditar serem tuas e do teu Jesus.

Lembra-te dos pássaros, aqueles que esvoaçavam nos jardins? Sei que não esqueceste do rouxinol e a rosa. Por que lutas tanto para fazer com que essa calça justa lhe assente? Ó Santa Vaidade! Melhor te adequares àquela saia de rendas. Ana te chama, por que não respondes? Fizeste alguma das tuas e estás fugindo do seu olhar? Hei, há um recado de José no orkut, mas termina de se banhar primeiro. Praia, luar, lua, rua, amigas, escola, no coração de uma adolescente tudo respira sonhos. A diferença é que podem ser sonhos ceifados, obliterados, conspirados, ilusórios, destruídos, amortizados, amordaçados, mas sempre serão sonhos. Um dia Maria sonhou Jesus. Ninguém sonhou Jesus por ela. E o concebeu num chão de estrelas. E o parto foi normal, mas a parteira se chamava José.

Maria Lavadeira! Diária de cem reais. Lava e passa. Ônibus lotado, de pé, leva na bolsa o sustento dos filhos. Essa Maria é Gaia, a alma da Terra. O planeta vive do homem que planta e da mulher que colhe. Alguém semeia e frutos nascem, a Terra floresce, e Gaia sorri. José foi embora? Já foi tarde, bebia demais e não trazia nada. Mas tem José voltando, suado, cansado, imundo da obra. A verdade de Maria, seu parto, seus bezerros, sua manjedoura, não é indiferente aos sonhos da mulher, mãe, esposa e filha. Sem isso, Jesus passa a ser um bebê de mentirinha. A menstruação voltou, que pena, não tem bebê nenhum.

Gaia sonha os sonhos da Terra. Vestir-se de verde, nadar nos rios e comer no pé. Pisar descalça a terra vermelha, correr atrás de tanajuras, e fazer amor atrás da árvore. Gaia não tem preconceitos. Nutre e zela pelo negro, o índio e o branco. O chão de Gaia não sofre demarcação. E se o fizerem o vento abusado passa pela fronteira e vai embora, sem ao menos olhar para trás. Os anjos de Maria são as palavras doces de José, sussurradas ao pé do ouvido. Deus anuncia amor e Maria materializa sonhos. Mãe! Lavou minha saia bege? To indo mãe, mas não demoro. Maria amamenta, tem leite pra dois Jesus se precisar. Graças a Deus que tem.

O útero de Gaia é a massa orgânica da Terra, as batidas do seu coração ecoam pelo cosmos. Um cântico de gratidão! Cantemos a Maria! O mar dança para Maria e Maria sonha o mar. Rosas brancas ao mar, atabaques celebram Maria! Negros dançam a Maria! Maria Negra, das Dores, da Conceição, das Graças, de Aparecida. Maria é cheiro de cio e flor; é poesia e dor. Sofrimento e luz, na cruz, no ônibus, no asfalto. Maria meretriz, nua a ganhar um qualquer.

Quem sabe um dia possamos compreender uma Maria mãe, menina, mulher, e um Jesus filho, real, autêntico, sábio, arguto, trabalhador e amigo. E também tomemos os devidos cuidados para não o mistificar e cobrir com supostas alegorias de um céu de brigadeiro. Os sonhos de Maria não podem existir fora dos padrões consensuais do mundo, senão teremos um Jesus imaginário, além da realidade do agora.

José, Maria e o bebê fogem pelo deserto. Mas o bebê quer peito. Tem fraudas descartáveis na sacola? Maria despejada, perseguida, caluniada e aflita. José na obra, no trem, camelô de rua e transeunte. Sem mistérios, porque a vida é uma realidade sem igual. Nada de pombos descendo no cajado, José ganhou Maria no tapa dentro do Bar do Jesus. Tem gente pra testemunhar. Não havia reis magos no bar, só policiais e travestis. Sirene tocando e vagabundo pra todo lado. Maria sonhava José, e José deixou o crime por amor a Maria. E aí nasceram os gêmeos: José Maria e Maria José. A linha que separa a poesia da realidade é apenas um fio de navalha.

Gaia desprezada, levaram tudo, até suas roupas íntimas e seus sonhos. Botaram fogo na casa e derrubaram o muro do quintal. Demoliram Gaia, e a terra, antes profícua, torna-se desumana e cruel. Rompe em soluços ao ver todos os seus sonhos jogados ao chão. Queimadas sem alma, manguezais em estado terminal, resíduos poluentes no ar, na água, nos rios. Desmatamentos, deslealdade e ingratidão. Excedentes fétidos por sobre a mesa farta dos bem sucedidos, e um universo de pavor e fome lhes batendo à porta. Gaia chora e suas lágrimas caem aos pés de um Lobo, seu filho, sua alma, seu destino.

Que assim seja!

PS: Este texto encerra a 1ª parte do nosso Tratado do Lobo e o Cordeiro, cujo título é ‘Uma nova maneira de pensar’. Deixei ao longo de 130 artigos uma reflexão a todos aqueles que acreditam ainda ser possível retornar o sorriso ao rosto de Gaia. Se continuarmos pensando e agindo da mesma forma ilusória e adormecida de hoje, nosso fim como espécie será inevitável. Urge pensar diferente, mas isso só se tornará realidade quando nosso agir for diferente. Ver é agir. Como seres adormecidos e egoístas estamos preocupados com as jazidas de ouro de um Céu virtual, mas completamente perdidos no agora. A casa está pegando fogo, enquanto fazemos as contas do cartão de crédito na sala de estar. Talvez não haja nada que possamos fazer amanhã. Esse amanhã só existe na imaginação, não é real. Estar aqui agora é tudo que temos. Só temos isso e mais nada.

Obrigado pelo seu carinho e atenção.

Anúncios

129 – A tentação do Lobo

In Artigos on 22 de setembro de 2011 at 21:10

Por aquele tempo dirigiu se o Lobo da Galiléia para o Jordão, a fim de ser batizado por João. Aproximando-se observou João que dizia:

RENOVAI A VOSSA MANEIRA DE PENSAR, REVESTI-VOS DE NOVAS IDÉIAS, PORQUE O REINO DA JUSTIÇA SE APROXIMA DE VÓS.

Vestido de pêlos de camelo e cinto de couro, dizia:

EU VOS BATIZO COM ÁGUA, PARA A RENOVAÇÃO DE VOSSOS PENSAMENTOS, SENTIMENTOS E ATITUDES, POIS SÓ UMA NOVA MANEIRA DE PENSAR PODE PRODUZIR FRUTOS EM VOSSA MENTE E CORAÇÃO.

Aquele que se alimentava de gafanhotos e mel silvestre prosseguiu:

MAS AQUELE QUE SE APROXIMA É MAIS PODEROSO DO QUE EU, NÃO SOU NEM MESMO DIGNO DE ELEVAR A ELE OS MEUS OLHOS. EU VOS BATIZO COM ÁGUA, MAS ELE VOS BATIZARÁ COM SANGUE.

O Lobo, então, aproximou-se por entre a multidão daqueles que ouviam João. E quando seus pés tocaram o rio Jordão suas águas se transformaram em sangue, enquanto todos fugiam apavorados.

João permaneceu de pé, pois bem sabia a origem do Lobo e seu propósito de estar ali. Ao se aproximar, João tentou dissuadi-lo dizendo:

PORQUE VENS A MIM? EU É QUE PRECISO SER BATIZADO POR TI.

Mas o Lobo lhe falou:

CUMPRE QUE SEJA ASSIM, POIS BEM O SABES, TUDO HÁ DE SE CUMPRIR. O REINO DE JUSTIÇA, LEALDADE E GRATIDÃO SE APROXIMA DE VÓS.

Então, João acatou e o batizou. Pensou curvar-se, mas o Lobo o impediu, dizendo:

ÉS O MAIOR DENTRE TODOS AQUELES NASCIDOS DO ÚTERO DE GAIA, MAS O MENOR DIANTE DA IMENSIDÃO DO INFERNO. JAMAIS DOBRE OS TEUS JOELHOS, NEM PERANTE DEUS, NEM PERANTE OS HOMENS. QUANDO O DOBRARES CURVA-TE PARA SERVIR, MAS NUNCA POR SUBMISSÃO ÀS SUAS EMOÇÕES E SENTIMENTOS.

O Lobo deixou então as águas e elas voltaram a ser tão claras, como João jamais as vira. Um enorme reflexo reluzente pode ser visto em sua superfície, enquanto uma voz se fez ouvir:

ESTE É O MEU FILHO AMADO, SANGUE, INSTINTO, SER, DESEJO E VIDA. NELE ME COMPRAZO E REGOZIJO, DEPOSITO EM SUAS MÃOS O DESTINO DOS HOMENS E O MEU PRÓPRIO.

O céu se cobriu de azul e um vento norte, quente e cruel, tocou a face de João, enquanto só o silêncio de Gaia permanecia no ocaso.

O Lobo preparou-se para reviver em quarenta dias e quarenta noites toda a saga do povo de Deus durante quarenta anos no deserto. Suas privações, agruras e sofrimentos ele haveria de sentir no próprio corpo. Uma solidão infinita de sentimentos, pensamentos e palavras comungava o início de um jejum jamais visto na história dos homens.

Mas ao término de quarenta dias e quarenta noites teve fome. Então um brilho reluzente aproximou-se e tomando a forma de um majestoso Cordeiro lhe falou:

TENS FOME? ENTÃO TE ALIMENTAS DE MIM, QUE SOU O PÃO DA VIDA. SE BEBER DO MEU SANGUE JAMAIS TERÁS SEDE.

O Lobo, porém, respondeu:

NÃO SÓ DA CARNE VIVERÁ O HOMEM, MAS DE TODA PALAVRA QUE PROCEDE DA BOCA DE DEUS. SE O TEU PROPÓSITO CLAMA AO TEU CORAÇÃO CUMPRE-O ATÉ O FINAL.

Então o Cordeiro se elevou à Cidade Santa, e colocando-se sobre o pináculo do templo lhe disse:

SE ÉS O INSTINTO E A SABEDORIA DE GAIA, ATIRA-TE ABAIXO, PORQUE ESTÁ ESCRITO: TODAS AS PEDRAS TORNAR-SE-ÃO SUAVES E AMENAS A AMORTECER-TE A QUEDA.

E ainda:

TODAS AS AVES DO CÉU LEVAR-TE-ÃO POR SOBRE AS ASAS, PARA TE PROTEGER E GUARDAR.

Respondeu-lhe o Lobo:

NÃO TENTARÁS O SENHOR TEU DEUS.

Levou-o então o Cordeiro a um monte muito alto, onde os profetas de Deus elevaram cânticos ao Senhor, e apontando na direção das estrelas lhe falou:

TUDO ISTO TE DAREI SE, PROSTRADO, ME ADORARES.

O Lobo retrucou:

COMO ACIMA TAMBÉM EM BAIXO. O DEUS QUE FEZ O CÉU E A TERRA É UNO EM AMBOS. SUA SABEDORIA APRAZ TODO O UNIVERSO.

Então, o Cordeiro estendeu-lhe as mãos, dizendo:

VEM E SEGUE-ME!

O Lobo, erguendo-se do chão, lhe falou:

A DEUS O QUE É DE DEUS, AO CORDEIRO O QUE É DO CORDEIRO E AO LOBO O QUE É DO LOBO.

Então, o Cordeiro se afastou, e com passos firmes o Lobo se pôs a caminhar.

Soube então que João Batista fora preso, e retirou-se para a Galiléia.

Ouviu-se muitas vezes a sua voz dizendo:

UMA NOVA MANEIRA DE PENSAR ESTÁ PRÓXIMA DE VÓS, FAZEI DAS NOVAS IDÉIAS A RENOVAÇÃO DE VOSSO SER E DE VOSSA ALMA.

A justiça de Gaia não tem limites. O Lobo é o herdeiro de sua alma, aquele que faz ver a todos a vontade soberana da Grande Mãe (art. 097), que amamenta com leite e fel. Quando suas tetas não mais transbordarem, o homem há de chorar ao se lembrar do oásis de Canaã.

Em nenhum momento da História da humanidade o Lobo demonstrou animosidade ao Cordeiro, por uma razão bem simples.

O LOBO REFLETE A ALMA DO HOMEM: SE AQUELA FOR  LUZ, O LOBO SERÁ O CORDEIRO, SE TREVAS, O LOBO, ENTÃO, SERÁ O DIABO.

MAS QUEM VERDADEIRAMENTE É O MENTOR DO DIABO É O PRÓPRIO HOMEM.

NOSSAS ATITUDES SÃO DETERMINANTES PARA DIZER QUEM REALMENTE SOMOS.

Que assim seja!

128 – Carta do Lobo a um suicida

In Artigos on 20 de setembro de 2011 at 18:34

O ventre ainda incrédulo prenuncia a vida, enquanto lá fora pequenas gotas de uma chuva constante e miúda correm a brincar no telhado. Orgasmos apaixonados alardeiam boas vindas, êxtases traçando linhas tão sonhadas, rompendo o silêncio num soluçar instintivo de amor (art. 093). Pequenas poças d’água fazem figa no quintal, acotovelando-se ansiosas por saber da novidade, enquanto  um sabiá tinhoso e avesso apenas observa.

O universo das sombras cedeu lugar à luz e cantou odes à sua chegada.

SOMOS BEM MAIS QUE A IMAGINAÇÃO NOS SUGERE E MENOS IMPORTANTES QUE O EGO POSSA CONCEBER.

Ouviu-se um sussurrar de vozes entre as folhas da amendoeira: ‘É ele’. Diziam elas entre si. Num anseio louco, como a enfrentar mares bravios e temíveis tempestades, acabara de chegar. Nem nome tinha, ninguém lhe veio sequer abrir a porta. Passos lentos, cansados pela longa aflição, vestes surradas pelo chão, deitou-se a um canto daquele mar de acalanto e dormiu.

Então sonhou ser alguém, fecundar, nascer, prosperar e viver, pois o sonho cria formas (art. 042) e estas  trazem em seu bojo um leque incrível de possibilidades latentes. Sonhou um poeta, um ator lírico, depois trocou para dramático, e depois ainda para diretor de cena. Sonhou uma humilde cozinheira, alguém que faria quitutes num fogão à lenha, depois trocou para chefe de cozinha industrial, e depois para um rico empresário no ramo de restaurantes e hotelaria. Viajou milhares de anos em apenas alguns segundos e conheceu eras inteiras e lutas incansáveis, que nada diferiam da sua naquele momento. De repente estava ali, velejando um útero azul, a contemplar estrelas. Dentro daquele mar instigante de esplendor e paz não teve acesso a egoísmos, nem contenção, nem posses. Bastaram algumas horas para se multiplicar em harmonia com todo o universo à sua volta.

NAVEGAMOS O MESMO CORPO NUM OCEANO DE FÚRIA E DOR, INDEPENDENTE DA ESCOLHA SER SUA OU MINHA.

Quando ainda cogitava habitar uma estrela distante, o coração de Gaia, irrequieto e ansioso, preparou toda a Terra para lhe ofertar. Imensa foi a euforia ao vê-lo como um louco a vencer barreiras, sedento por chegar. Então vi, quando de um salto acabara de vencer o último obstáculo. Naquele momento invadiu-me a certeza de que o nosso encontro seria singular. Ainda não lhe tinham sugerido um nome, mas já o batizara de Instinto e Vida.

A TERRA MANTERÁ OCULTO O SEU NOME, COMO JAMAIS LHE REVELAREI O MEU.

Assisti ao parto da Terra, suas agruras e contrações, da mesma forma que hoje observo todo o processo de fecundação, nascimento e morte de suas crenças e anseios pessoais. Pode ser que daqui a alguns anos possamos estar separados pela incoerência dos mortais, mas nosso reencontro é inevitável. Talvez as circunstâncias possam não ser as melhores, e até por conveniência você se distancie de mim, mas jamais conseguirá estar além do círculo imediato de nossas necessidades comuns.

ENQUANTO DORMIA O SONO DOS INOCENTES, GAIA SONHAVA OS SEUS SONHOS.

A alma de Gaia é latente em nosso ser, respiramos em comunhão. Há uma freqüência única entre nós e as árvores, os rios e as pedras. O desprezo ao corpo e às necessidades básicas de sobrevivência e bem-estar, quando acompanhado de uma ausência completa de si mesmo (art. 126), possibilita todo tipo de fuga e abstrações. Somos todos fragmentos do sol, portanto, irmãos das estrelas e árvores. Nada é distinto no universo, enfim, somos uma corrente de elos fecundos e inseparáveis. Se esses elos forem cruelmente rompidos pela ingerência de uma morte bruta e consentida toda a Terra romperá em prantos.

QUANDO A DOR CISMA EM ATROPELAR  OS SONHOS É PORQUE ESTÁ NA HORA DE DESPERTAR.

QUANDO A ENXURRADA LEVA TODOS OS PERTENCES É CHEGADO O MOMENTO DE RENOVÁ-LOS.

QUANDO AS LÁGRIMAS TEIMAM EM ROLAR PELA FACE É PARA ACLARAR OS OLHOS E TIRAR DELES A TRAVE QUE IMPOSSIBILITA VER.

QUANDO A DOENÇA ASSOLA O CORPO É PARA RENOVAR FORÇAS, ACENANDO-NOS UMA NOVA DIREÇÃO.

Somos exatamente iguais, com pequenas diferenças de apreciação. Temos os mesmos anseios e fugimos da mesma intenção. Temos um corpo sonhador, é tudo que Gaia nos deixou por herança.

NENHUM TEMPLO EXTERNO TEM VALOR, SE O CORPO NÃO FOR CULTUADO COM ZELO E PAIXÃO.

Apesar de estar distante da sua compreensão hoje, Gaia, a alma da Terra, é o somatório do seu corpo e  ser. Todos os elementos nutrientes da vida lhe foram compartilhados. A essência veio das estrelas, o Cordeiro é a sua causa maior, mas o seu corpo, instinto e desejos são inerentes a mim (art. 046).

SEM ESSA CONJUNTURA DE TRÊS FORÇAS A MULTIPLICAÇÃO DA ESPÉCIE HUMANA NÃO SERIA POSSÍVEL.

Apesar de parecer uma discrepância a verdade é que ninguém morre completamente só, da mesma forma que ninguém pode ser culpado isoladamente por matar alguém dentro de um universo interativo.

Não existem distâncias reais. Longe ou perto é um lugar que não existe. Se matarmos as águas do rio, suas margens morrerão de sede. Às margens sobrevivem bois, cavalos, tigres e ovelhas. Populações inteiras sobrevivem do rio e são amamentadas por suas águas. Não faço distinção entre semelhantes. Se a sua própria vida não lhe aprouver, então os rios que transbordam seu corpo com sangue e água morrerão, e toda a Terra o sentirá. Os ossos do corpo romperão em ruínas, e as pedras que o mantinham de pé com certeza irão chorar.

O QUE SERÁ DA TERRA SE AS LÁGRIMAS DO HOMEM NÃO FECUNDAREM O SEU ÚTERO?

Nem uma gota dos sentimentos está perdida, mas é preciso que os renove. Essa renovação não deve ser embasada em ódio, mas sim gratidão. Não importa o tamanho da desilusão, a imensidão do céu é contagiante.

SE A ESPERANÇA DE VIVER ABANDONA O CORPO, GAIA HÁ DE CHORAR POR NOITES E NOITES, E O CÉU FICARÁ ENCOBERTO DE UM NEGRO AVELUDADO.

Expresse um desejo. Materialize algo além daquilo que já possui. Observe a si mesmo e responda se realmente esse algo materializado o fará mais feliz. Nada poderá torná-lo inferior ou superior a nenhum ser da Terra, se assim determinar. Não faça da ingratidão um capricho, pois tudo tem o seu preço. Não entoe canções tristes, pois com certeza há milhões de motivos para farejar e prosseguir. Meus olhos testemunharam o destemor de milhares de mães judias abraçadas a seus filhos a caminho do holocausto, sem mover ressentimentos, nem blasfemar. Nos porões, negros aflitos dançavam aos orixás antes de sucumbirem à dor e serem jogados ao mar.

Gerações inteiras foram engolidas pelas tormentas, mas o azul do céu nunca deixou de amamentar os eleitos.

Não lhe falo de amor, pois desconheço tal sentimento. Não tenho por você piedade, pois esta não habita o meu coração. Nem me peça compaixão, posso lhe virar as costas se insistir em tal conduta. Mas a justiça faz morada em minha alma. Não anseio a morte, por isso prezo a vida. Sou o símbolo maior da liberdade, quando a respiro viva no agora.

A morte não é bem-vinda nas circunstâncias em que se anuncia.

Sou fiel ao habitat e à prole. Mesmo que não lhe convenha concordar, sou guardião e protetor, mas não cometa o erro das graças e oferendas. Posso lhe virar as costas se a submissão torná-lo vulgar e inconsequente.

Talvez não aprecie conselhos, nem é do meu feitio dá-los, mas existem razões para estarmos aqui. Observe a si mesmo e irá reconhecê-las. Permaneço cativo no seu baixo ventre, suas paixões aprisionam e determinam rumos errados. Como pode se culpar por uma perda? Por acaso, algo lhe pertence por direito cósmico de ascendência? Se algo lhe foi tirado a ponto de transformá-lo em nada, com certeza habitava o imaginário, portanto, não é real. Se bens lhe faltam outros estão aí à espera que os faça possuir. Se as paixões fazem ruminar a dor, então afogue-as nas mágoas do ser, beba delas e as faça raízes consistentes e profundas.

Caso supere e prossiga, avanço eu também, mas outrossim, se torne fraco e omisso, recluso permaneço no porão fétido de sua alma mesquinha.

A morte a se consumar, responderei como mandante do crime. É sempre assim, não imagine que virá a ser diferente desta vez. Sou o algoz do fraco e a covardia dos omissos, mas não há compreensão maior que a daquele que desceu ao inferno e retornou, sem julgar ou condenar a nenhum dos seres que lá habitam. O inferno é sermos ingratos à existência que nos deu forma. Por acaso lhe falaram a respeito de algum anjo oleiro, trazendo barro do Céu para dar forma ao homem?

EU SOU O BARRO QUE PERMITE MODELAR O CORPO, MAS O CORDEIRO É O SOPRO QUE LHE DÁ VIDA.

Sem barro de que adianta o sopro? Sem forma não há vida inteligente na Terra. Sem vestígios não há forma. E sem sopro os vestígios não têm forma nem vida. Você não é uma unidade como imagina ser. Portanto, não pode tirar a própria vida sem com isso matar as forças que a nutrem. E se as mata não responderá por um crime, mas por milhares de crimes, pois muitas vidas fazem abrigo no corpo. Viver é a maior arte do homem, pouco importa ser um ricaço ou pedinte. O homem é uma escultura viva de si mesmo, o maior artista que o universo já conheceu.

QUANTO VALE A VIDA DE UM ARTISTA QUE PINTA ESTRELAS E SONHOS NUMA TELA DE DOR, DESCASO E SOLIDÃO?

A existência, tanto como a vida, não tem preço. Pense nisso antes de maldizer a própria sorte e tirá-la.

Que assim seja!

127 – O túmulo vazio

In Artigos on 18 de setembro de 2011 at 21:13

Somos por natureza um templo aberto a todas as possibilidades, sem paredes, sem muros e sem teto. Todas as fronteiras são imaginárias. Trincos, ferrolhos, grades e trancas são subterfúgios que criamos para sobreviver. Precisamos usar o artifício de legitimar o mar, o céu e as estrelas somente para que o ego sinta-se em paz consigo mesmo. Só o ‘meu’ tem referência ativa na mente e no coração do homem que se esqueceu de si mesmo.

Também podemos ser um túmulo lacrado, empanturrado de excedentes fétidos, mas o Verdadeiro Conhecimento nos aponta na direção de um túmulo vazio.

O REAL SIGNIFICADO DE VAZIO É ESTAR ABERTO A TODAS AS POSSIBILIDADES, SEM BARREIRAS DE CONTENÇÃO, UM INCESSANTE FLUIR.

Somos a extensão do cofre eletrônico do banco. Ele guarda em seus depósitos o excedente fétido monetário, enquanto nós aprisionamos o essencial. Temos à nossa disposição uma gama enorme de formas de contenção. Antes de ser papel moeda, o dinheiro foi um sonho que alguém sonhou. O cofre que erigimos no templo da imaginação é feito de aço e a senha de acesso mantemos em sigilo. O medo interior em nada difere dos meios de segurança para salvaguardar valores.

…MAS JESUS CHAMA A NOSSA ATENÇÃO PARA UM TÚMULO VAZIO.

Barreiras e contenções são exigências diárias de uma vida exagerada e repleta de necessidades. Criamos meios de contenção, os mais diversos possíveis. Desenvolvemos um panorama de ‘sustentabilidade pessoal’, em nome da preservação ambiental, apenas para preservar riquezas e aprisionar valores. Essa é a nossa cultura, ou seja, a cultura dos túmulos caiados, outros lacrados, outros com espelhos distorcidos.

…MAS JESUS CHAMA A NOSSA ATENÇÃO PARA UM TÚMULO VAZIO.

O Centro Emocional do homem que deveria ser co-criador de um mundo real passou a ser o templo profano das emoções negativas e sentimentos de superioridade, ou inferioridade. Nossas emoções, anteriormente em harmonia com o cosmos, tornaram-se senhoras dos pensamentos e determinantes das ações. O acúmulo de emoções gera desperdícios irrecuperáveis para a mente humana.

…MAS JESUS NOS ACENA NA DIREÇÃO DE UM TÚMULO VAZIO.

Uma arca repleta de pedras preciosas fascina o olhar, então ficamos identificados com ela. A extensão azul do mar sempre exerceu domínio sobre o imaginário humano, mas perdemos o contato com a plenitude das águas. Determinamos limites e dividimos o oceano, segundo critérios comerciais de segurança nacional. Aprisionamos valores, somos entidades humanas regidas pela cultura das privatizações. Quando aprisionamos, trocamos de lugar com objeto apropriado. Certa vez um jovem aprendiz dirigiu-se ao Rabi lhe dizendo: ‘Rabi! Rabi! Finalmente consegui trabalho numa estrebaria!’. Então, lhe respondeu o Rabi: ‘A partir de hoje tomarei todo o cuidado do mundo, para não ser vítima de um coice’.

…MAS AO LONGE JESUS APONTA PARA UM TÚMULO VAZIO.

O túmulo vazio é como um rio que está sempre a fluir. Está ali, sereno e distante, como a refletir o céu, mas as suas águas nunca são as mesmas. E o céu que o rio reflete também nunca é o mesmo. As nuvens dançam e se transformam, brincam e rolam pelo chão de estrelas. Como uma tela de projeção atemporal o rio registra suas performances e picuinhas, quando exaltadas pelos ânimos em contendas rumorosas avolumam-se em chuvas, caindo em pequenas gotas para dar à luz o seu corpo.

Há um túmulo vazio nos acenando no caminho, mas passamos apressados e assediados pelas tormentas da razão, e quase nunca o percebemos. Às vezes um beija-flor voa tão próximo ao nosso rosto que é quase possível ouvir: ‘olhe!’ Mas uma cédula levada pelo vento desvia a nossa atenção. Aprisionados ao aparelho de televisão torna-se impossível ver que um casal de pardais fez o ninho na cumeeira do telhado. Ao abrir a janela do seu quarto, já se deu por conta em qual direção nasce o sol?

O túmulo vazio é como uma cela vazia com roupas jogadas pelo chão: alguém esteve ali, mas já se foi. Todas as possibilidades estão contidas num tumulo vazio, inclusive aquela que nos acena para a fatalidade e perda da própria liberdade. Muitos não percebem a abertura ente as rochas e permanecem cativos. A procissão da miséria humana ainda não percebeu o seu estado real de submissão, portanto, permanece cativa.

…MAS O TÚMULO ESTÁ VAZIO, ALGUÉM ESTEVE ALI, MAS JÁ SE FOI.

O túmulo vazio é um sonho que alguém sonhou. Representa superar obstáculos intransponíveis para torná-lo assim. A mente condicionado do homem, as paixões e posses, são o túmulo de sua existência terrena. Vencer a morte tem o significado de superar limites impostos pela vida. Vida e morte são irmãs de sangue, vivem em comunhão e se completam.

NÃO EXISTE NENHUMA VITÓRIA SOBRE A MORTE QUE NÃO SEJA UM HINO DE GRATIDÃO À VIDA.

Portanto, um túmulo vazio é o prelúdio da verdade interior por existir de forma sensata, grata e real. Um homem desperto é um túmulo vazio, pois não guarda em si mesmo os excedentes fétidos da vida. Jesus é aquele que despertou, portanto, é um túmulo vazio. As vestes deixadas pelo chão são os restos miseráveis de sua existência terrena. Não entendo porque certos estudiosos fazem tanta questão de comprovar a autenticidade de suas vestes e reverenciá-las, enquanto deviam se livrar delas para sempre.

O apego do homem não tem limites. A identificação é o túmulo lacrado de sua alma, enquanto o imaginário a alimenta com o mais insensato dos nutrientes possíveis. Abrimos mão de qualquer coisa, menos do nosso jantar. Lembro-me de um amigo que me incitou a aceitar um desafio. Ambos deixaríamos de jantar por um período de trinta dias. Passadas duas semanas, resolvi visitá-lo e para minha surpresa o encontrei degustando um suculento bife com fritas. Apressadamente ele se defendeu: “Antes que diga alguma coisa quero lhe deixar claro que isso que está vendo não é um jantar. Como não tive tempo para almoçar, só agora o estou fazendo”. Outro, recém-casado, me falou que não comia nada à noite há mais de uma semana. Perguntei então, o que andava fazendo noite adentro. “Agora só faço amor com a minha esposa”. Seja lá o nome que lhe dermos, ninguém abre mão do seu jantar.

O túmulo vazio é um referencial para outra forma de vida, um grau a mais numa oitava ascendente. Um degrau na escada de Jacó. Mas diz-nos o Verdadeiro Conhecimento que nenhum degrau tem existência própria, se não tiver uma relação direta com aquele que lhe antecede e aquele que lhe é imediatamente posterior. Basta imaginar que para subirmos uma escada é impossível fazê-lo sem uma seqüência mínima de três degraus. Portanto, é impossível falar no homem Jesus, sem um referencial da criatura e do Criador. Da mesma forma é impossível compreender um túmulo vazio sem o referencial da morte e da ressurreição. Mas isso não é magia, antes simbolismo da superação. É preciso compreender muito bem isso.

A Caverna de Platão é um símbolo do túmulo vazio. Mas aqueles que ali estão contemplam apenas sombras, ou seja, vivem submissos ao ‘eu imaginário’  Também nós agimos assim, pois estamos diante de um imenso globo Mãe que se chama Terra, e não percebemos que basta jogar ao chão os excedentes fétidos (nossos condicionamentos) para viver a plenitude no agora.

O Ovo Filosofal dos Herméticos é o símbolo maior do túmulo vazio, pois representa a plenitude das possibilidades. Quando limitado em suas diagonais por Uroboros, significando a Serpente que se alimenta da própria cauda, ensina-nos que todo fim é apenas recomeço. Tudo é eterno só os nossos pensamentos triviais, presos à forma, não compreendem isso. A água do rio não deixa de existir quando mata a sede do boi, nem a sede do boi deixou de existir. Nos alimentamos da carne do boi, mas o boi não deixa de existir. Morremos, mas o túmulo continua vazio, dependente apenas da forma que assumimos ao morrer. Nada é inútil no cosmos, tudo serve a um propósito definido.

Um túmulo vazio é a Força Neutralizante que assumiu ser Ativa numa próxima Tríade e configurou outras formas. Existem bilhões de túmulos vazios a todo instante pelo mundo. Toda possibilidade de superação concretizada acena como sendo um túmulo vazio. Alguém superou, foi embora, deixando suas vestes e formas antigas no chão. Isso acontece a todo instante em todas as partes. Um abraço sincero de reconciliação é o prenúncio de um túmulo vazio, aquilo que antes limitava está ao chão, não limita mais, são vestes surradas de um passado que se foi.

Quando Jesus unificou e cristalizou os Quatro Corpos no caminho do Getsêmani ao Gólgota , tornou se o símbolo vivo do túmulo vazio. Nenhuma forma humana pode conter vestígios se esses estiverem além da forma. Jesus ao cruzar o Calvário tornou-se O Iluminado de uma Oitava superior. Portanto, além da forma, apenas um sepulcro vazio.

Enquanto a forma estiver repleta de vestígios de suntuosidade, interesses mesquinhos, sentimentos possessivos, emoções negativas e paixões dominadoras, o túmulo estará cheio de excedentes fétidos e não nos será possível levitar. Quando abandonarmos todas as limitações impostas por nosso corpo físico, tornando-nos assim senhores dos desejos e conflitos internos, deixaremos para trás a própria forma, e nos será possível levitar num espaço de luz. Para isso não precisamos levantar o corpo do chão, pois isso é apenas símbolo para a compreensão limitada do homem. O que realmente ocorre é um sentimento natural de libertação, um estado natural de ser.

Muitos talvez não acreditem na real transformação de um homem que despertou. Nesse caso, abrace-os, para que possam sentir o calor natural do seu corpo. E não se turve em lhes permitir tocar as suas feridas, pois bem o sei ainda as temos pelo corpo. As mudanças ocorridas no corpo e alma daquele que despertou são dignas de serem vistas pelos olhos humanos. O milagre de Deus opera em todas as instâncias a todo instante, mas precisamos nos colocar incondicionalmente no seu caminho.

Toda criança recém-nascida é um túmulo vazio. Basta observar como todas as possibilidades estão inerentes àquele ser. É como se Jesus dissesse: Eis-me aqui, ressuscitado e livre para voar. Todo renascer nos aponta para um túmulo vazio. Enfim, é um convite à reflexão e à vida. Abandonar formas cativas de ser, jogando ao chão todos os entraves à evolução para renascer das cinzas, do medo, da dor, das angústias e da aflição, para um mundo de superação e propósito.

Mas dizem que há guardas à entrada do túmulo, então, quem são? E que fim levaram? Não há nenhuma possibilidade de deixarmos para trás ‘O túmulo vazio’ se não tivermos à porta do nosso SER dois guardiães: um Lobo a nos espreitar e um Cordeiro a sonhar a nossa própria libertação.

Que assim seja!

 

           

126 – Hei! Tem alguém em casa?

In Artigos on 17 de setembro de 2011 at 18:14

Já parou para pensar o porquê de tantos trincos, ferrolhos e trancas? Tantas armaduras fictícias? Tantas fronteiras?

O porquê dos códigos de proteção em todas as instâncias? Leis suplementares e adendos? Tantas formas para nos proteger dos litígios, e outras para evitar nossas dores e angústias?

Por que tanta tecnologia para nos proteger dos infortúnios? Por que esse guarda de pé à sua porta, durante vinte e quatro horas?

Já parou para pensar no porquê da proteção extra no solado de seu sapato? E esse cinto no banco traseiro do seu carro?

Quantos planos existem para lhe proteger? O seguro do carro está em dia? E o alarme do portão? Você conferiu se está em perfeito estado?

Olha! Vai chover, não se esqueça do guarda chuva. Com certeza ele irá evitar que se molhe. Deus lhe proteja! Amém.

Ao sair esqueceu de trancar a porta, nem o portão fechou. Falta luz em todo o bairro e a bateria do alarme está em estado deplorável. Pode ser que nem funcione.

HEI! TEM ALGUÉM EM CASA?

Não se preocupe, o cachorro está solto no quintal. E deixei as luzes da varanda acesas. Quantos serão os que têm a cópia da minha chave? Já pensou no inferno que seria se chifre tivesse alarme? Às vezes um toque de imperfeição é até bem-vindo.

Tem um bêbado em cima do muro da sua casa. Pode me explicar porquê essa cartomante no telhado? A cisterna está vazia, e a caixa d’água também. A biquinha da varanda só pinga, e você tomando banho de chopp no bar da esquina!

O INFERNO DA SUA VIDA É QUE VOCÊ NUNCA ESTÁ EM CASA.

Todos sabem disso, menos você.

O sol de uma manhã de outono vem lhe dizer bom dia, mas você não está. O carteiro vem lhe trazer uma carta repleta de novidades, mas você está confinado a velhos hábitos e nem sequer a lê. Uma mulher bate á sua porta lhe pedindo roupas usadas, mas você não a recebe. Mas como poderia recebê-la se nunca está em casa?

Um caminhão de entrega parou, alguém desceu e tocou a campainha, uma, duas, três vezes, e foi embora. Mas como renovar o seu quarto se os móveis velhos ainda continuam lá? Tem uma placa na sua varanda: ‘MORO ONDE NÃO MORA NINGUÉM’.

Seu filho está lhe procurando para lhe dar um abraço. Não se lembra? Hoje é dia dos Pais. E o seu pai, onde está? A comida está esfriando na mesa. Sua ausência, sinceramente, me preocupa!

ONDE SERÁ QUE VOCÊ SE METEU?

Andamos a tarde toda lhe procurando. Fomos até o bar do Chico, e nada. Olha que aquele taco você não larga por nada, hein! A cerveja gelada está ficando quente. Você simplesmente sumiu. Esqueceu do churrasco surpresa da Lindalva? Prometeu levar o carvão. Sua esposa não vai gostar nada disso. É aniversário dela, cara! Onde você se meteu?

DEUS PASSOU PELA SUA CASA LHE PROCURANDO MAS NÃO O ENCONTROU, VOCÊ ESTAVA NA IGREJA.

Tem uma mensagem na net: KD VC CARA? Seu tênis está sujo. Seria bom aproveitar que o sol está quente e lavar. E o quintal? Vai dar cobra nisso aí! Hoje é o último dia da mega sena. Tem prêmio alto no bolo, e aí? Não vai jogar?

DEUS, ENTÃO PASSOU PELA IGREJA LHE PROCURANDO, MAS TAMBÉM NÃO O ENCONTROU POR LÁ.

Meu Deus! Onde você se meteu? Sem emprego, duro. Empregado, esbanjando. Proprietário, se ferrando. Onde está você? Bebendo, orando, fumando, entediado, rindo, onde está você? Tem laje pra virar na casa do Tião, e tem feijão também. Tem macumba no terreiro, e farinha na tigela. Mas e você, KD VC?

HEI! SEU SEGUNDO FILHO NASCEU ONTEM, CARA! É UMA MENINA!

Acorda! Ta na hora do batente. Tem que pegar o primeiro, aquele das quatro e quarenta. A estação está vazia, a cama está vazia e o café esfriando na mesa.

O QUE ESTÁ ACONTECENDO, QUE VOCÊ NUNCA ESTÁ EM CASA?

Há uma alma errante na estrada à procura de um corpo. Virou mendiga e dorme no chão do ofício. Será a sua?

Tem um irmão bastardo, nascido de uma prostituta moribunda, será o seu?

E esse canivete sujo de sangue? Parece aquele que você carregava no bolso de trás da bermuda.

Dizem que tem um bêbado que todas as noites dorme no antigo túmulo da Dona Amélia. Falam até que se parece um bocado com você, mas se não me engano você tinha um medo danado de cemitério. As coisas mudam não é mesmo?

A DESGRAÇA DA SUA VIDA É QUE VOCÊ NUNCA ESTÁ EM CASA.

O INFERNO DO HOMEM É A AUSÊNCIA DO PRÓPRIO HOMEM.

Tudo acontece em sua vida pela ausência de si mesmo. Quando nos ausentamos de nós mesmos, todas as circunstâncias externas passam a ser a nossa casa. Tornamo-nos assim escravos de nós mesmos. O Centro Emocional passa a tomar as decisões, enquanto o Centro Intelectual se deixa vencer pelas emoções. O Centro Sexual passa a servir ao imaginário, enquanto o Centro Motor torna-se um serviçal da ansiedade. Um corpo ansioso é uma nau sem rumo.

Uma ‘legião de eus’ tomou o lugar do Amo, enquanto longe de casa nos embriagamos na taberna (art. 119).

A PROCISSÃO DA MISÉRIA HUMANA É UM LAMENTO TRISTE, QUE CAMINHA SEM SABER ONDE CHEGAR.

Um homem ausente de si mesmo é uma imagem tediosa de se olhar. Ele conhece milhões de coisas, menos a si mesmo. É aquele que quando o filho pede a sua atenção, ele diz: ‘Espere um pouco que o papai está fazendo uma coisa importante‘. É o mesmo que, quando a mulher busca carinho, diz que está cansado e dorme. É aquele que quando recebe uma ligação de sua mãe, diz: ‘Daqui a pouco retorno, estou tomando um cafezinho‘. Está sempre ocupado com alguma coisa, pois nunca está em casa. Está no templo louvando o Senhor, mas nunca em casa.

Por isso necessita possuir sempre mais. É um investidor nato em suas auto-afirmações e justificativas. A sua ‘bolsa de valores imaginários’  tem que estar em alta, senão se desespera. Trata-se de um falador impulsivo e imponderado. Nunca para em momento algum, e quando o faz, põe-se a ouvir música ou assistir televisão. Suas leituras são os vespertinos, nunca reflete à cerca da verdade, pois se julga conhecedor dela.

PREFERE OS PRATOS FEITOS À COZINHA, JAMAIS PLANTA, PORTANTO, NUNCA COLHE.

Se o controle remoto sumir, ele culpa o filho. Se o almoço ou jantar se atrasar, a culpa é da mulher. Sempre um álibi para nunca ver-se a si mesmo. E se o feriadão não acontecer, a culpa é da chuva.

SE NUNCA ESTÁ EM CASA COMO PODE SER CULPADO DE ALGUMA COISA? PORTANTO, É UMA FUGA DE SI MESMO.

Somos sempre a vítima, somos irresponsáveis por natureza. Se não deu certo agora, com certeza, vai dar amanhã. Nunca para e pensa: Porquê não deu certo? E jamais diz: Eu assumo a responsabilidade por todos os fracassos.

COMO PODE ALGUÉM AUSENTE SER RESPONSÁVEL POR ALGUMA COISA?

Não se observa a si mesmo, pois se assim fizer irá notar a sua ausência, e isso lhe faz muito mal. Então acende um cigarro e observa a dança da fumaça no ar, ou simplesmente não observa. Ou então, medita, pois assim dificilmente irá se lembrar de si mesmo. Ou para, lê, relaxa e dorme. Mas nunca está ali.

Tudo está preparado em um circuito tão preciso de identificação que já estamos pré-intencionados para alguma coisa. Natal, ano novo, carnaval, semana santa, dia das mães, e a cada ano surge uma nova forma de condicionamento que aos poucos vai ganhando raízes: Dia do amigo, dia internacional da mulher… e assim por diante. É muito difícil praticar a Observação de Si Mesmo no mundo em que vivemos.

E quando abrimos os jornais nos deparamos com as mesmas notícias, com pequenas variações aqui e ali. A televisão completa o circuito, basta ver três telejornais diferentes num mesmo dia para perceber que todos eles enfatizam a mesma coisa. Nos perdemos nas notícias, nos objetos, nos pensamentos, e…

… NUNCA ESTAMOS EM CASA, NUNCA SOMOS NÓS MESMOS, ESTAMOS SEMPRE AUSENTES DE NÓS.

Então fugimos para as religiões, festas, divertimentos, afazeres, como entes desesperados à procura de alguma coisa que possa preencher a dor de nossa ausência. Por isso dizemos que a alma do homem se ausentou do homem.

SE O HOMEM NÃO ESTÁ EM CASA, COMO SUA ALMA PODE ESTAR?

SE A ALMA DO HOMEM ESTÁ AUSENTE, COMO CHAMAR POR DEUS?

É necessária toda uma vida de observação e reflexão para ver na prática o que estamos colocando nesta página hoje.

COMO PODEMOS AMAR NOSSO PRÓXIMO SE ESTAMOS AUSENTES DE NÓS MESMOS?

HEI! TEM ALGUÉM EM CASA?

Que Assim seja!

125 – Do Getsêmani ao Gólgota

In Artigos on 15 de setembro de 2011 at 15:58

SÓ O CORAÇÃO DE UM HOMEM PODE TORNAR VERDADEIRO SEU CAMINHO, CASO CONTRÁRIO SERÁ APENAS MAIS UM A LEVAR A LUGAR NENHUM.

Não importa quem o tenha percorrido anteriormente, poder ter sido um santo ou pecador, não importa. As pegadas deixadas no caminho são marcas invisíveis na psique. Tornam-se reais somente quando nós, individualmente, as tornamos reais, com passos corretos e firmes, além de atitudes e intenções verdadeiras.

TODO E QUALQUER CAMINHO NÃO LEVA A LUGAR ALGUM, PELO SIMPLES FATO DE NÃO OBSERVARMOS NADA AO REDOR, E AINDA PERDERMOS CONTATO COM A ORIGEM E PROPÓSITO INICIAIS.

Hoje especialmente vamos refletir sobre o significado do caminho do Calvário, do Getsêmani ao Gólgota, lembrando que…

…ENQUANTO A HUMANIDADE ADORMECIDA INTERPRETAR JESUS COMO VÍTIMA NÃO IREMOS A LUGAR ALGUM.

Sempre que somos induzidos a uma situação de vitima o imaginário toma conta do real. É essa proposição que induz à auto justificação e a todo tipo de racionalidades. A razão do homem o convida sempre a responder de forma conclusiva a todas as questões impostas pelo ego. A arte de pensar, uma reflexão além da memória condicionada às circunstâncias precisa estar presente, caso contrário seremos marionetes nas mãos de falsos profetas da tecnologia e modernidade. Portanto, vamos refletir hoje sobre o Jesus autêntico, não um Jesus vítima. Vamos refletir sobre a sabedoria dos séculos e não sobre a imposição de rótulos, dogmas ou credos.

O caminho do Getsêmani ao Gólgota é o maior de todos os ensinamentos de todas as eras e civilizações da Terra. A sua oportunidade em estar diante dele é única e a minha ao documentá-lo é singular. Foram necessários mais de quarenta anos de escuridão para alcançar a luz deste texto. Várias escolas de pensamento irão ancorar aqui, pois sem elas não teríamos a menor chance de esclarecer o significado real do Calvário.

Ele tem início no Horto das Oliveiras, quando Jesus dá um passo à frente e se entrega aos soldados romanos. Mas a primeira diferença em relação a todas as análises convencionais é que para nós não importa se este homem que deu um passo à frente é Jesus, Tiago, Pedro, João, você ou eu. O que realmente nos interessa é o significado maior do caminho, não o homem Jesus, mas a Escola Jesus. Também não vamos nos prender a nenhuma circunstância espiritual, portanto, se Jesus é o Messias ou não, não nos interessa nesta reflexão. O que realmente nos importa é o significado real do caminho.

JESUS SABIA PENSAR, JEJUAR E ESPERAR, PORTANTO, EM SUA MENTE, CORPO E CORAÇÃO JESUS ERA UM BUDA, OU SEJA, AQUELE QUE DESPERTOU.

O caminho do Getsêmani ao Gólgota é o caminho do Homem Desperto. Jesus caminhou entre dois extremos. Do Getsêmani ao Gólgota é a Travessia do Mar Vermelho, manifestada de forma real e conclusiva. Os ‘inimigos reais’ a serem vencidos por Jesus somavam quatro, e ao vencê-los é crucificado, como o unificador dos quatro corpos do homem. A cruz é apenas um círculo transposto à dimensão material, portanto aponta para todas as possibilidades inerentes ao homem. Toda cruz é um círculo, com eixo central e raios simétricos de rotação ilimitada, transposto a um universo tridimensional chamado Terra. Vamos dividir em número de quatro os ‘inimigos reais’ e refletir à cerca de cada um deles individualmente, portanto, cada um será um caminho em si mesmo.

                                                O CAMINHO DO FAQUIR

O propósito maior do Caminho do Faquir é colocar o homem como senhor dos seus desejos e despertar a sua vontade. É um caminho tenaz, rude, extremamente frio e cruel. Um faquir trabalha sobre os Centros Instintivo e Motor. Impõe-se a si mesmo verdadeiras torturas, tais como permanecer em determinada posição num pátio de alguma escola de faquires por semanas ou meses, sem se deslocar dali para nada. Os seus discípulos o levam ao banho e lhe dão comida e água sem que ele mesmo mova sequer um dedo. Não importa o frio ou o calor, aconteça o que acontecer ele não muda o seu propósito inicial. Circunstância nenhuma o faz mudar. Não importa a dor que venha a sentir, nem a angústia, nem a morte. O seu propósito é único e para cumpri-lo ele não mede esforços. É uma cena única na vida de um homem em busca do Verdadeiro Conhecimento cruzar com um deles.

E NO CAMINHO DO GETSÊMANI AO GÓLGOTA O POVO VIU PASSAR O MAIOR FAQUIR DA HISTÓRIA DA TERRA.

Dizem se chamar Jesus, mas como dissemos anteriormente, isso hoje não importa para nós. O que realmente nos interessa nesta reflexão é o significado do caminho. O que aquele gesto quis nos mostrar, isso sim nos interessa. E atentem para uma coisa Jesus não era vítima de nada, apenas confirmava a si mesmo a sua superioridade sobre o corpo físico e abria um caminho nunca antes imaginado pelo seu povo.

Já no início das provações Jesus nos dá provas do valor do jejum, mas não um jejum qualquer de mera abstinência de alimentos, mas um jejum de palavras e pensamentos. Foi convidado várias vezes a propor algo em sua defesa e em momento algum se pronunciou de forma afirmativa, nem negativa. Foi perfeito em suas colocações, um exímio faquir como jamais se viu.

COM SEU GESTO PROVOU A TODOS NÓS SER POSSÍVEL SUPORTAR O INSUPORTÁVEL, DESDE QUE SEJAMOS SENHORES DE NOSSA VONTADE.

O peso da cruz não foi capaz de fazê-lo maldizer-se a si mesmo, nem mesmo o seu semblante manifestava nenhuma dúvida em relação ao propósito original. Entenda que aqui não estamos manifestando nenhuma espiritualidade, portanto, falamos do homem Jesus e o conteúdo real do seu ensinamento, não estamos nos prendendo a nenhum credo, não estamos falando em nome de nenhuma religião. Aquele que levou uma coroa de espinhos à cabeça, e que quando pediu água lhe deram fel, era apenas um homem que havia se tornado senhor da sua própria vontade. Mas ainda havia três obstáculos no caminho do homem que se chamava Jesus.

                                                  O CAMINHO DO MONGE

Este é o caminho da obediência, inclui disciplina e fé. Um monge é aquele que crê num propósito e é obediente a ele. O verdadeiro monge, não condicionado às circunstâncias, é um homem sublime, pois trava uma batalha de todos os dias com o seu Centro Emocional. Muitas vezes é convidado a ceder, mas uma força superior a si mesmo o impulsiona a prosseguir até o fim. Se por um só instante ceder poderá colocar a perder todo o seu trabalho de anos de dedicação e prática. O monge verdadeiro e santo sabe que as emoções negativas estarão batendo à sua porta durante todo o tempo, reconhece o poder inerente da auto justificativa e da auto importância. Supera todos os limites do imaginário para se fazer real, mas não pode se ausentar de si mesmo um só instante. Joga ao chão o orgulho e a vaidade, e pela disciplina e obediência supera todas as adversidades. Jesus sabia esperar. O Gólgota fica perto, pensava ele, chegarei lá antes do anoitecer.

DESTA VEZ ESTAVA DIANTE DOS OLHOS DAQUELA MULTIDÃO O MAIS HUMILDE DOS MONGES, DENTRE TODOS AQUELES QUE JÁ PASSARAM PELA TERRA.

Sua disciplina era magnífica em todos os sentidos, a obediência ao que ele chamava de Pai era de causar exultação a todos nós. Inconfundível ele caminhava com a elegância de um rei. Blasfêmias não o tocavam, insultos não eram ouvidos. Palavras obscenas não tinham resposta ativa.

AQUELE HOMEM DESPERTO ERA ATIVO, ENQUANTO NÓS, SERES ADORMECIDOS, SOMOS REATIVOS.

Em nenhum momento julgou a nenhum daqueles que o perseguiam. Nenhum olhar de reprovação lançou sobre eles. Havia uma multidão à sua direita, outra à esquerda, mas ele seguia  resoluto O Caminho do Meio. Um ser humano quando colocado em tal situação torna-se alvo fácil para as emoções negativas, para o medo, para o ódio, mas Jesus não tinha mais nenhum vínculo com a auto importância. Havia vencido a si mesmo e se tornado senhor absoluto de suas emoções. E quando viu seus opositores sendo vítimas de algum dos seus seguidores, chamou a atenção para que assim não procedessem. Tamanha era a segurança emocional daquele homem que em momento algum se deixou vencer pela razão, nem justificou nenhum dos seus atos.

A atitude soberana de Jesus é um convite para que nos tornemos senhores do Centro Emocional. Convida-nos a não nos deixar vencer pelas paixões. Chama nossa atenção para o ser impulsivo e reativo que há em cada um de nós, permitindo a outrem ser senhor dos nossos atos. Como pode um homem vivendo as circunstâncias de Jesus, ainda ser grato? Mas ele foi. Como pode estar revestido de humildade e gratidão diante de tamanha dor? Mas assim o fez. Este é o significado maior da sua conduta, não importando se é filho de Deus ou não, se é o Messias ou não. Isso é o que menos importa.

ATITUDES FIZERAM DELE O SENHOR, O CÉU DE QUE TANTO FALOU ELE O CONQUISTOU, NÃO LHE FOI DADO POR HERANÇA.

POR FAVOR, REFLITAM SOBRE ISSO! É A CONDUTA DE JESUS QUE O FAZ REI, NÃO O FATO DE SER OU NÃO O FILHO DE DEUS. SE EXISTE UM DEUS NO UNIVERSO, QUALQUER QUE SEJA ELE, COM CERTEZA, GOSTARIA DE TER UM FILHO COM O CARÁTER DE JESUS.

NÃO SEI SE ELE É OU NÃO O ENVIADO DO CÉU, MAS TENHO A PLENA CONVICÇÃO DE QUE CONQUISTOU O CÉU.

Mas outros ‘inimigos reais’ ainda esperavam para serem transpostos no caminho do Getsêmani ao Gólgota. Jesus havia cristalizado o seu 1º e 2º corpo, mas ainda faltavam dois outros corpos.

                                                 O CAMINHO DO IOGUIM

Este é o caminho do despertar da consciência, de uma nova maneira de pensar. É o caminho da luz e da sabedoria, além dos limites da matéria. O ioguim não necessita de fé como o monge, nem procura exercer a vontade como o faz o faquir. Ele sabe que o despertar da consciência pode lhe trazer o conhecimento necessário à sua evolução. Por isso durante a sua vida o ioguim se prepara para exercer a sua autoridade sobre si mesmo. É determinante ver antes de crer em alguma coisa, e o ioguim assim faz. É lúcido em suas ações porque não as pratica seduzido pelo que não vê, antes observa a si mesmo para torná-las reais.

JESUS FOI O MAIOR IOGUIM QUE TEMOS CONHECIMENTO NA TERRA. NENHUM OUTRO SE APROXIMOU DE TAMANHO CONHECIMENTO E SENSATEZ.

Era conhecedor do destino que lhe aguardava. Não porque estivesse a serviço de nenhuma profecia como nos faz pensar os homens de Roma, mas porque era letrado e versado em muitas culturas e tradições. Durante o período dos 13 até os 30 anos foi iniciado em muitas escolas do Oriente. A sua própria origem é modesta, mas dotada de conhecimentos exemplares oriundos de épocas distantes. Portanto, durante todo o drama, era conhecedor absoluto de suas reais possibilidades, a ponto de pedir perdão para aqueles que o crucificaram, pois não tinham nenhum conhecimento a respeito das conseqüências de seus atos. Em suas parábolas ele nos dá uma prova do conteúdo magnífico de seu ensinamento, numa linguagem muito acima da nossa.

NENHUM HOMEM SENDO CONHECEDOR DO FIM TRÁGICO QUE O ESPERA SE COLOCA À DISPOSIÇÃO COMO FEZ JESUS. ISSO FAZ DELE O MAIOR DENTRE TODOS OS IOGUINS.

Mas ainda resta o quarto e último ‘inimigo real’, o mais difícil de ser vencido por ser o somatório de todos os outros juntos.

                                                                  A CRUZ

Este é o símbolo maior toda a história do Cristianismo, mas quando transformamos Jesus em vítima perdemos contato com o verdadeiro significado. Quando imputamos a Jesus gritos de vitória, elevamos trono ao ego e o transformamos em redentor do mundo. Passamos a ver Jesus como Redentor e nos esquecemos de nós mesmos, quando era justamente o contrário que ele queria de nós. O madeiro possui duas linhas infinitas: uma horizontal e outra vertical. A horizontal une o lado esquerdo ao lado direito do homem e a vertical une o acima e o em baixo de Hermes Trismegisto.

Somente aquele que cristalizou em si mesmo o 1º, 2º e 3º corpos pode alcançar este 4º corpo que é o corpo divino do homem. Jesus criou a si mesmo quando superou todos os três ‘inimigos reais’, citados anteriormente. E ao se permitir crucificar naquele madeiro tornou-se senhor do 4º corpo e imortal dentro dos limites cósmicos desse corpo. Portanto, podemos afirmar com toda clareza que Jesus venceu a morte, não porque travasse uma luta com ela, mas por ter vencido as limitações de sua própria natureza terrena. A sua batalha era consigo mesmo, mas os argumentos foram modificados e hoje estamos travando lutas externas que não nos levam a lugar nenhum. E o pior é que estamos travando lutas externas com o nome de internas, sem saber disso.

A nossa verdadeira guerra, na verdade não é uma guerra, mas a harmonização dos Centros. Enquanto cada Centro pensar do seu modo e tiver autoridade para agir segundo os seus ditames, estaremos numa casa onde todos mandam e ninguém obedece.

AÍ JESUS PASSA A SER O QUE QUEREMOS QUE SEJA, MAS NÃO O QUE REALMENTE É.

O Centro Intelectual do homem pensa Jesus e o materializa. O Centro Emocional cria emoções de Jesus segundo as circunstâncias e também as materializa, e daí por diante. É preciso Observar a Si Mesmo para sentir a verdade daquilo que estamos dizendo. Somos assim, mas não sabemos.

Desconheço um ensinamento mais rico em significado que este do Getsêmani ao Gólgota, pois é o caminho trilhado pelos sábios que unificaram em si mesmos a razão maior da existência:

SUPERAR OS PRÓPRIOS LIMITES PARA ENCONTRAR A SI MESMO EM SI MESMO.

O caminho do Getsêmani ao Gólgota é um limiar, portanto trata-se de uma linha divisória entre dois mundos. O primeiro é um mundo de possibilidades reais, enquanto o segundo é a realização concreta dessas reais possibilidades. Jesus acena de forma prática e objetiva para a harmonização interior do homem, vivendo na prática um modelo de integração completa do próprio homem, em verdade e plenitude. A cruz, símbolo maior da integralidade do seu ser, não representa a morte, mas sim a vida. A cruz representa o número quatro, a integração dos quatro corpos, o reinício de uma nova era.

JESUS NÃO MORREU NA CRUZ COMO NOS FAZ PENSAR OS HOMENS DE ROMA, ELE RENASCEU NA CRUZ.

O real significado disso está além de qualquer possibilidade de entendimento literal. Somente o despertar de uma nova sensibilidade, além dos condicionados sentidos ordinários nos possibilita ver.

Portanto, não saia por aí desesperado procurando Deus, ou ironicamente dissuadindo a Sua Presença. Antes permita que venha ao nosso encontro. Ele nos conhece e sabe muito bem onde nos encontrar, enquanto nós, devido aos limites impostos pela personalidade não temos a menor possibilidade de encontrá-lo.

Que assim seja!

124 – Judas Iscariotes

In Artigos on 12 de setembro de 2011 at 22:45

O texto sobre o qual iremos refletir hoje nos traz o mais polêmico dentre todos os símbolos cristãos: Judas Iscariotes, ou Judas de Kariot, derivado do hebraico Ish Keriotk, o Homem de Kerioth, cidade ao sul de Judá.

Judas Iscariotes foi o apóstolo que, segundo os escritos evangélicos, entregou Jesus aos soldados romanos por trinta moedas de prata. A narrativa de Mateus nos fala da prévia combinação de um beijo para caracterizar a traição, enquanto Lucas relata o beijo, mas não cita nenhum acordo anterior, diz apenas que Judas aproximando-se de Jesus saúda-o com um beijo. Segundo João, o Mestre se adiantou aos guardas acompanhados de Judas, se identificando a eles como sendo Jesus, o Nazareno, aquele a quem procuravam.

Judas passou a ser não apenas o grande vilão da bíblia, mas da própria história. Se observarmos cuidadosamente o significado popular dado ao seu nome, vamos encontrá-lo como sinônimo de traidor, daquele que mente e trai a confiança dos outros por interesses mesquinhos. Durante minha infância numa cidade do interior, levantava bem cedinho nas manhãs de sábado de aleluia, procurando por algum poste onde houvesse um ‘Judas’ para ser malhado. Era uma tradição cultuada todos os anos e, como elemento biológico de repetição autômata, eu não poderia me furtar em participar da festa. Era um castigo simbólico imposto a alguém que, segundo os evangelhos tradicionais, entregou Jesus aos soldados romanos no Jardim das Oliveiras, identificando-o com um beijo na face.

NUMA COLMEIA DE HOMENS ADORMECIDOS É PRATICAMENTE IMPOSSÍVEL INDAGAR QUEM FOI REALMENTE JUDAS E QUAL O VERDADEIRO PAPEL QUE REPRESENTOU NA VIDA DE JESUS.

Hoje observo que não há nenhuma diferença entre nós que apedrejamos Judas num sábado de Aleluia e aqueles que apedrejaram o próprio Jesus, durante o Martírio.

HOMENS ADORMECIDOS, DOMINADOS PELO MUNDO DA IMAGINAÇÃO, SÃO CAPAZES DE QUALQUER COISA, BASTA ALGUÉM OS INCITAR A ISSO.

Consta dos registros canônicos que Judas teria se enforcado, vítima que foi do arrependimento, após consumada a traição. E que teria tentado devolver as 30 moedas de prata sem êxito, enquanto outra narrativa nos diz que as atirou dentro do santuário.

JUDAS ISCARIOTES ERA O PRÓPRIO LOBO  E ISSO SEMPRE FOI DO CONHECIMENTO DE JESUS.

Judas foi o mais leal de seus apóstolos, mas nunca amou Jesus. A relação entre eles tinha como base: o respeito, a justiça e a gratidão. Judas era fiel ao seu mestre e leal em todo os seus compromissos, por isso foi imbuído da responsabilidade do tesouro. O único apóstolo que amava Jesus era João, ele tinha um ser evoluído e era filho das escolas esotéricas de sua época.

A REABILITAÇÃO DE JUDAS É TEMIDA PELA IGREJA, POIS ISSO SIGNIFICARIA O FIM DE UMA ÉPOCA DE MENTIRA E OPRESSÃO.

Mas o vento que sopra do Oriente parece determinado a dar novo rumo à história. São muitos os acontecimentos que se avolumam em tão pouco tempo, é como se um fim precoce estivesse nos aguardando. Os ‘Buscadores da Verdade’ nunca foram coniventes com a mentira, portanto, não estão a serviço de nenhuma causa pessoal. A causa pessoal do homem é uma paródia à mentira, pois o homem é um animal que mente. Quando desprovido de interesses imediatos ele se põe a caminhar em espírito e em verdade.

No Concílio de Nicéia, hoje na Turquia, reunidos em 325 por iniciativa do imperador cristão, Constantino, a igreja limitou em número de quatro os evangelhos, ou seja, aqueles atribuídos a Marcos, João, Lucas e Mateus. Muitos escritos foram descartados porque não convinham à política doutrinária de Constantino. Era preciso um bode expiatório para fazer jus à mentalidade dual do homem, então nada melhor para justificar o poder de Roma do que o estigma de traidor. Caía como uma luva para justificar o massacre de todos aqueles que se atrevessem a despertar e pensar diferente.

Falava-se de Judas de Kariot e sua missão. Uma ESCOLA GNÓSTICA que se tornou conhecida como seita dos Iscariotes, guardava em seus ensinamentos a verdadeira missão do apóstolo, mas foi praticamente dizimada pela Inquisição. Diziam em seus arquivos que Judas não foi um traidor como lamentavelmente nos relata a história, mas um hierofante que desempenhou o seu papel, mesmo sabendo do temível desfecho que se aproximava.

QUANDO VIU O SINAL, TRINTA MOEDAS DE PRATA, O LOBO ENTENDEU QUE ERA CHEGADA A HORA DE CUMPRIR A SUA MISSÃO: DEVOLVER O CORDEIRO À CASA DO PAI.

Então, sendo o Lobo  um Guerreiro Espreitador de poder sem igual nos anais da Terra, assumiu corpo, mente e coração de Judas Iscariotes e o fez aceitar as trinta moedas de prata, e em seguida beijar a face do Cordeiro. O Lobo tinha conhecimento antecipado de todo o drama cósmico e sabia exatamente o que lhe coubera fazer. O Cordeiro já o havia orientado quando retornava do deserto, após quarenta dias  de meditação e silêncio interior. Mas não o fez por amor, nem compaixão, nem misericórdia, pois tais sentimentos não fazem morada no coração do Lobo. Cumpriu a sua missão em harmonia com determinadas leis cósmicas, incompreensíveis para a mente unilateral do homem comum.

A PARTIR DAQUELE MOMENTO JUDAS PASSOU A SER VISTO COMO O PRÓPRIO LOBO, PORTANTO, EXORCIZADO, ODIADO E QUEIMADO POR TODA A TERRA.

Judas Iscariotes não queria aquele papel, mas sabia que teria de executá-lo. Ele jamais traiu o Mestre e Senhor Jesus. Foi seu melhor amigo e leal em todos os momentos de sua vida. Homem de caráter e sabedoria sem igual, e fiel no cumprimento dos seus deveres. Todos os apóstolos sabiam disso e ficaram inconformados com o seu fim aparentemente trágico, pois ninguém sabe ao certo que fim levou. Existem contradições ao longo da história com referência a isso.

O LOBO E ISCARIOTES TORNARAM-SE HERDEIROS DO INCONSCIENTE DE GAIA E ESPERAM O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA HUMANA PARA ASCENDER NOVAMENTE AO CHAKRA DO CORAÇÃO.

Existe um trecho de Samael Aun Eor que diz: “Ao adentrar o abismo, vi que o suspendiam e lhe punham cordas. Ele se deixava suspender com a humildade única de quem superou o próprio ego. Mas se ele não tem mais ego, então porque permanece no abismo? Lutando para redimir os perdidos de Gaia, aqueles que não têm mais remédio, nem alma. Ele é como um raio de luz do Cordeiro perdido no abismo da existência”.

QUANTOS DE NÓS VENDE JESUS DIARIAMENTE POR MENOS DE TRINTA MOEDAS?

Porquê é tão difícil compreender que a traição é inerente à espécie humana? Que o desejo de matar é uma constante em nossa psique? Porquê é tão difícil ver-se a si mesmo no espelho do próximo? A Lembrança de Si Mesmo é isso. Lembrar-se sempre de si cada vez que nos vemos refletido no outro. O outro, na verdade, somos nós mesmos. Todas as fronteiras são imaginárias. Todas as distâncias nós as criamos, não são reais. Como diz Richard Bach: “Longe é um lugar que não existe”.

O mal é como uma roseira, podemos estar identificados com a rosa ou com os espinhos. Podemos até exorcizar os espinhos, mas corremos o risco da roseira definhar e até morrer. Portanto não se identifique, simplesmente acene e siga adiante. A roseira continuará sendo o que é, enquanto nós teremos a liberdade de ser rosa, roseira, espinhos e flor.

Portanto dentro dessa nova perspectiva Judas não é o executor consciente da trama que matou Jesus, mas o Lobo também não é. Então quem é?

SOMOS NÓS, POR ISSO O MALHAMOS, POIS ASSIM FAZENDO NOS DISTRAÍMOS E ESQUECEMOS A NOSSA REAL CONDIÇÃO DE TRAIDORES.

Por isso não nos observamos a nós mesmos, temos medo de descobrir que a bruxa do espelho somos nós. No castelo imaginário dos nossos sonhos é muito fácil imputar a culpa no ombro do outro. Mas até quando?

Que assim seja!

123 – Espreitar-se a Si Mesmo

In Artigos on 11 de setembro de 2011 at 18:20

Talvez este seja o principal elo que une os ensinamentos do Nagual Dom Juan Matos à ESCOLA do Sr. Gurdjieff.

A arte de Espreitar-se a Si Mesmo tem uma relação direta com a Observação de Si Mesmo. Podemos dizer que é simplesmente impossível Espreitar-se a Si Mesmo sem a Observação de Si Mesmo.

Como foi citado no texto anterior, a arte da espreita visa criar determinadas situações inesperadas para que o homem possa se observar além da sua rotina diária. Os condicionamentos de uma vida regular e contínua induzem a pensar que nos conhecemos e que as nossas atitudes são reais e únicas. Todas as facilidades sugeridas pela modernidade dificultam a Observação de Si Mesmo. Temos uma vida tão regular e contínua que não nos resta outra possibilidade senão seguir o seu fluxo. Retirando certas questões de diferençais sociais e estados de saúde, nossos problemas são muito parecidos, e as soluções encontradas também. São essas soluções encontradas que chamamos ‘o nosso fazer’. Mas se observarmos com atenção veremos que todos fazemos exatamente igual, com pequenas variações de intensidade, mas usando uma metodologia uniforme.

Sendo assim, mudar algo em nós, por exemplo, um comportamento diferenciado diante de certas emoções, é tão difícil como encontrar azeitonas em um sorvete de morango. Podemos ter um propósito de mudar, e muitas vezes reafirmamos isso a nós mesmos, mas os obstáculos são tão grandes que, às vezes, tornam-se intransponíveis. Em primeiro lugar porque o propósito (art. 041) tem o seu alicerce no Centro Intelectual (art. 102) e somente por meio de novas idéias pode ter alguma possibilidade de germinação. Mas como encontrar idéias genuínas num mundo de abstração? Tudo é ocasional e repetitivo, numa rotina mórbida condicionada pela razão. Em seguida nos deparamos com o fato de sermos ‘seres de imitação’, ou seja, estamos condicionados a responder dentro do limitado mundo das circunstâncias. Desde criança fomos condicionados a isso. Por exemplo, tocávamos um carrinho, sentíamos então o contato dele com as mãos, observávamos a magia das cores e o levávamos à boca para sentir o seu gosto e o seu cheiro. Comemos terra e nos bateram às mãos dizendo: ‘Tira já da boca, isso na se faz’. Então, fomos aos poucos respondendo segundo a cultura do comportamento que nos foi imposta e, paulatinamente, perdendo contato com o real em nós. Aprendemos a pensar como nossos pais.

DIANTE DE UM MUNDO ONDE TODOS PENSAM IGUAL, COMO PODEMOS AGIR DE UM MODO DIFERENTE?

Por isso a ESCOLA diz: ‘O homem não pode fazer absolutamente nada’. Porque fazer o que todos fazem, não é fazer, e mera imitação do fazer.

E temos mais uma agravante. Somos alvos contínuos de uma avalanche de imagens nos induzindo emocionalmente a pensar de forma condicionada. São estados subliminares que estão sendo trabalhados através da hipnose e sugestão (art. 028). Essas imagens têm uma velocidade de ação em média 32.000 mil vezes mais rápida que a aquisição das idéias renovadas através do pensamento. De que adianta uma criança ir ao catecismo ou a uma escola dominical, se o seu inconsciente está sendo bombardeado todo o tempo por mensagens subliminares?

JÁ PAROU PARA PENSAR NO IMENSO PODER QUE TEM HOJE A TELEVISÃO SOBRE A FRÁGIL FORMAÇÃO DE NOSSOS FILHOS?

É um fluxo contínuo e ininterrupto. E as religiões para não ficar atrás passaram a usar os mesmos artifícios mesquinhos, visando angariar fiéis. Certa vez um monge estava às margens de um rio em silêncio contemplativo, quando alguém lhe perguntou: “Porquê gostas tanto desse lugar?” Ao que ele respondeu: “Adoro assistir televisão, e este é o meu filme preferido”.

O VERDADEIRO CONHECIMENTO ESTÁ À SUA DISPOSIÇÃO NA VOZ DO RIO, MAS NUNCA MANTERÁ CONTATO COM ELE ATRAVÉS DA MÍDIA.

Torna-se a cada dia mais difícil observar a si mesmo. São muitos os artifícios usados para distrair a nossa atenção, e sem uma atenção direcionada é impossível tal observação. O fluxo ininterrupto de pensamentos a todo instante nos distrai e ainda temos que administrar alguma coisa que a razão passou a chamar tempo.

ESTAMOS LIMITADOS AO MUNDO DOS NOSSOS AFAZERES E NUNCA TEMOS TEMPO, MAS SE ALGUM INTERESSE NOS ACENAR, ENTÃO PASSAMOS A TÊ-LO.

Por isso que a ESCOLA nos diz que ‘tempo é interesse’.

SÓ TEMOS TEMPO PARA DEUS SE ESTIVERMOS INTERESSADOS EM ALGUMA COISA.

O Espreitar-se a Si Mesmo é um tipo de sofrimento voluntário’. Aí alguém me diz: ‘Mas já temos tantos sofrimentos ao logo da vida, para que adicionar mais um sofrimento voluntário? A resposta é simples. É a única chance que temos de cessar o sofrimento inútil que tomou conta de nossas vidas.

O ÊXTASE DA VIDA SÓ TEM INÍCIO DEPOIS QUE DEIXAMOS CAIR OS NOSSOS ESCUDOS IMAGINÁRIOS.

Nosso futuro está embutido em nossa rotina diária, portanto, nada pode ser diferente se não mudarmos a nós mesmos. Espreitar-se a Si Mesmo implica colocar-se voluntariamente diante de determinadas situações que nos possibilitem a Observação de Si Mesmo.

Não existe sofrimento voluntário mais eficaz do que aquele que nos convida a nos aproximarmos daqueles dos quais estamos distanciados, por uma contenda qualquer.

PERDOAR EM SITUAÇÕES DESFAVORÁVEIS E OBSERVAR A SI MESMO ENQUANTO PERDOA É ESPREITAR-SE A SI MESMO.

Deixar de fazer gastos inúteis em futilidades pela observância e não identificação com certos caprichos também é Espreitar-se a Si Mesmo.

Deixar o comodismo e tranqüilidade do nosso lar para ser útil a alguém que precisa de nós, por estar em alguma situação adversa, é Espreitar-se a Si Mesmo.

Não cobrar uma dívida, quando somos sabedores que aquele que a contraiu encontra-se em dificuldades financeiras, também é Espreitar-se a Si Mesmo.

Não colocar obstáculos à frente de cegos, principalmente quando percebemos a cegueira em nossos próprios olhos, também é Espreitar-se a Si Mesmo.

QUANDO NOS TORNAMOS HÁBEIS ESPREITADORES DE NÓS MESMOS, O LOBO SIMPLESMENTE NOS ABRAÇA E CONDUZ AOS BRAÇOS DO CORDEIRO.

Poupamos assim um grande trabalho para o Lobo e ainda geramos energia para novas aberturas e mudanças em nossa vida. É como se Deus dissesse ao Lobo para sair pelas ruas e nos convidar para o banquete, e de bom grado aceitássemos. Pouparíamos a ele o tempo de ter de sair correndo atrás de outros para ocupar o vazio de nossa ausência.

A partir do momento que iniciamos a prática da arte da espreita com todo o nosso coração e toda a nossa alma, deixamos para trás o sofrimento inútil e todo o seu séqüito de eus imaginários (art. 091). Então iniciamos o sonho de Deus e deixamos de ser um vírus a mais no organismo sensível do planeta Terra.

Quando agimos assim parece que a própria natureza nos vê com outros olhos. Tudo parece vivo. A brisa suave do vento vem oscular nosso rosto, os pássaros antes distantes vêm fazer ninhos no quintal da nossa casa, a chuva no telhado renova a canção da noite e nos vem ninar, o choro de um bebê que antes nos impacientava passa a ser agora a música divina dos céus. Tudo muda, porque permitimos a nós mesmos mudar.

MAS SEM A OBSERVAÇÃO DE SI MESMO NADA DISSO É POSSÍVEL.

Quando nos observamos a nós mesmos passamos a nos ver além das máscaras que usamos pra sobreviver. Nossos disfarces começam a cair. Por isso fugimos tanto dessa prática, pois nem sempre vamos ver aquilo que imaginávamos ser, mas aquilo que realmente somos. Não haveria miséria no mundo se não fossemos tão mesquinhos e miseráveis. Por sermos entes mentirosos, a mentira assola o mundo. Nossa prepotência e insensatez nos afastam do verdadeiro louvor à vida. Intenções nem sempre louváveis fazem de nossas atitudes repostas vazias a Deus. Por isso e por outras coisas mais é que fugimos tanto da Observação de Si Mesmo.

Em todos os Evangelhos Jesus nos acena pedindo que espreitemos a nós mesmos. Ele sabe que sem essa prática, o seu ensinamento torna-se apenas superficial e destituído de raízes, e com o tempo morre.

Que assim seja!

122 – O sonho e a espreita

In Artigos on 10 de setembro de 2011 at 22:31

Segundo o conhecimento dos videntes Toltecas, os guerreiros ou ‘buscadores da verdade’ são divididos em dois grupos: os sonhadores e os espreitadores.

Os espreitadores praticam a arte da espreita, enquanto os sonhadores praticam a arte de sonhar. Unidas em si mesmas essas duas vertentes são: O símbolo maior de toda a conduta humana na Terra.

DEUS É A UNIÃO DA ESPREITA E DO SONHO, SENDO AMBAS, PORTANTO, É TUDO.

Compete ao guerreiro sonhador o sonhar, e ao guerreiro espreitador a arte de espreitar. Quando a união entre eles se confirma, o homem integral renasce das cinzas da omissão e do pecado. Esse é o verdadeiro renascer da alma do homem.

O guerreiro sonhador materializa os seus sonhos, transformando-os em realidade, mas o faz de forma consciente. O guerreiro sonhador diz à montanha ‘sai de onde estás e vai para onde eu te ordenar’, e a montanha obedece. A fé de um guerreiro sonhador não é instintiva nem circunstancial, e por ter desenvolvido harmoniosamente todos os Centros, tornou-se senhor de seus desejos, portanto um desejo seu é uma ordem. O caminho do guerreiro é um ensinamento que nos conduz a ser senhor dos nossos desejos. Ensina-nos a usá-los conscientemente para materializar a nós mesmos como seres reais e eternos, além da imaginação e do sonhar ordinário.

Somente o homem que rompeu os elos que o prendiam à identificação pode almejar ser um guerreiro sonhador. O apego às posses mundanas já não exerce nenhum poder sobre ele. Nada mais o prende ao mundo imaginário que o concebeu. Ele toca os objetos, os observa, cheira, sente suas emanações no próprio corpo, e não se apega a eles, pois sabe que não são reais.

SÃO APENAS AQUILO QUE ALGUÉM SONHOU E MATERIALIZOU, DE TAL FORMA QUE PODEMOS VER E TOCAR.

Apenas os usa na medida de suas necessidades, mas não os torna propriedade sua, nem se apega a eles. Toda água represada tende a se expandir e inundar. Confinar a riqueza do cosmo a um quesito de uso pessoal é o maior agravo da miséria humana. Nunca se esquecendo que o excedente fétido à sua mesa é a fome do seu irmão.

O INFERNO DE DANTE É ALGO QUE A MENTE HUMANA SONHOU E LHE DEU O NOME DE SOMÁLIA.

SE TODOS SONHAM EGOISMO O MUNDO RESPIRA MISÉRIA E FOME.

A arte dos guerreiros sonhadores vale também para míseros sonhadores, pois a arte em si é como a magia, tanto pode ser branca ou negra. Cada um faz dela o que quer.

PORTANTO DEUS PODE SER O LOBO OU O CORDEIRO OU AMBOS, DEPENDE DA VISÃO SER OBJETIVA OU NÃO.

Está vendo como é extremamente fácil manusear um conhecimento.

NENHUM ENSINAMENTO É VERDADEIRO, ATÉ QUE NÓS O TORNEMOS ASSIM.

SE A VERDADE NÃO HABITAR O CORAÇÃO, INFELIZMENTE  DEUS É IMAGINÁRIO E  MORTO.

SOMOS OS PROTAGONISTAS REAIS DA VIDA, SOMENTE ATRAVÉS DOS NOSSOS SONHOS ELA SE TORNA REAL E ETERNA.

Quantos guerreiros sonhadores o mundo tem hoje? Pegue a sua maquininha de calcular e nos ajude a fazer a conta. Dela depende a nossa sobrevivência como espécie.

A TERRA É UM PLANETA SONHADOR, NOS SOMOS O SONHO QUE ELA UM DIA SONHOU.

PORTANTO, Ó GUERREIROS, DESPERTEM E LUTEM BRAVAMENTE POR ELA.

MAS O SOL SONHOU A TERRA DA MESMA FORMA QUE A TERRA UM DIA SONHOU A LUA.

VIVEMOS NUM UNIVERSO SONHADOR QUE SE ALIMENTA DA MENTE DE LUZ DAQUELE QUE DESPERTOU, PORTANTO, DESPERTEMOS PARA A VASTIDÃO DO INFINITO.

A arte de sonhar tem como símbolo maior o Cordeiro. Foi ele que sonhou a vida e a viveu além dos limites da morte. Abraçou espaço e tempo o os uniu em eternidade.

Mas depois de acenar ao homem de todas as formas possíveis, a intenção do Alto viu e mediu a intensidade cada vez maior do seu sono. Ergueu majestosos edifícios e o convidou a entrar, mas ele nem sequer os via. Então enviou o seu próprio filho para que os despertasse, mas o enclausuraram no templo fictício da razão e personalidade, e continuaram dormindo e sonhando louvores e adoração.

Então não lhe restando outra alternativa, o Reino do Alto criou a Arte da Espreita, por amor infinito à raça humana. É necessário despertá-los a qualquer preço, custe o que custar, pois um número mínimo deles se faz necessário à continuidade do Raio da Criação.

Essa arte consiste em criar determinados contextos, visando a quebra da continuidade do homem, para que ele, diante das animosidades, possa refletir por si mesmo.

INFELIZMENTE, O HOMEM SÓ CONSEGUE PENSAR POR SI MESMO QUANDO ESTA DIANTE DAS ADVERSIDADES DA VIDA.

Todo tipo de dificuldade foi colocada então, ao longo do seu caminho, para que pudesse tomar consciência real de suas responsabilidades e interagir com elas. Mas, ao invés de ver-se a si mesmo como o responsável direto pelo seu estado de infortúnio, legou tal estado às consequências externas, criando assim a figura imaginária de Satanás, como autor e responsável pelos seus próprios erros.

Os guerreiros espreitadores povoam toda a Terra. São os leucócitos, o seu sistema defensivo, diante de um vírus mortal chamado Raça Humana. Mas o Centro Instintivo (art. 058) de Gaia, em vez de erradicá-los, torna-os propícios a diversas situações inesperadas para que possam ver além das sombras, e assim despertar.

O LOBO É O PRÓPRIO CENTRO INSTINTIVO DE GAIA, A SUA RESPOSTA À INGRATIDÃO DA RAÇA HUMANA.

ELE É O GUERREIRO ESPREITADOR QUE ASSOLA O CORAÇÃO DOS SOBERBOS, PARA FAZÊ-LOS DESPERTAR ÀS FORÇAS DO ALTO.

A SUA ALIADA MAIS TEMÍVEL É A IMAGINAÇÃO, POIS SOMENTE QUEBRANDO A SUA CONTINUIDADE PODE NOS FAZER VER ALÉM DE NÓS MESMOS.

Um homem em paz consigo mesmo, simples na sua conduta e fiel ao seu propósito, se você lhe perguntar a respeito do Diabo, ele não saberá lhe responder.

SÓ TEMOS RESPOSTAS CONCRETAS E OBJETIVAS PARA AQUILO QUE RESPONDE PELOS NOSSOS PENSAMENTOS, SENTIMENTOS E AÇÕES.

SÓ TEM REFERÊNCIA DO DIABO AQUELE QUE O CRIOU EM SUA MENTE E CORAÇÃO, POIS TEME A SI MESMO E AO MUNDO ONDE VIVE.

Os guerreiros sonhadores trabalham em estreita comunhão com os guerreiros espreitadores. A todo instante o guerreiro sonhador necessita de um golpe certeiro do destino para que o homem desperte e venha a sonhar outro sonho, além do pesadelo de uma vida identificada e triste. E só os guerreiros espreitadores podem fazer ruir os castelos imaginários das obsessões.

Alguém certo dia me chamou e disse: “Está vendo aquele homem? Ele tinha tudo e agora o Diabo entrou em sua vida e ele não tem mais nada”. Então lhe perguntei: O que é que ele tinha? Ao que me respondeu: “Casas, carros, esposa e filhos”. Voltei a lhe perguntar: Por acaso, você sabe se ele tinha a Lembrança de Si Mesmo? Como percebi que me olhava como sem entender o que eu estava falando, concluí: Se a tivesse, não teria perdido nada disso, pois o sentimento de posse não teria tomado conta de sua alma e coração.

Deus nos ama de uma forma incondicional. O amor de Deus não é o amor dos homens, da mesma forma que os sonhos de Deus também não são os nossos sonhos. O amor incondicional de Deus não pressupõe nenhuma condição, tanto o sonho como a espreita são atos de amor, sim e não são inexistentes para Deus.

DEUS É AO MESMO TEMPO SIM E NÃO, O PRESSUPOSTO DA RESPOSTA É DADO PELO PRÓPRIO HOMEM.

Por isso em páginas anteriores falamos que somente ao elevarmos o Lobo ao Chakra do Coração (art. 083) poderemos em verdade ouvir a voz do Cordeiro.

NOSSAS ATITUDES EXPRESSAM AS RESPOSTAS DE DEUS. CADA ATITUDE (ART. 007) É UMA AÇÃO E CADA AÇÃO CORRESPONDE A UMA REAÇÃO, PORTANTO, ATITUDES SÃO RESPOSTAS.

A arte da espreita não é independente da arte de sonhar, ambas caminham juntas. Diria até que a espreita é uma forma de sonho, só que não é o nosso sonho, mas sim o sonho de Deus.

LEMBRE-SE QUE O SONHO DE DEUS SÓ SE TORNA REAL, QUANDO O SONHO DO FILHO ‘CAI NA REAL’.

Que assim seja!

121 – A inocência do lobinho

In Artigos on 9 de setembro de 2011 at 23:40

O boato corria por todo o colégio: Lázaro lê Schopenhauer. E tem mais: É ele quem rouba os livros de física e matemática da biblioteca.

Porquê só ele pode ter os cabelos compridos e a gente não?

Mas Lázaro tinha doze anos e era filho de Woodstock, já trazia no sangue a Sociedade Alternativa. Era apenas mais um Lobo inocente que sonhava chegar à cidade grande e um dia ser alguém na vida.

A diretora, inesquecível Dona Jurema, uma senhora de punho de aço e coração de flocos de algodão, veio em seu socorro. Dizia ela a quem a contestasse: “Olha o boletim desse menino! Aqui só tem nota dez. E se ele for como Sansão?  Se a sua inteligência estiver nos cabelos? Quem sou eu para fazer com que ele os corte!”

Mas nunca se davam por vencidos. “E os livros de matemática e física? Quem irá devolvê-los?” E não se esqueçam que esse Lázaro lê Schopenhauer. É perigoso para um menino de doze anos ler Schopenhauer. E tem outros livros estranhos na casa dele. Onde será que ele arruma esses livros, pois não tem dinheiro nem pra tomar um sorvete?

A inesquecível diretora mais uma vez o socorreu: “Se quiserem os livros de matemática e física de volta, então vão buscá-los na Escola de Sargentos da Aeronáutica. Partiu para o Rio num caminhão de leite e de lá para Guaratinguetá, e levou os livros com ele”.

Lázaro era de origem muito humilde, pais analfabetos e avós também. Aprendeu como autodidata, roubando livros em bibliotecas. Quando os tinha às mãos, juntava os centavos que ganhava numa carrocinha como vendedor de alface para comprar folhas e encapá-los.

GASTO TODO O MEU DINHEIRO EM LIVROS E, SE POR ACASO SOBRAR, COMPRO COMIDA E ROUPA.

“Mas como explicar aquelas coleções de História Greco-Romanna, e Shakespeare, e Dante? Espere um pouco, este livro de Oscar Wilde está em francês? Como pode ser isso?” Perguntem à diretora do antigo Colégio São Geraldo de Guaçuí, talvez ela tenha achado melhor colocá-los ao abrigo do jovem Lázaro à mantê-los na gaveta de sua cômoda.

O colégio mantinha algumas exigências que não eram benquistas por ele. Uma delas era a obrigatoriedade de ir à missa aos domingos, para apresentar o cartão de presença na entrada da aula de segunda-feira. Mas não foi difícil contornar a situação. Ele logo encontrou um caminho pela rua de trás, a rua do pontilhão, e para um menino magricela não foi nada difícil pular o muro pela parte de trás do colégio. Lázaro era versátil, tinha um jeitinho pra tudo.

Mas naquela manhã de junho o menino Lázaro chorou. Não pelo dor da bofetada em seu rosto, mas por terem ferido o seu mais precioso amigo: O VERDADEIRO CONHECIMENTO.

Após a aula de religião na antiga Capela de São Geraldo, quando todos os seus colegas já haviam se retirado para a sala de aula, o vigário o chamou dizendo: “Você é Lázaro, o menino que não vai à missa aos domingos e ainda pula o muro da escola. Tem os cabelos compridos e não respeita as exigências do colégio. E ainda dizem que você lê Schopenhauer. Quero então lhe fazer uma pergunta. Diz pra mim alguma coisa que Deus não seja capaz de fazer. Você que é tão inteligente e burro, pode me responder isso?”

O menino Lázaro então lhe respondeu:

DEUS NÃO PODE SENTAR-SE COMIGO PARA UM JOGO DE BARALHO E COM UMA DAMA DE PAUS VENCER O MEU ÁS DE TRUNFO.

O Verdadeiro Conhecimento acabara de receber uma bofetada no rosto.

Saiu dali muito triste, nem para aula ele foi. E chorou, sentado na praça da Matriz.

Certa manhã um reboliço tomou conta do colégio. Onde está o quadro de São Geraldo? Quem o trocou por um quadro de cachaça Tatuzinho? Nenhuma pista, ninguém viu absolutamente nada. Ninguém sabe de nada. Quem fez isso, realmente fez bem feito.

Mas o velho padre, além de Deus, adorava também bananas. E tinha um cacho madurando no pátio do colégio. Ninguém sabe dizer como foi que o cacho de bananas sumiu. Simplesmente desapareceu. Porquê será que o menino Lázaro trouxe bananas na merenda? Chamem a mãe dele. E lá vai de novo minha mãe para o colégio.

FOI VOCÊ, MEU FILHO? CLARO QUE NÃO, MÃE.

Lázaro não mentiu. Um ‘eu’ em Lázaro, talvez Pedro, João ou Jorge, tenha feito aquilo. Lázaro é uma legião de ‘eus’, como pode ser Lázaro?

Eu e meus amigos fiéis comemos bananas até não querer mais, mas não nos esquecemos do velho padre. Reservamos para ele uma penca e, podem acreditar, reservamos a penca mais bonita.

NA MISSA DE DOMINGO, NO OFERTÓRIO, O MENINO LÁZARO LEVOU A PENCA E DEPOSITOU NO ALTAR.

A ATITUDE CORAJOSA E REAL FOI MINHA OFERTA A DEUS, MAS A PENCA ERA DO VELHO PADRE. EU NEM SABIA SE DEUS GOSTAVA OU NÃO DE BANANAS.

Quando naquela capela lhe respondi que ‘Deus não poderia com uma simples dama vencer o meu às de trunfo’, quis lhe dizer que:

Deus é a inteligência emocional do universo e ainda o mais alto grau a que se pode elevar o Centro Intelectual, ou seja, Deus é o Centro Intelectual Superior do Universo. Um Centro que não pensa, mas vê os pensamentos além da forma, pois é a própria forma que os formou. Esse magnífico Ser está além de qualquer possibilidade de entendimento. A sua Verdade é Absoluta e Santa. Deus é leal e honesto, pois a integridade habita o seu Ser. Jamais um ser de tamanha envergadura, ao sentar-se humildemente ao meu lado para uma partida de baralho, usaria de falcatruas para vencer, portanto,

ELE JAMAIS VENCERIA O JOGO SE TIVESSE ÀS MÃOS APENAS UMA DAMA, ENQUANTO EU UM ÁS DE TRUNFO.

O Supremo Rei, o Absoluto de Todo o Universo, quando o criou utilizou leis, que são imutáveis por todo o sempre. Existe uma disciplina muito rígida na cadeia de todo o universo, como existe também em cada átomo ou no mundo subatômico. Nenhuma folha cai se não estiver de acordo com as leis e respeitar a elas. Além disso, por detrás de cada atitude do Alto existe humildade e gratidão, somente o homem é desleal e ingrato. É o único que mata pelo simples prazer de matar. Portanto,

PARA ME VENCER NUM JOGO DE CARTAS, TENDO ÀS MÃOS UMA DAMA E EU UM ÁS DE TRUNFO, DEUS TERIA QUE SER DESLEAL E MENTIROSO, E ISSO ELE NÃO É.

Muitos anos se passaram, muitas lutas, vitória, erros e fracassos se misturam ao logo do tempo, mas o meu coração nunca deixou de ser um Buscador da Verdade. Na década de noventa tive a felicidade de manter contato com um grupo que se intitulava ‘Os buscadores da verdade’ e através dos seus escritos descobri a obra de Gurdjieff, e foi ele quem me deu a resposta mais convincente para aquilo que aconteceu na antiga capela.

NÓS ESTAMOS DORMINDO, PORTANTO, NÃO PODEMOS FAZER ABSOLUTAMENTE NADA. EM NOSSA VIDA TUDO SIMPLESMENTE ACONTECE, E ACONTECE EXATAMENTE DA FORMA COMO TERIA DE ACONTECER.

O Lobo e o Cordeiro é uma resposta ao mundo imaginário, pois cada dia estamos mais submetidos à automatização. O homem está perdendo contato com o significado e o verdadeiro propósito de viver. Estamos respondendo como espécie e não mais como mentes individualizadas. Se não revertermos esse processo no agora, o futuro das formigas e abelhas estará esperando por nós. Isto é, se houver algum futuro a nos esperar.

ESTAMOS NOS ALISTANDO NUM EXÉRCITO DE AUTÔMATOS REATIVOS, SEM NENHUMA POSSIBILIDADE REAL DE AÇÃO.

INFELIZMENTE A ALMA DO HOMEM ESTÁ CATIVA, MAS ELE NÃO VÊ.

Como diria Dom Juan Matos, o Nagual:

QUE FELICIDADE A SUA EM TER CRUZADO COM AQUELE PADRE NO SEU CAMINHO. VOCÊ TEM UMA DÍVIDA DE GRATIDÃO PARA COM ELE. UM TIRANO DESSE PORTE É O MAIOR BEM QUE PODEMOS ENCONTRAR.

…mas Lázaro continua lendo Schopenhauer.

Nossa página ‘Instinto do amor’ (art. 093) foi redigida tendo por base as suas reflexões.

Que assim seja!