Lázaro de Carvalho

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017 – O belo e o feio

In Artigos on 28 de fevereiro de 2011 at 15:15

O Lobo e o Cordeiro são entidades presentes, tanto na composição, quanto na expressão dos pensamentos, sensações, emoções e sentimentos. Mas o que são sentimentos? Para onde viajam nossos sentimentos? A que fim servem? Sentimentos regem o sublime, o amor. Sentimentos são pró-ativos e autogerados. Depois de um certo tempo de convívio com os ensinamentos de uma ESCOLA, torna-se possível surpreender as emoções quando do seu início e inibir aquelas que não são confiáveis. Lembramos que uma vez iniciada, a emoção tende a seguir o  fluxo sem interrupção. Quando observadas em sua origem e inibidas, as emoções cedem lugar a um sentimento de conciliação interior, somente possível através da Observação de Si Mesmo. Diria que o sentimento é uma emoção decodificada e domesticada em seu estímulo inicial. Um sentimento é regido por três Centros, enquanto a emoção pode ter origem apenas na parte inferior do Centro Instintivo.

Emoções de liberdade, coragem frente ao inusitado, frieza de espírito diante das impossibilidades e do mal são ativas no Lobo. Já os sentimentos de amor, altruísmo, bondade e mansidão brotam do coração dócil do Cordeiro. Na verdade nós somos o rio celebrando um fluxo contínuo e irreversível. Às vezes oscilantes entre as margens, gerando ondas providenciais numa vã tentativa de fugir ao desconhecido. Lembre-se que essas ondas em vez de gerar destruição são adubos às margens aparentemente conflitantes. No mar revolto da alma humana dois navegantes fazem valer a destreza e a força de seus remos. Um nos impulsiona  com coragem e bravura, enquanto o outro nos acena o infinito. Tanto o vento quanto o atrito das águas são geradores de forças, possibilitando o navegar. Não se esqueça daquele sábio Sufi e da mensagem gravada no anel: ‘Isso também passará’.

As emoções são a manifestação física dos sentimentos, em verdade, emoções são fenômenos coletivos. Quando manifestamos apenas o Lobo através das emoções, somos levados a navegar num mar imenso de ódio, rancor, dúvidas, paixões e outras como distorções do amor, e também a sua ausência. Ao se deixar levar por uma emoção, seja ela qual for, lembre-se de que acaba de mergulhar num imenso oceano. Uma emoção nunca caminha só. São poderosas e com um sistema de cobrança ativo e eficaz. Por isso a emoção é um fenômeno coletivo, nunca individual. E responde com a necessidade de reposição em volume e intensidade igual ao que lhe deu origem. Já os sentimentos fluem livre das amarras, além do desafeto mundo da razão. A ESCOLA é incansável na tentativa de chamar atenção para a não identificação. A identificação responde pela Consideração Interna, sempre sujeita à emoções, enquanto sentimentos são gerados quando nos abrimos à Consideração Externa. Sentimentos são canais de acesso ao outro, sem nenhum ativo expresso de cobrança pessoal.

Quando projetamos um sentimento de beleza  sobre alguma coisa ela se torna bela, então, nos identificamos com o belo. Essa identificação aprisiona sentimentos, transformando-os em emoções passageiras e ocasionais, consumindo energia e reduzindo de forma considerável a capacidade de recebermos impressões. Da mesma forma, quando atribuímos a alguma coisa as qualidades do feio, o que era belo torna-se feio. Somos nós que projetamos emoções, então, o Cordeiro que era o sentimento mais belo passa a responder pelas emoções do Lobo. O sentimento mais belo tornou-se feroz e agressivo, mas o veículo da transformação foi a emoção imaginária do homem. Impressões são alimentos. Emoções respondem por Dó 48, enquanto os sentimentos são Ré 24 e até Mi 12 na Oitava das Impressões. É necessário não esquecer que o veículo condutor de sentimentos e emoções é o próprio homem, mas abrir-se ao belo exige não identificar-se. Ir além só e possível quando rompemos limites consensuais de uma tradição falida. Quando uma emoção vence as amarras da personificação e o limites arbitrários do casuísmo, torna-se sentimento e pode cristalizar-se na alma do homem. Um sentimento não é algo comum e passageiro, nem está a serviço das ilusões. Estamos confundindo amor com estados emocionais de submissão e carência. Isso não é nada bom, pois acena com consequências inevitáveis.

Quanto maior o número de pessoas que vêem algo de uma certa maneira, mais essa coisa se conformará ao modo como é vista. Entenda, não é o fato em si que lhe prende, é você que se identifica com ele, e essa identificação quando ganha contornos coletivos, ou seja, quando o número de pessoas envolvidas por ela é especificamente grande, acaba por tornar-se unanimidade, transformando-se  numa crença. E com o tempo toda crença torna-se verdade absoluta, mas é apenas perpetuada pela nossa maneira de pensar e sentir. Estamos diante de ‘uma nova maneira de pensar’, que exige reflexão e um propósito inflexível. Aprendemos a conviver com verdades absolutas, frases feitas, expressão de uma palavra, sobre a qual não devemos mudar uma vírgula sequer. Mas somos convidados a refletir. Precisamos abandonar esse estado sonolento, uma quase preguiça espiritual e olhar além do véu. Lembre-se que a compreensão é a Terceira Força entre o conhecimento e o ser. Sem um conhecimento autêntico e um ser correspondente a ele o homem nada compreenderá daquilo que vê. Ou melhor, compreenderá de foram disforme e inconsequente, levando a uma prática desfigurada em suas ações.

É muito importante desembaraçar-se das influências concentradas nos próprios hábitos. Estamos criando e mantendo tendências emocionais, inseridos em movimentos de massa, permitindo assim, um tremendo impacto sobre nós. Desejos, impulsos, anseios e aspirações não expressos estão sufocando o Lobo e o Cordeiro que foram confiados à nossa guarda. Precisamos de emoções para viver. É muito triste um mundo pessoal alheio às emoções, apenas pedimos que observe a si mesmo e diga: “Isto também passará”. Não identificar é se colocar à margem e observar que há uma distância real entre você e as emoções. Então, verá como atuam em comum acordo sobre todos os envolvidos, não permitindo nenhuma margem de evasão. Emoções são a expressão natural dos desejos satisfeitos, enquanto sentimentos é o reencontro com a vontade. Portanto, sentimentos são auto gerados, enquanto as emoções personificam estados externos de materialização dos desejos.

Qualificamos e julgamos a tudo e a todos com os quais nos identificamos, mas o Cordeiro não julga nada, nem ninguém. E o Lobo também não qualifica, nem julga. Então, quem julga? Esse julgamento é sempre precedido pela identificação, pois somente quando identificados somos capazes de qualificar e julgar. É esse estado interior que julga por meio de nós. Não somos nós. Há dois entes potenciais fazendo morada no coração hospedeiro do homem: identificação e imaginação. Faz-se necessário observá-los. A imaginação cria o campo necessário à identificação e seus propósitos. Observe e verá que todo o complexo cultural da atualidade age assim. Primeiro cria-se um desconforto artificial no homem, para logo em seguida lhe dar o analgésico mais viável economicamente às suas premissas. Um templo religioso bem sucedido é sinônimo de muitos fiéis, e um cofre abastado em nome de Deus. Não deveria ser assim, mas é.

“O essencial é invisível aos olhos”. A beleza está na simplicidade e candura dos olhos que a contemplam além da retina, mas próximo do coração. Um pântano enevoado de agruras e distorcido pela escuridão torna-se belo, quando o interior do homem o reflete como um manancial de flores e frutos. Se formos amantes do belo e embevecidos de poesia e luz, o Lobo tornar-se-á o mais belo Cordeiro dentro de nós. Mas para isso precisamos romper os elos da identificação e os seus propósitos ulteriores. Beleza é sentimento, reflexo interior de um mar de ondas que dançam ao vento. Mergulhar em suas águas é o rencontro com o mar gerador da vida, rencontro com o belo, com a delicado toque de mãos suaves. Você é belo. Infinitamente belo. Se o espelho do seu coração refletir algo em contrário, tenha coragem suficiente para estilhaçá-lo e continuar caminhando. Sempre em frente.

Que  assim  seja!

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016 – O bambu oco

In Artigos on 27 de fevereiro de 2011 at 12:06

Aquele que é escravo das paixões e preconceitos não pode ser um homem de conhecimento. A religião, por exemplo, exerce fascínio e pode facilmente transformar-se em paixão. A partir de uma visão parcial dos textos sagrados, desenvolvemos preconceitos e somos por eles envolvidos. Se procedemos assim, não há acesso ao Verdadeiro Conhecimento, acessível somente àquele que se elevou por vontade própria e por suas obras. A vida é um incessante fluir e todo obstáculo deve ser credenciado como possibilidade de superação, mas quando cercado por atitudes preconceituosas torna-se uma metralhadora giratória, julgando tudo e todos segundo seus resumidos critérios pessoais. O bambu oco é um caminho legitimado pelo ‘em cima e embaixo’, não há outra possibilidade, quando o fogo do destemor é atiçado.

O HOMEM QUE AMA SUAS IDÉIAS E TEM MEDO DE PERDÊ-LAS É O MESMO QUE TEME AS VERDADES E NUNCA ESTÁ DISPOSTO A DUVIDAR.

Se ainda estamos presos às circunstâncias e identificados com tudo ao redor; se a vontade é incerta e vacilante, então, as verdades aqui reveladas são como as sementes que um semeador saiu a semear: algumas caíram entre os espinhos e outras foram devoradas pelos pássaros. A identificação é um obstáculo a ser vencido no caminho do conhecimento objetivo. Quando identificados perdemos contato com o que é verdadeiro em nós. Uma pessoa identificada não observa a si mesma e se o faz é em proveito próprio. Ser como um bambu oco é não se identificar, sendo apenas um duto de escoamento a tudo e a todos a nossa volta. Não importa se algo é bom ou ruim, se respira virtude ou pecado. O que realmente faz a diferença é o não-julgamento. Aceitar o outro como igual implica uma atitude objetiva em relação a ele. Tem o significado de aceitar a si mesmo como ente limitado e sujeito às mesmas reações.

O HOMEM TORNA-SE REI SOMENTE QUANDO DOMINA OS SEUS IMPULSOS, DE OUTRO MODO SERIA SEU ESCRAVO.

O Lobo representa as paixões, a força instintiva da natureza. O  interior do homem é um campo de batalha entre a Força Ativa e a sua oponente valorosa, a Força Passiva. Nós somos o Lobo e o Cordeiro. Entenda que esta aparente contenda jamais terá fim, sendo o conflito de opostos uma necessidade à própria sobrevivência, tanto física, quanto espiritual. Dominar impulsos é alimentar o Lobo de forma discreta e inteligente, do mesmo modo que não ceder à submissão e adoração é alimentar o Cordeiro de modo real e objetivo. Quando o homem observa a si mesmo é capaz de ver as nuances sutis de cada um e colocar-se equidistante das margens. Observe que as laterais do bambu são equidistantes do centro, permitindo um fluir contínuo e equilibrado. Somos um duto de escoamento de energias entre o Céu e a Terra, e também um eficiente polo de atração para as energias dos mundos inferiores. O homem jamais alcançará o Chakra do Coração se o  Chakra Raiz não cumprir de modo eficiente o seu papel.

CEDER ÀS FORÇAS DA NATUREZA É SEGUIR A CORRENTE DA VIDA COLETIVA, SENDO ESCRAVO DE SI MESMO.

Resistir ao domínio dos impulsos da própria natureza, com paciência e sabedoria é dominar a alma lupina e libertar-se das vicissitudes da vida e da morte. Não é uma condenação precoce, mas uma convivência harmoniosa dentro de certos limites. Entenda que esses impulsos não são um ato isolado do Lobo, mas sim um artifício dos hábitos alimentados durantes muitos séculos pela tradição. Toda a mídia atual incentiva o consumo, para depois a religião dizer que isso é coisa do Diabo. Consumo dos mais diversos fatores significa gastos. Quando agimos de forma abusiva, gastando além de nossas posses geramos escassez para nós e os outros. Aí mais uma vez a religião se apresenta como fonte alternativa de solução econômica e nos acena com a restituição. Às vezes, me pergunto até quando vamos alimentar esse círculo vicioso em nome de Deus.

COVARDE É AQUELE QUE NEGLIGENCIA CUIDADOS AO LOBO, PARA OBEDECER CEGAMENTE AOS INSTINTOS DE SUA NATUREZA ANIMAL.

Não existe nenhum ponto que não seja o centro de um círculo, cuja circunferência contenha todos os pontos eqüidistantes do centro. Limitar nossos pensamentos às normas convencionais é tentar aprisionar o Lobo dentro de um bambu oco. Ele terá somente duas alternativas: ou sairá por cima ou por baixo. Por isso, Buda nos diz nos seus ensinamentos para sermos como um bambu oco, apenas um canal para a manifestação do espírito. Vejo a sabedoria como um imenso canal de irrigação, que insistimos em tornar posse legitimada e pessoal. Criamos pequenos desvios aqui e ali, assim enfraquecendo o seu impulso inicial. Todo preconceito é uma barragem. Todo ismo é um círculo fechado às ideias não convergentes com o seu raio de ação. Compreenda que todo limitador da verdade é um artifício do homem em causa própria. A segurança pessoal e coletiva passou a depender disso.

O invisível rege o visível. O inaudível rege o audível e o intangível rege o tangível. Aquilo que não vemos é em número infinitamente maior ao mundo captado pelos sentidos. Os movimentos do Lobo e o Cordeiro são sutis, quase uma impossibilidade à percepção humana. Observar a Si Mesmo tem por finalidade desenvolver um sexto sentido, uma capacidade de ver além. Uma lembrança, algo esquecido que há muito foi o norte do homem em suas verdadeiras conquistas. De certa feita, conheci uma igrejinha que me causou espanto e admiração. Ao entrar procurei pelo altar, mas em seu lugar encontrei uma portinha exatamente igual a que entrei. Então, perguntei ao Padre pelo altar: “Fica do lado de fora, meu filho!”. Essa foi a sua resposta.  Aquela igrejinha era um bambu oco.

Jung nos diz que o inconsciente é o pai do homem. O Lobo e o Cordeiro são forças que, quando canalizadas de forma correta, inundam todos os Chakras, transmutando energias de tal forma a nos tornarmos cada dia mais conscientes. O bambu por analogia é o nosso corpo físico, limitado por vários gomos ou nós. O fluir diz respeito às coisas do Alto, à espiritualidade, ao Ser. Observar torna possível ver que o universo é um fluxo contínuo que se move a uma velocidade inacreditável, mesmo assim temos a impressão que estamos estacionados em algum ponto fixo. Sem um ponto de referência é impossível localizar a si mesmo e avaliar movimentos. Tanto o Lobo, quanto o Cordeiro são referenciais. São extremos da psique. Entre eles há um fluir incessante e eterno. Quando alimentamos a um em detrimento do outro geramos desequilíbrio entre o racional e o abstrato, e nos perdemos a nós mesmos.

FELIZ DAQUELE QUE DESPERTOU E BEM-AVENTURADOS AQUELES QUE ESTÃO A CAMINHO!

Que assim seja!

015 – O Lobo, o casulo e a palavra.

In Artigos on 25 de fevereiro de 2011 at 15:53

A palavra é a última e mais importante aquisição do homem, para o seu enriquecimento no caminho da Consciência de Si Mesmo. Há palavras que matam ao se tornarem letras mortas, e a força que as revigora e vivifica emana do próprio coração que as produz. Palavras são emanações codificadas, que permanecem vivas por milênios à espera de um espectro favorável à sua decodificação. A unica maneira de torná-las inofensivas e não reativas é por meio de atitudes descompromissadas com a intenção inicial. Por exemplo, palavras odiosas tendem a retornar a si mesmas, quando em contato com um campo minado pelo amor. Por isso a ESCOLA dá tamanha importância à não-identificação. É muito fácil nos identificarmos com as palavras, principalmente quando estamos carentes. É claro que existem inúmeras condições de carência e todas elas são um campo aberto à proliferação de palavras. Ser desprendido e natural é uma arma mortal para o artifício das palavras descompromissadas com a verdade. Também o silêncio interior nos acena para a necessidade de redução de sua força mecânica e evasiva. Ser consciente em relação ao seu raio de ação é um filtro que possibilita reconhecer o conteúdo e fazer uma avaliação natural de sua intenção e alcance.

A palavra é a Terceira Força: a Força Neutralizante de uma Tríade Alquímica formada pelo Pensamento, Sentimento e Palavra Falada. É a materialização dos pensamentos e sentimentos. Toda e qualquer palavra pode se materializar ou não, dependendo da receptividade do ser de cada um de nós. É muito comum nos dias de hoje fazer uso nos cultos de um ‘jogo de palavras’ para dar significado maior a alguma ideia. É quando unimos um versículo de Jeremias à Isaías, e comprovamos com um versículo isolado de uma epístola de Paulo. Isso cria um campo fértil para a hipnose e sugestão das massas, não deixando nenhuma margem de dúvida e reflexão àquele a qual se dirige. Essa nova palavra envolve pensamentos passivos e sentimentos, tornando-se a Força Neutralizante de uma nova Tríade, completamente desfigurada em relação ao seu conteúdo original. Lembre-se que a palavra é a Terceira Força, sendo assim a Força Ativa da próxima Tríade. É a palavra que move o mundo e a mídia sabe muito bem disso. Mas lembre-se que imagens são palavras, que quando decodificadas são tao objetivas e mortais quanto qualquer palavra falada. A igreja sabe disso e também sabe usá-las com a precisão de uma flecha letal.

Vamos agora falar do casulo do homem que vê e sente do mesmo modo que o corpo físico. Tem sensibilidade ao tato, percebe com o sentido gustativo e recebe aromas e odores, pela mesma percepção que o olfato. Está dividido em consciência do lado direito e consciência do lado esquerdo, ou seja, duas linhas paralelas, que separam dois universos perceptivos com qualidades extremamente diferenciadas. A palavra é inicialmente recebida pelo lado direito do homem, pelo seu aspecto racional, e aí decodificada segundo o seu sistema cognitivo. Mas antes de chegar ao sistema auditivo passa pelo casulo do homem, reagindo segundo o ser de cada um. Os profetas de hoje sabem que quanto maior a intensidade emocional contida em cada palavra, mais fácil é enganar o sistema defensivo deste casulo natural. Sabem também que um bom jogo de luzes e sons é fundamental na ornamentação de todo esse aparato ilusório. Quando emotivos o casulo se retrai em si mesmo, abrindo buracos que permitem a desintegração de sua estrutura organizacional. É como se os Leucócitos se perdessem em si mesmos na batalha contra um vírus ou bactéria. Todo aquele que pratica seriamente a meditação pode sentir em si mesmo a presença do casulo, quando em contato com o Silêncio Interior. É revigorante e natural. É nutritivo, pois é por meio dele que a energia cósmica alcança o corpo físico e flui naturalmente pelos Chakras.

O lado esquerdo do homem está adormecido. Por isso, vivemos num estado letárgico, hipnótico.  O lado direito do homem é por si mesmo responsável pela sobrevivência física e responde por todo o sentido racional de suas ações. A satisfação das necessidades e acúmulo de poder, riquezas e bem-estar não precisa necessariamente do lado esquerdo. Quando somos incentivados ao consumo através de propagandas massificadoras; quando convidados à obsessão e ao poder; quando nos fazem sentir inseguros e insatisfeitos; quando o medo e a insegurança são projetados em nosso espírito, estamos em verdade alimentando o lado direito em detrimento do lado esquerdo do homem. O lado esquerdo do homem é comandado pelo lado direito do cérebro e este está atrofiando a cada dia. Isso significa que estamos nos tornando seres robotizados e não conseguimos visualizar, muito menos compreender o que está se passando. A isso a ESCOLA dá o nome de procissão da miséria humana, ou seja, entidades mecânicas se locomovendo num mundo de imaginação. Basta um estalar de dedos do poder para que a aparente calmaria se transforme numa praça de guerra da noite para o dia. Estamos perdendo todo e qualquer poder de reflexão independente. Observe a Si Mesmo e permaneça atento.

O Lobo habita o lado direito do casulo do homem e o Cordeiro habita o lado esquerdo deste mesmo casulo. Integrá-los é o que Jung denomina individuação. É essencial que que se compreenda aqui que integração não é sinônimo de tornar-se igual. Há uma integração de valores, mas a individualidade é sempre preservada. O Lobo e o Cordeiro jamais se tocam em todo o Tratado, mas estão tão próximos que, se não dermos a devida atenção podemos confundi-los um ao outro. A individuação é um processo que pode levar uma vida inteira de trabalho e sacrifícios. E não é uma garantia o fato de que conseguiremos alcançá-la, mas vale a pena lutar por ela. Um ser completo, não compartimentalizado, é um receptáculo real à luz. O Nagual chama a isso de perder a forma humana, reencontrar a si mesmo. Gurdjieff  lhe dá o nome de Consciência de Si Mesmo, enquanto Osho o chama de estado natural do ser. Mas sem o despertar da consciência, ou lado esquerdo do homem, estamos falando de uma impossibilidade. O contato com o abstrato exige de nós um refinamento especial, uma sensibilidade natural ao ser. Não é um território habitado pela lógica racional. Velejar a nau do desconhecido num mar absorto em indagações não é tão simples como insinua ser.

O Lobo é capaz de detectar com extraordinária percepção os movimentos sísmicos, as tormentas e todas as formas de expansão das forças da natureza. O Cordeiro é símbolo da harmonia e integração. O Cordeiro é a voz do rio, que acalanta e fertiliza as margens. É regato, flores e frutos. Suporta todas as incertezas e dores, sem um gemido sequer. O seu olhar reflete as águas doces do rio. É mansidão e ternura. O Lobo é força, instinto e poder. Simboliza fertilidade, justiça, lealdade e gratidão. É senhor da caça, enquanto o Cordeiro aponta para o uso racional da caça, o seu aspecto social e humano. Ambos são forças que convidam ao Caminho do Meio, à reflexão e à vida, cada um à sua maneira. Não existe casulo pela metade, da mesma forma que a palavra não admite interpretação isenta de significado. A natureza é una com o todo e o todo indivisível em sua origem, mas pleno em diversificação.

PRECISAMOS  DIVINIZAR O LOBO E MATERIALIZAR O CORDEIRO, SE QUEREMOS COMPREENDER E HARMONIZAR INSTINTOS.

Quando nutrimos de forma correta o Lobo e o Cordeiro, fortalecemos o espírito e nos sentimos saciados e tranquilos. Então, podemos ouvir o uivar do Lobo como a verdadeira Palavra de Deus, brotando das profundezas da alma. É um uivo de gratidão; um ecoar da justiça; um voo da liberdade, em respeito ao habitat  e à prole do outro. Assim, aprendemos a perdoar e reconhecer no outro o habitat do Lobo, que em verdade é cada um de nós, presos que estamos às amarras do inconsciente. Libertar o Lobo Cativo é aspirar à própria liberdade, de forma incondicional e contínua. Cativeiro da alma não é condenação por pecados imaginários, mas falta de coragem para ver a si mesmo no reflexo do outro, e ainda assim prosseguir.

O Olhar do Lobo mantém uma relação direta com o verdadeiro valor das palavras. É  parte do nosso ser que não mente. Deus é uma força espiritual, mas também física. Precisamos dedicar atenção ao Lobo se a queremos recebê-la de Deus. A alma do Cordeiro habita o Lobo, mas o sangue do Lobo vivifica o Cordeiro. É o sangue pecador do homem que irriga a Terra com o bem e o mal. Somos uma raça errante por milênios, mas o maior de todos os erros da história da humanidade foi acreditar que possuirá o céu matando o inferno. O céu é o inferno repleto de bolinhas azuis e vermelhas, quando passamos a ver a nós mesmos com outros olhos.

O Lobo tem a luz e o calor do sol como energia vital, impregna o ar com hálito quente e rega com saliva a terra, usando-a para materializar o seu próprio ser. Faz fecundo o seu olhar, floresce o que semeia. Seu cheiro é doce alento que emana do instinto. O Lobo, como a terra, está sempre em erupção. A sua natureza é vulcânica, portanto, os fenômenos de convulsão lhe são inerentes. Nos somos assim. Entes repletos de amor e paixão, ternura e cruz. Querer se fazer diferente é habitar o imaginário do convencimento inútil. Um belo jardim é a soma de diversos fatores. O caminhar se faz de passos, muitos dos quais indecisos e vacilantes. Mesmo assim acreditamos chegar, almejamos e lutamos por isso. Não somos eternos. Somos princípio, meio e fim de um agora que nunca terá fim.

O Lobo não suplica com a oração, nem convida com a invocação. Prefere a estepe aos templos. Prefere a escuridão da noite à clareza de espírito dos justos. Prefere uma loba no cio à expressão sarcástica dos adoradores. É um ente real, um enigma e uma expressão crucial da verdade. O Cordeiro também é coragem. A coragem que precisamos para encarar o Lobo como a um igual; para não julgar o outro e seu habitat; para romper fronteiras imaginárias e reencontrar o eu que perdemos ao longo da vida. Lázaro, o Lobo e o Cordeiro são apenas UM.

Que assim seja!

014 – A civilização e a barbárie

In Artigos on 24 de fevereiro de 2011 at 18:56

Cada grande cultura da humanidade consiste de uma série completa de culturas diferenciadas pertencentes a raças e povos separados. A divisão entre períodos de cultura e períodos de barbárie não deve ser entendida literalmente, pois a cultura pode ser completamente perdida em um continente e ser preservada em outro.

Também vale a pena lembrar que, nem todos os valores que a sociedade obteve em períodos ricos culturalmente se perdem completamente em épocas de barbárie. A substância do verdadeiro ensinamento é preservada em núcleos, que nós chamamos ESCOLA. O Lobo e o Cordeiro são fragmentos de um ensinamento desconhecido que foram preservados.

Dentro de uma cultura são desenvolvidos dois princípios completamente antagônicos: A Civilização e a Barbárie, que evoluem simultaneamente. Junto à civilização cresce também a barbárie, e esta carrega consigo os elementos da violência e destruição. Estruturas radicais de pensamento são desenvolvidas e evoluem em paralelo à civilização, servindo assim de modelo à concepção de uma sociedade humana e igualitária. Sua fachada é apenas o rótulo de algo sutil que se desenvolve nos bastidores da ignorância, subsidiada pelo progresso e consolidação das massas. Dentro da visão casuística do que chamamos civilização, democracia pode ser definida como: um estado de direito igualitário quando dois lobos e um cordeiro sentam-se à mesa para decidir ‘democraticamente’ o que será servido no jantar.

Evoluímos os artifícios usados para manter cativos enormes contingentes humanos. A hipnose e sugestão (art. 028) das massas, por exemplo, cria estados subliminares na psique condicionando-as a comportamentos pré-determinados. Assim se dá com grande parte do aparato religioso atual, onde milhões de dólares são jogados em programas exaustivos para a propagação da fé cristã, visando a manutenção do que eles denominam ‘rebanhos do senhor’. Outra grande parcela invade nossos lares em forma de propagandas, sempre alimentando uma mente consumista, sem nenhuma apreciação dos recursos naturais do planeta.

SOMENTE UMA SOCIEDADE DE BÁRBAROS PODE INCENTIVAR O PODERIO ECONÔMICO, EM DETRIMENTO DOS VALORES MORAIS, ÉTICOS, SOCIAIS E NATURAIS.

A causa principal da evolução da barbárie está no próprio homem. Por isso, durante milhares de anos a religião do ocidente vem incentivando a dicotomia, dividindo a mente humana entre o pecado e a virtude; entre o bem e o mal, criando assim o Lobo e o Cordeiro para justificar o estado de barbárie e civilização, inerentes ao próprio homem. Com a evolução do processo histórico o Lobo passou a ser a justificativa para a execução de ações bárbaras em nome das crenças, tais como as Cruzadas e a Santa Inquisição, quando na verdade o pano de fundo sempre foi o ego, o poder, a insanidade de mentes casuísticas e a interpretação errônea dos valores reais do Cordeiro. Alguns dizem que a religião é o maior mal da humanidade, eu diria que é um bem, pois permite a auto-avaliação e a retomada de consciência.

A cultura sempre buscou estabelecer fronteiras (art. 022) entre ela e a barbárie, por isso o homem se auto dividiu entre Deus e o Diabo, sem nunca procurar saber o significado real de nenhum deles. Associou-se ideias de crime à barbárie, ao Lobo, e a ideia de conduta irrevogável ao Cordeiro. Mas na evolução dos fatos será que existe crime mais hediondo na Terra que aquele que visa a manutenção de credos e crenças em nome de uma vã filosofia religiosa? Uma mentira levada ao altar das ideias profanas? Quem matou mais ao longo da história o estado como estado ou a religião a serviço do estado? A serviço de quem estão os credos? Da civilização ou da barbárie?

Dentro da evolução sistemática de uma cultura é inevitável o seu processo de degradação, sempre foi assim em todos os períodos que nos antecederam. O governo teocrático se transforma em despotismo. As castas, principalmente as religiosas passam a ser hereditárias, ou pelo poder econômico ou pela persuasão das ideias. A religião, ao assumir a forma de “igreja”, torna-se um instrumento nas mãos do despotismo, ou dessas mesmas castas hereditárias. A ciência a serviço do “avanço tecnológico”, favorece os propósitos de destruição e extermínio. A arte, a inteligência e a razão se convertem em material abusivo para manter as massas ao nível da imbecilidade.

ISTO É O QUE NÓS CONSAGRAMOS HOJE COMO CIVILIZAÇÃO MODERNA, TECNOLÓGICA E AUTO-SUSTENTÁVEL.

O selvagem matava o inimigo com uma clava, o homem culto tem à sua disposição toda a sorte de recursos. Esses recursos são a forma evoluída da clava. A diferença consiste apenas no alcance do seu poder de destruição. Uma parte essencial da nossa cultura consiste na escravidão e todas as formas de violência em nome do estado, da religião, das idéias, da moral e dos costumes. A vida interior da sociedade moderna que, por meio da cultura e dos hábitos condiciona e direciona os interesses, está repleta de traços de barbárie. A paixão pelo futebol, jogos de azar, o pânico e a desconfiança são facetas enrustidas na barbárie. E hoje temos veículos de comunicação em massa como os jornais, a televisão, a  internet e vários outros que estão sendo vergonhosamente utilizados para esse fim. Redes de pedofilia estão se espalhando pelo planeta e o mercado pornográfico já rende de dez a quatorze bilhões de dólares por ano.

A cultura da barbárie cresce ao lado da cultura da civilização, mas chega inevitavelmente o momento em que a cultura da barbárie absorve a cultura da civilização e, a partir daí passa a chamar-se simplesmente: CIVILIZAÇÃO. Caracterizo de modo pessoal a barbárie como “A civilização adormecida”, onde os valores reais foram trocados por um mundo imaginário, e para mantê-lo estamos nos destruindo uns aos outros.

AQUILO QUE CHAMAMOS VITÓRIA SEMPRE TRÁS A REBOQUE A DERROCADA DO OUTRO. INSANA ESTA CIVILIZAÇÃO ONDE OS VALORES E A CONDUTA HUMANA, EXTRAPOLAM OS LIMITES DO RESPEITO, DO AMOR E DA PRÓPRIA SOBREVIVÊNCIA.

Chamamos civilização alguns princípios inatos no próprio homem, que são veículos sutis utilizados para a evolução e propagação da barbárie. É esta incontestável cultura da barbárie, chamada civilização, que está extraindo, utilizando e consumindo de forma desordenada e voraz os escassos recursos naturais do planeta, e colocando em risco a nossa sobrevivência como espécie.

e, infelizmente, não há como conter o que chamamos “avanços da civilização”.

Que assim seja!

013 – Autoestima

In Artigos on 24 de fevereiro de 2011 at 10:14

Quando estados de ânimo são pré-determinados pela autoestima, dizemos que estamos adormecidos. Conseqüentemente, agimos como entidades reativas e respondemos de forma sistemática, segundo as circunstâncias. Estamos, então, identificados com a autoestima. Todo estado coercivo a partir do exterior delimita a identificação e os seus domínios. Quando deparamos com uma vitrine e nos envolvemos emocionalmente, deixamos de ser nós mesmos e passamos a ser o conteúdo em destaque. Em verdade, estamos envoltos num mundo de emanações, por isso somos ligados a tudo e a todos à nossa volta, por fios invisíveis. O ponto alto do Tratado é romper determinados elos ou fios, e assim  possibilitar novas descobertas. Cada descoberta, quando em contato com o desconhecido traz um sentimento de plenitude interior, uma alegria que não pode ser traduzida em palavras. Se não fôssemos tão submissos às emoções passageiras, poderíamos vislumbrar horizontes nunca antes tocados.

É a autoestima o fator dominante da parte externa, a parte mais mecânica do Centro Emocional: a parte motora desse Centro. Entenda que autoestima é apenas uma emoção, nunca um sentimento. Nessas condições estamos subjugados ao seu poder, e só a ela cultuamos nosso bem-estar físico e psicológico. O primeiro passo para uma propaganda bem sucedida é incutir na mente que algo nos falta. É fazer-nos sentir inseguros e insatisfeitos. A partir daí ofertam as mais variadas possibilidades de satisfação interior, desde jóias trabalhadas, roupas, perfumes, adornos diversos e até drogas. Compreenda que uma pessoa plena de si mesma não necessita de alimentos imaginários. O imaginário é insaciável. Quando a autoestima responde pelo imaginário a depressão pode se tornar uma visita inusitada à porta.

A ESCOLA nos convida à ‘uma nova maneira de pensar‘. Não tem como objetivo alimentar, nem desenvolver a autoestima, mas sim, restringir a sua área de ação, ou seja, dar a ela contornos mais próximos da realidade. Não apresentamos nenhum modelo que o faça sentir-se mais orgulhoso de si mesmo, nem tampouco mais vaidoso ou egocentrado. Vitória, poder, riquezas e glórias não excitam o coração do Lobo, nem do Cordeiro. Buscamos algo mais. Buscamos emoções verdadeiras. Alimentos para a imaginação já os temos em excesso. Quando não estamos submissos a sua influência, escutamos, sentimos, valorizamos e compreendemos mais e melhor. Ansiedade e depressão não podem ser tratadas, simplesmente alimentando a autoestima. Não conheço Lobo ansioso nem Cordeiro deprimido, ou vice-versa.

A velha maneira de pensar está sempre presente, reafirmando seu poder, demarcando o território. Ela não permite restrição aos seus domínios. Este é o verdadeiro significado da palavra tentação. Lembre-se de que tudo aquilo que é repetitivo e mecânico; o que não exige esforço, dedicação e perseverança não pertence à ESCOLA. Somente uma atitude é exigida de nós: que sacrifiquemos o nosso sofrimento inútil. Aqueles que vivem sob o jugo da autoestima, dependendo de circunstâncias favoráveis para serem felizes, com certeza, não apreciarão essas páginas. O conhecimento que aqui desvendamos provém de fontes superiores. Aqueles que já despertaram são os verdadeiros autores destas páginas. Um homem desprendido e natural é senhor de suas atitudes pelo simples fato de não referendá-las. Por não estar a serviço de nenhuma circunstância, também não é senhor de coisa alguma. Segue em comunhão com o agora. E isso basta.

A autoestima tece considerações apenas para consigo mesma. Não nos permite ver além. Volta-se contra nós quando a vaidade é ferida, ou não coadunamos com o seu objetivo. Está intimamente ligada à satisfação dos desejos pessoais, e sempre propensa ao ódio. É comum ouvirmos a frase: “Eu odeio fulano, porque fulano não tem nenhuma consideração por mim”. No seu íntimo, o amante da autoestima deseja sempre sair-se bem em todas as circunstâncias, e relega a um plano inferior tudo aquilo que não coadune com os seus objetivos ilusórios. Podemos alinhavar que a autoestima sempre está a serviço da Consideração Interna, enquanto evadir o poder de suas exigências abre espaço para a Consideração Externa. Ver-se realizado em função do outro alimenta outro lado de nosso ser. Podemos dizer que a autoestima justifica o corpo, enquanto a supressão de suas exigências alimenta a alma. 

O objetivo maior da autoestima é o mérito. Grande parte daquilo que denominamos amor, inclusive amor a Deus, faz parte da autoestima, não é real. Se amarmos  somente aqueles que nos adulam, estamos a serviço da autoestima. Basta que nos tratem com uma certa indiferença, para sentir os reflexos dos seus efeitos nocivos sobre ela. A autoestima é reativa. Todo investimento no mundo moderno é reativo. Toda apólice tem um fundo de proteção fictícia, uma preservação de estados anormais de segurança. Toda insegurança é um investimento real, pense nisso. Insanos são os sábios aos olhos do mundo civilizado, mas insistem em usar suas frases como rótulos de autoprojeção. Sentem-se realizados ao ler, mas fogem da prática como algo que queima e corrói. A autoestima de um Buda é desapego, uma não-autoestima. O silêncio interior expande, mas a autoestima odeia o silêncio. Ele é o revelador da verdade.

Não conheço pessoas mais adormecidas que aquelas dependentes da autoestima. É por esse motivo que a natureza, às vezes, quebra a continuidade, nos aplicando determinados choques. Não por ser desumana, mas por amor ao belo, ao real. O maior perigo da autoestima é o apego excessivo ao poder, quer seja doméstico, profissional, social ou político. Grandes nomes da história defendiam uma autoestima coletiva, por isso os livros estão repletos de relatos sobre guerras. Toda as guerrilhas e seu cunho de libertação; as ideologias e suas lógicas são serviçais da autoestima. Elas não se foram, apenas o jugo mudou de nome. Toda libertação é individual, lembre-se disso. Todo poder parte do indivíduo e só é real em si mesmo. Não existem nações poderosas, o que realmente existe são impérios em franca decadência. Assim caminha a humanidade.

Toda nossa história como civilização está sedimentada sobre os anais da autoestima. Quando o Verdadeiro Conhecimento propõe questionar o seu valor está correndo riscos de ser crucificado. E hoje existem formas sutis de crucificação. Os fariseus de ontem eram os amantes da autoestima, da mesma forma que nós o somos hoje. Como Santo bom é Santo morto, nós os fariseus de hoje lhes rendemos honras e glórias em nossos templos externos. É lamentável que as religiões atuais estejam a seu serviço. Quando adentramos o templo o primeiro ato é fazer com que nos sintamos bem e seguros. Para o pensamento religioso atual a cura do espírito está na preservação do corpo, sua escultura e bem-estar. Ter é sinônimo de bênçãos, enquanto a ausência de bens e notoriedade é reveladora de uma alma ausente de valores. Em nenhum momento os Evangelhos credenciam a autoestima como reveladora de estados superiores de consciência. O caminho do Getsêmani ao Gólgota é um convite à coragem, à disciplina e a um propósito inflexível.  Ir além dos limites impostos pela tradição é uma rara possibilidade, quase uma insanidade. Mas não é para muitos.

O QUE O MUNDO DA IMAGINAÇÃO É CAPAZ DE CONCEBER NÃO TEM LIMITES.

Que assim seja!

012 – O Caminho do Meio

In Artigos on 22 de fevereiro de 2011 at 14:01

Todos alimentamos no mais íntimo de nosso ser um animal selvagem. Apenas superficialmente, estamos cobertos por uma tênue camada de civilização. Por isso, a faixa que separa a civilização da barbárie é estreita e repleta de remendos artificiais. A linha divisória entre os dois mundos, muitas vezes, se confunde e passamos a expressar o lado promíscuo da liberdade em detrimento da própria libertação. O insensato é que lhe damos o título de atitudes altruístas em nome da cultura e civilização. Por exemplo, crescimento econômico pode ser visto apenas como uma vertente, uma relação estatística entre produção e consumo, pouco importando suas consequências na natureza e no ser. A insensatez chegou a tal ponto que criamos e alimentamos mais um rótulo de nome ‘sustentabilidade’, sem mover uma palha para torná-lo real. Sem uma mudança radical de parâmetros, qualquer mudança é apenas uma fachada para outros ‘ganhos’. Como nos diz Pe. Zezinho: “É preciso pensar diferente, que povo já sente que o tempo chegou”. Mas como pensar diferente num mundo onde todos, de certa forma, pensam iguais?

Temos duas naturezas aparentemente contraditórias, um Lobo e um Cordeiro. Uma aparente dualidade, dois extremos, tal é o nosso destino como seres humanos. Fomos incentivados ao longo dos séculos a pensar aleatoriamente, ou seja, não pensar. O fluxo ininterrupto dos pensamentos nos tira toda e qualquer possibilidade de reflexão. Basta observar e ver o quanto é difícil fixar o pensamento em alguma ideia objetiva. Uma simples distração e lá se vai a concentração, e com ela uma possibilidade real de mudança. Todo extremo é um fixador de ilusões, por isso, Osho diz em seus escritos que o homem que mais crê é também aquele que mais duvida. Basta uma mudança de referencial para consumar a ratificação contrária das atitudes. Somos todos políticos inadequados à sociedade. Trocamos de partido várias vezes e não vemos. O referencial aqui é o poder, suas legitimações e consequências.

Nutrimos no mais íntimo do nosso ser duas entidades, que possuem laços consangüíneos reais e dividem a hospitalidade da alma. Em virtude dessa aparente divisão a vida passou a ser a arena de uma eterna contenda, um inferno. Reflita que ao protagonizar dualidades, quer seja na religião, filosofia ou arte, a mente dual interpretará tudo ao redor como pró ou contra. Critérios absolutos do bem e do mal invadem nossa casa, trabalho e convívio e não admitem nenhuma intrusão em seus domínios. O homem passa a exercer funções de poder e toda função de poder exige submissão e respeito. Todo homem que exalta a Deus no imaginário de seu coração julga-se superior àquele que não pensa e age de forma igual. Insisto em repetir que louvor ao ego não é um ato real de adoração. E toda adoração é disforme e contraditória, uma forma de adorar a si mesmo por meio de Deus. O homem que não observa a si mesmo jamais encontrará respostas objetivas a essas questões. Vê através de um véu de tradições, dogmas e costumes. Simplesmente, não vê.

A alma do homem é o habitat do espírito de um Lobo e de um Cordeiro, e para infelicidade nossa ‘não somos conscientes’ disso. Quando alertados, viramos para o lado e continuamos ‘dormindo’. Consciência é luz e a  luz não admite extremos. Você não pode dizer, a luz começa aqui e termina lá. Da mesma forma um bolo de ameixas não admite a hipótese de uma ameixa isolada ser o referencial de todas as outras. Todas se distanciam umas das outras de maneira uniforme à medida que o bolo cresce. Somente algo chamado fé admite e consagra extremos. Mas, trata-se aqui da fé induzida. Aquela fé cega e arbitrária que nos legaram por séculos. Prefiro um referencial de confiança à fé, pois confiar não admite extremos, apenas acena para uma entrega incondicional. Você confia e pronto. Basta isso. Nada é exigido além disso. Quando questionamos e perguntamos: confiança em quê? Perde-se a volatilidade e ganha-se contornos de fé. Quando menor o peso específico da alma, menos denso o ser, e maior a frequência e volatilidade do espírito. Assim, nos aproximamos da fé verdadeira, aquela que nada exige e tudo dispõe.

Quando em nós o Cordeiro torna-se senhor, o Lobo advém com ironia, pois em seu coração convém caminhar só, beber uma boa taça de vinho e saciar-se perseguindo alguma loba no cio. É simples assim, desprendido e natural. O vinho do Lobo é o sangue que flui, alimentando e transferindo valores. É a seiva do ser, um poema, instinto e vida. Somos caçador e caça, mas não podemos nos iludir quanto às determinantes de cada uma. Quando numa relação de senhor e serviçais, o abraço festivo e a espontaneidade ficam ausentes. Fronteiras do seu e do meu são cadeias hereditárias. Aquelas terras são de alguém, que comprou de alguém, que comprou de outro alguém, que não comprou de ninguém. Criador e criatura são segmentos numa relação isenta de limites, um afim de semente e luz. Mas lembre-se que, isento dos extremos, o rio segue sempre o Caminho do Meio, e alheio à própria vontade contempla as margens. Sereno ele segue o seu destino. Mais cedo ou mais tarde alcançará o grande mar.

Mas quando o Lobo torna-se senhor, exalando ódio aos seres humanos, à hipocrisia e aos seus degenerados hábitos e costumes, o Cordeiro se põe a espreitar. Então, passamos a chamar o Lobo de besta, amargurando-lhe toda a satisfação de uma saudável e simples alma lupina. Instinto é resposta. O Centro Instintivo de Gaia responde com consequências presumíveis às atitudes do homem. Lembre-se que toda semeadura é uma possibilidade, mas uma vez atiçada ao solo as consequências são reais. É natural buscar o Cordeiro, sua misericórdia, mansidão e ternura. Mas entregar-se a ele num referencial de culpa é insensatez. O aprendizado continua depois daquela curva. O Lobo nos espera mais à frente. É natural que seja assim. Podemos ir ao encontro amedrontados e inseguros, ou confiantes. Lembre-se confiança é tudo. A verdadeira fé tem início exatamente aqui.

Aquele que acredita ter exorcizado de si mesmo o Lobo, nem por isso pode se considerar mais feliz. Encontra  paz aparente e momentânea, apenas fugindo da sua real natureza, mantendo à ‘sombra’ a sua ‘persona’. Mas o inconsciente grita, pois não suporta limitações e artifícios. O Lobo e o Cordeiro são segmentos naturais da psique e como qualquer outro ser necessitam de carinho e calor para sobreviver. Quando condicionados ao cativeiro da alma, transmitem uma insegurança real no agora. Todo cativeiro é delimitado por extremos, mas o incessante fluir não se permite aprisionar. Por isso essa ansiedade sem limites. Essa busca interminável. Essa obsessão desenfreada. Esse consumo que não sacia. Todo extremo e coercivo e oprime. Tanto o Lobo, quanto o Cordeiro tomados isoladamente são incentivadores da opressão. Alguém conhece alguma instituição na Terra que tenha oprimido mais que a igreja? Toda religião oprime, justamente por ser extremista em valores lógicos e racionais.

Todos os ‘verdadeiros mestres’ que pisaram este chão legaram este ensinamento, mas as religiões perderam contato com ele. O que temos hoje são pseudo ensinamentos, uma caricatura da verdade. Alguém me disse: Buda propôs o Caminho do Meio. Então, respondi: Todo conhecimento vivo em essência propõe o Caminho do Meio, pois esta máxima é verdadeira e qualquer prerrogativa contrária é inaceitável. O madeiro da Cruz aponta o Caminho do Meio; o fato de ocupar o centro, entre os extremos, na crucificação, também é uma relação ao Caminho do Meio. Ao fazer o caminho do Getsêmani ao Gólgota, Jesus se deixou fluir entre imensas margens de insultos e difamações. Tal qual as águas do rio seguiu resoluto o seu destino. Todo voo é equilíbrio dos extremos. Toda ascensão ao vencer a gravidade liberta-se dos estremos. Todo extremo torna-se inoperante, quando elos e grilhões são rompidos.

A busca do equilíbrio nas relações sociais e humanas passa necessariamente pela tensão entre os opostos. Estamos habitando um universo onde todas as forças tendem a equilibrar-se, mas a continuidade e existência exige uma constante renovação de propósito. É fundamental à sobrevivência e bem estar manter indenes, tanto o Lobo quanto o Cordeiro, para que possam nutrir o corpo e a alma com virilidade e inspiração. O Lobo e o Cordeiro são extremos, enquanto nós somos o rio. Da fluidez do espírito e da volatilidade da alma dependerá a evolução e reencontro com as origens.

Que assim seja!

011 – Arte de orar

In Artigos on 21 de fevereiro de 2011 at 17:24

Quando orar não se prenda exclusivamente às palavras. Durante anos imaginamos estar orando, quando na verdade estávamos apenas a repeti-las. Embora a palavra contenha grande significado, ela não é em si mesma a coisa mais importante. Os sacerdotes em sua grande maioria não vislumbram o verdadeiro sentido da oração, por estarem presos exclusivamente à literalidade do texto, à Tinta Fogo Negra, esquecendo do contexto, a Tinta Fogo Branca. O contexto é que possibilita a compreensão do texto à luz da verdade. Sem a prática do agora toda oração se distancia da verdade à medida que suas raízes não assimilam profundidade e nutrientes reais.  Orar é uma síntese de estar presente, receptivo e grato. Sem essas três vertentes a oração torna-se desarticulada e de pouco alcance.

Quando orar não procure objetivos na oração. Não lance na oração suas projeções, suas escolhas pessoais. Orar é uma arte e na verdadeira arte o objetivo final está além da expressão caracterizada pelo artista. Podemos estar orando na esperança de sermos ouvidos ou ter nossos desejos concedidos, mas a verdadeira oração tem um significado inteiramente oposto: abrir o ser às influências superiores. Permitir-se ouvir, abrir-se para ouvir. É Deus quem fala ao coração, apenas ouça. Mas como é difícil ouvir, não é mesmo? Insistimos em falar. Insistimos em convencer, como se fôssemos sabedores das necessidades reais que acompanham cada um de nós. Talvez por isso a meditação seja uma prática de oração tão completa, que poucos a sentem em plenitude. Para abrir espaços interiormente é preciso abrir mão das convicções. Então, por que a insistência em pedir sempre mais? Oração não é um pedido, mas sim agradecimento. O ato de agradecer abre-nos a muitas possibilidades, que de outra forma ficariam ausentes.

Nó somos instrumentos musicais, tais como um piano e necessitamos nos manter afinados. A oração, tanto quanto o jejum tem essa finalidade. Somos música, mas insistimos em ouvir de fora para dentro. Isso porque nos esquecemos de nós mesmos, da música que habita e faz morada em nós. O sangue ressoa no interior do corpo, como uma cascata de águas cristalinas. E as notas do sangue não são as mesma em todas as partes do corpo. Cada nota ressoa de acordo com um cosmo próprio e dele retira constantemente energias. A arte de orar é tão plena quanto qualquer outra, exige disciplina, propósito e muita dedicação. Só o silêncio pleno da alma é capaz de ouvir a musicalidade do ser. A alma, ou música ou alento do Centro Emocional Superior é um sentimento e precisa ser dirigida. Para isso necessitamos saber orar. Sabedoria contida num centímetro cúbico de luz, no respirar, na cadência e no suspirar. Somos entes mágicos e a oração tem o poder de nos reconduzir ao começo, quando éramos unos com o Logos e respirávamos em comunhão com todo o universo.

A oração é uma viagem, mas não se esqueça que o que apanhamos à beira do caminho é freqüentemente tão valioso, quanto aquilo que almejamos alcançar no final. Ao orar Observe a Si Mesmo. Isto vai lhe trazer a percepção de Eu Estou Aqui. Caso contrário, a imaginação acaba nos levando para longe do verdadeiro objetivo. Digamos que a oração é a textualidade, enquanto o caminho é o contexto, a textura que possibilita a compreensão. No mundo moderno orar passou a ter significado adverso. Somente quando o caminho se torna escuro e perigoso, nos lembramos da oração. Ou por hábito nos templos. A oração espontânea perdeu significado e expressão. Quando estamos aparentemente supridos em nossas necessidades prementes nos esquecemos do mais importante: Ser grato. O sentimento de oração é mais importante que o ato de orar. Às vezes, um simples olhar fala mais que mil palavras.

Pode ser que ainda não tenha parado para refletir à cerda do significado, quando pronuncia ‘Santificado seja o Vosso Nome’! Em sua vida religiosa possivelmente nunca tenha refletido sobre isso. Qual é o nome de Deus? No princípio era o Verbo, traduzido por Logos, palavra. Mas não havia nenhuma espécie de linguagem, então, que palavra? As palavras não existiam no sentido ordinário. Então, o que é Logos? Toda reflexão é uma forma de oração. Infelizmente, mais uma vez insistimos em frases feitas à refletir sobre algo. Somos deveras preguiçosos. A mente tornou-se uma entidade cansada, acostumada que é a receber mensagens subliminares e de antemão prontas. A mente consumista se comporta assim. É avessa às reflexões.

LOGOS é um som. A primeira vibração. O som mais profundo. Um som que não se podia ouvir, apenas sentir. O som mais penetrante é inaudível da mesma forma que a luz mais penetrante é invisível. Mas esse som original continua aqui e agora. É um mantra de acesso à origem. Insistimos na preferência por instâncias atuais, assim o som estridente e massificante impera sobre as sutilezas das vibrações superiores. Orar é colocar-se à disposição. Abrir-se ao sublime em detrimento das imposições da lógica racional. Por isso digo que a oração dos templos não me faz bem. Prefiro orar em comunhão com o borbulhar das águas ou acompanhado pelo farfalhar do vento nas folhas. Quando escuto o cantar de um pássaro faço dele um mantra e viajo em suas asas rumo ao desconhecido.

Quando orar Observe a Si Mesmo. Deixe todo o seu corpo orar por você. Deixe seu sangue orar por você. Sinta simplesmente o fluir  nas veias e artérias, levando o espírito de Deus ao coração. Não diga nada, apenas ouça. Recolha-se ao silêncio interior.  Deixe o Cordeiro orar por você. Deixe o Lobo uivar por você. Esteja presente, e nada mais. Talvez, possa ouvir a voz que nasce dos recantos mais profundos do ser, dizendo simplesmente: Obrigado! Orar é comungar os poderes do Alto. É uma ponte de reencontro às origens do ser. Orar é uma das formas mais precisas de parar o mundo. O tempo linear cede espaço à eternidade, deixa de existir tal qual o concebemos. Assim nos libertamos do convencional e passamos a ver além das aparências. Toda oração ritualística tem o odor da rotina e responde da mesma maneira que os latidos de um cão. Ser repetitivo não é ser convincente. Acredite que não é nada fácil fugir às conveniências, mas vale a pena tentar. Lembre-se que temos asas, somos anjos cadentes, precisamos reencontrar a alegria do voo.

A verdadeira oração é a gratidão. Não porque Deus aprecie isto, mas porque essa atitude faz-nos compreender melhor a nós mesmos e aos companheiros de jornada. E não se esqueça que, por mais que tentemos, não podemos expressar gratidão em palavras. Só através das atitudes podemos expressá-las. Diria que gratidão é uma resposta a todas as perguntas que ainda não foram formuladas. É um convívio harmonioso com o todo e todos os seres sencientes da Terra. Confesso ter encontrado enorme significado na contemplação, por isso a tenho como um referencial de oração. Enfim, diria que orar é ver. É uma manifestação de júbilo por aquilo que vimos e justificamos como real e eterno em nós. É uma forma de agradecimento, além do circunstancial, habitual e transitório.

Que  assim  seja!

010 – O ‘não-fazer’ de escolher

In Artigos on 17 de fevereiro de 2011 at 9:13

O texto que hora escrevemos nos fala sobre as escolhas e o conjunto de agregados concernentes a cada uma. Também reflete sobre possibilidades e consequências, pois cada escolha  traz um vasto mundo de possibilidades inerentes. Estamos sendo continuamente convidados a escolher, mas não nos atemos a isso. Por exemplo, podemos permanecer a sós e em silêncio ou nos deixar levar pelo fluxo ininterrupto dos pensamentos.  Um homem que vê faz escolhas opostas àquele que imagina ver.  Digamos que um Homem de Conhecimento observa uma sequência de acertos, enquanto aquele que imagina ver só se dá conta do fatalismo das decisões inconsequentes nos momentos adversos.

Já observou que é praticamente impossível, durante um determinado lapso de tempo, ficar sem fazer escolhas? O não-fazer de escolher exige uma paralisação do tempo linear, mas para que isso se torne possível é necessário cessar o fluxo ininterrupto dos pensamentos. Tente uma paralisação forçada desse fluxo por apenas três minutos e verá o grau de dificuldades que irá encontrar. Se insistir na técnica da paralisação artificial e Observar a Si Mesmo verá claramente que está apenas pensando que parou de pensar. Parece um paradoxo, mas é assim que ocorre. Levei um bom tempo para ver que a Observação de Si Mesmo tem essa finalidade, pois  um tempo mínimo de observação, sem análises paralelas, possibilita cessar o fluxo por alguns instantes. Não é difícil chegar à conclusão que um homem que observa a si mesmo tem maiores chances de acertar que aquele que passa despercebido diante de si mesmo. Posso lhe dizer uma coisa? Nos ensinaram a escolher ganhar mais, quando a verdadeira escolha seria perder menos. Mas para perder menos, precisamos apenas deixar de escolher. Observar a Si Mesmo é estar presente e a partir daí a escolha acontece naturalmente, sem a nossa participação ativa. Observe que em muitas situações é melhor ser passivo e observar. A obstinação traz a reboque uma infindável gama de necessidades artificiais e para supri-las criamos a necessidade de escolher sempre. Quantos vícios temos que alimentar, quando basta Observar a Si Mesmo para que enfraqueçam e nos abandonem.

Por que as escolhas acenam sempre com duas possibilidades? Somos seres duais, ensinados que fomos pela tradição a navegar num mar de dicotomias não conseguimos nos libertar dos artifícios da razão. Não conseguimos visualizar absolutamente nada, além do limitado campo de dois extremos. Numa realidade de Três Forças ver apenas duas significa ‘não ver’. É a isso que a ESCOLA chama ‘estar adormecido’. Um homem adormecido só tem uma escolha: imaginar que está acordado e sonhar no seu dia a dia as possibilidades de um despertar. Mas como despertar numa cultura que induz a dormir mais e mais. O céu que nos convidaram a buscar está além do agora. As possibilidades estão validadas pelo ter, enquanto o ser é legado ao desvario de uma mente insegura e artificial. Nosso altar interior rende glórias ao mundo externo para conseguir conforto, paz e plenitude.  Tornamo-nos seres compulsivos e o consumo exacerbado de bens supérfluos é a nossa cachaça. Praticar o bem ou ceder ao mal? Entregar a alma ao Lobo ou ao Cordeiro? Amar ou odiar. E quando ‘escolhemos’ nos identificamos com a coisa escolhida. Somente ela existe e tudo além passa a ter pouca ou nenhuma importância. A escolha é o terreno fecundo da identificação.

As coisas em si mesmas não são boas nem más. As qualidades que chamamos de bondade ou maudade são introduzidas por anseios, expectativa e frustrações. A mente imaginativa, ao longo de muitos séculos, foi alimentada por escolhas. Nada existe que possamos chamar absolutamente bom ou mau. Tudo não passa de interpretação, segundo determinadas contingências.

Preste muita atenção a isto: “NADA TE É NECESSÁRIO, SIMPLESMENTE OBSERVA A TI MESMO”.

A mente cria distinções, ela nos diz que o Cordeiro deve ser escolhido em detrimento ao Lobo, que deve ser evitado. Não nos deixemos iludir, a fantasia em relação às coisas é que desvanece, cedendo lugar a outras fantasias.

Quando imaginamos ‘escolher’ nada mais estamos fazendo senão nos identificar com a coisa escolhida. Por exemplo, amar não é uma escolha, é uma entrega pura e natural. Quando o amor nasce de um propósito, quando é fruto de uma escolha torna-se possessivo e deixa de ser verdadeiramente amor. A ESCOLA na linguagem dos homens simples e sábios nos diz:

“NÃO ESCOLHAS, POIS SE ASSIM FIZERES ESTARÁS IDENTIFICADO”.

A ‘identificação’ é a prisão da alma, é o cárcere onde mantemos cativos o Lobo e o Cordeiro. A escolha traz junto de si a identificação. Então, SIMPLESMENTE VÁ, SEJA NATURAL, UNO COM O TODO. Não levante muros separando os aspectos da alma, não podemos separar o Lobo e o Cordeiro. É impossível dividir Deus entre o Bem e o Mal. O Eterno não admite divisão. Quando falamos que Deus é ao mesmo tempo TRÊS  queremos dizer que sua manifestação no mundo físico é entendida como uma trindade, mas sua essência é una. E nós somos originalmente essência, formados a partir da própria substância divina, respeitando devidamente os limites de escala e relatividade, o nível de freqüência e substancialidade da matéria.

A escolha pertence à personalidade,  mas nós somos essência. Da ilusão de escolher nasce o ‘fazer’, mas o fazer do homem é efêmero. Cada um de nós traz o universo em si mesmo. No texto anterior dissemos que em apenas nove meses de vida intra-uterina velejamos milhões de anos e fizemos descobertas incríveis. Mas por razões específicas nos esquecemos de nossa origem e propósito. Observar a Si Mesmo tem o objetivo de nos levar de encontro a alguma coisa maior chamada de Lembrança de Si Mesmo, ou reencontro com aquilo que é real e habita em nós. Mas não é uma questão de escolher e sim ser o mais natural possível. Observe e verá que ‘os pássaros não escolhem, no entanto, vosso Pai lhes dá toda a natureza por alimento‘. Basta ser natural para que a graça do alto celebre uma nova vida em cada um de nós.

Para que possamos fazer escolhas reais temos antes que ser unos com o nosso ser. Precisamos antes ser.  Tal como somos hoje, ainda não somos. Como pode um ser circunstancial  governado por uma legião de eus que em verdade são esquivos e pouco amigáveis se prontificar a fazer escolhas?  Quem escolhe? E diante de possíveis escolhas quais eus assumirão a responsabilidade de  torná-las reais?  Somos a expressão de inúmeros desejos contraditórios e antagônicos. Um desejo pode tomar a frente e assumir o comando, mas em seguida ir embora deixando a responsabilidade sobre outro que em nada coaduna com o primeiro. Infelizmente, ainda não somos tão reais como imaginamos, carecemos de substancialidade.

Preste bastante atenção a este versículo bíblico. Ele nos dá uma visão clara e objetiva, sobre a própria essência do fazer.

Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais ele fará”.

Observe com cuidado e irá ver que há Três Forças envolvidas.  Quando interagimos com ‘uma uma nova maneira de pensar’  não basta ter fé.  É necessária a Lembrança de Si Mesmo. Uma vez que nos lembremos de nós mesmos a fé deixará de ser uma escolha e passará a ser um reencontro alegre e festivo com aquilo que é providencial em nós. A entrega, a confiança e o fazer são temas a serem  discutidos nas futuras páginas deste trabalho.

Que assim seja!

009 – O Lobo e a lua

In Artigos on 9 de fevereiro de 2011 at 16:42

Era uma vez um Lobo, que passava longas horas uivando nas noites de lua cheia! Ouvimos dos nossos avós ou de pessoas mais idosas, principalmente do interior, relatos desse tipo, ou lemos nos contos de algum livro. Mas, você sabe o significado dessa lenda, que até hoje nos encanta e fascina?

Sou filho do interior, cria da terra. Só tivemos luz elétrica em nossa casa ao completar sete anos de idade. O jantar era servido às 17:00 hs e ao cair da noite a família se reunia à luz da lamparina a contar histórias, que jamais esqueci. Mamãe relembrava seus feitos de menina e papai tornava-se o herói das mil e uma noites. Assim as horas passavam rapidamente, pois às 20:00 hs em ponto a chama da lamparina se extinguia, era hora de dormir. Ainda era possível ouvir sussurros no escuro, não sem a intervenção de mamãe: ‘Já rezou pro seu anjo da guarda, menino? Fique quieto e vá dormir!’  Éramos felizes e não sabíamos. Bença, Pai! Bença, Mãe! E um gostoso silêncio tomava conta.

Foi assim que ouvi falar pela primeira vez num tal de Lobo. Muitas eram as suas nuances e respondia por vários nomes: Lobo mau, bicho-papão, dentre outros. Certa noite fui bater à cama de mamãe, com um estranho pedido. Queria que abrisse a janela para eu ver o Lobo uivar para a lua. Fui repreendido, é claro. Mamãe seguia a linha tradicional e me falou que o tal Lobo era perigoso e não gostava muito de ver alguém espiando. Mas o coração criança de seu filho respirava o aroma puro dos poetas líricos: devia ser muito lindo um Lobo uivando pra lua, pensava ele.

Agora já tinha dez anos e bastava apertar uma coisinha e a lamparina acendia sozinha. Ganhou até outro nome: lâmpada. Certa noite mamãe levou um susto, foi até a minha cama e não me encontrou lá. Acordou papai e ambos, depois de procurar por toda a casa me encontraram do lado de fora, sentado num toco de árvore, olhando para a lua cheia. Antes de me repreender, mamãe observou lápis e papel nas minhas mãos. Estendi-os e presenteei dizendo: É pra você, mamãe!  Ela olhou curiosa para o desenho: um Lobo uivando para a lua.

Então, disse para mamãe: Não precisa ter medo! O Lobo é meu amigo. E assim o adolescente menino Lázaro escrevia poemas para o Lobo. A minha primeira medalhinha em literatura veio do concurso da escola: O Lobo e a lua. Um poema que sofreu retaliações, afinal estudava num colégio católico. Disseram para mim que o Lobo matou Jesus, mas pensei com os meus botões: Como pode um Lobo tão belo matar o amor? Depois passei a abrir as janelas do quarto nas noites de lua cheia, com o som da vitrola ligada bem baixinho. Então, certa noite, ouvi uma canção que dizia: “Vem, Amigo! Não há perigo que hoje possa assustar. Não se iluda, pois nada muda se você não mudar”. Quem me apresentou ao Cordeiro foi o Lobo e sou muito grato a ele por isso.

‘Fuçando’ na biblioteca do colégio descobri um livro que falava do Lobinho. Ele passa várias semanas no útero da Mamãe Lobo, enquanto durar o seu período de gestação. Ele sonha e brinca nas águas do mar, pois o útero da Mamãe Lobo está cheio do mar, da mesma forma que nós flutuamos durante nove meses no útero de nossa mamãe. Descobri que o útero tem a mesma química, a mesma salinidade da água do mar. Meu Deus! Então, o útero de GAIA, a nossa Mamãe Terra, é o próprio mar?  As  águas que brotam das nascentes são o leite sagrado com que amamenta a nós, os seus filhos? Então, as águas dos regatos, ribeirões e rios, dos igarapés, das nascentes e das cachoeiras um dia se reencontram para reverenciar o Grande Mar da Vida. Que coisa linda este reencontro, meu Deus!

Estava escrito lá que o Lobinho passa, durante o período de gestação da Mamãe Lobo, por todas as fases que a humanidade já viveu em toda a sua história. Então, nós também vivemos milhões de anos de evolução em apenas nove meses? Estava eufórico com tamanha descoberta. Era simplesmente fantástico tudo aquilo! Mas bastou olhar para os semblantes próximos para tomar contato com a dura realidade à minha volta. Ninguém compartilhava da minha descoberta.  Que pena! Esquecemos o Nosso Verdadeiro Lar! Quem sabe um dia venhamos a compreender com toda a alma e com todo o nosso ser o que significa: A Lembrança de Si Mesmo.

O LOBO É O MAR,  REFLETE A LUZ DO LUAR EM SI MESMO. ASPIRA A PURA ESSÊNCIA DO SER, QUANDO CANTA ODES ÀS SUAS LEMBRANÇAS, ÀS SUA ORIGENS. 

Na alma do Lobo habita o Cordeiro; a poesia dos séculos; o aroma singelo das estrelas distantes. A alma do  Lobo reflete o mar. Ele é o próprio mar. Nós somos o mar. Quando mergulhamos nas suas águas nos tornamos unos com ele. Retornamos à Fonte, ao Princípio, ao Eterno. Por isso as suas águas exercem a um só tempo medo e fascínio sobre nós.

O Lobo é o poeta que se encanta com o luar. A lua é a sua morada, onde habita o mais íntimo do seu ser. O Lobo sabe por origem e tradição que:

A LUA É FILHA DA TERRA, DESTA MESMA TERRA QUE UM DIA VIRÁ A SER O NOVO SOL, POIS O SOL UM DIA FOI UM PLANETA, TAL COMO A TERRA É HOJE. SOMOS HERDEIROS DA NOVA TERRA E HABITANTES DA LUZ. 

Há mais mistérios no universo do que a alma do homem possa suportarMas não adianta ir ao encontro deles, antes é necessário se abrir para recebê-los. E a melhor forma de se abrir é dando o melhor de si. Parece um paradoxo, mas não é. Sem abrir mão de nossas convicções e certezas não vamos a lugar algum. Este é o significado bíblico de morrer. Mas antes de morrer é necessário despertar. Aqui está o grande mistério. O poeta sabe que o mundo que o rodeia é de um infinito azul, por isso é um contemplador de estrelas.

Estamos Renascendo, de um amontoado de entulhos para uma nova maneira de pensar; para uma nova vida, onde  resquícios de um passado distante não terão mais nenhum poder sobre nós. Então, talvez, voltemos a uivar em uníssono com o Lobo, quando o primeiro raio de luar romper as entranhas de nossas trevas interiores. Assim, as emoções negativas, o sofrimento inútil e as ilusões a respeito de nós mesmos cairão nus diante do verdadeiro EU.

Por que insistimos em morar no porão dessa casa magnífica, sem ao menos imaginar a grandeza de significado que reside nos andares superiores? Se tivéssemos energia suficiente para despertar, poderíamos ascender a esses andares, onde repousa a Lembrança de Si Mesmo. Teríamos assim a visão da unidade do Lobo e o Cordeiro e poderíamos contemplar toda a vastidão de estrelas e sóis.

“DISPÕE-TE, RESPLANDECE, PORQUE VEM A TUA LUZ  E A GLÓRIA DO SENHOR NASCE SOBRE TI”.

Que assim seja!

OO8 – Símbolos do inconsciente

In Artigos on 4 de fevereiro de 2011 at 17:25

O Lobo e o Cordeiro podem ser interpretados como arquétipos, imagens  do inconsciente projetadas em fatos comuns da vida diária, tornando possível uma melhor avaliação de nossas atitudes e intenções. Por estarmos interagindo com uma nova maneira de pensar, uma visão segundo Três Forças, vertentes ou ângulos diferenciados é possível ver além da forma condicionada e habitual.  Seria algo como caminhar em um nível superior de atenção, com uma visão aguçada dos extremos, sem perder o foco, o propósito e a direção. A projeção do Lobo e o Cordeiro sobre os aspectos rotineiros da vida  permite alargar horizontes de uma visão limitada,  pois ambos possuem conotações especiais que nos levam à  percepção da existência de outros valores, além do aparente e convencional. Vamos dar um exemplo: abra os braços, distanciando-os o mais possível do corpo, delimitando os extremos direito e esquerdo. Agora olhe em frente, com olhar fixo em algum ponto, ou propósito. O seu extremo direito chama-se Lobo ou atitudes, enquanto o seu extremo esquerdo chama-se Cordeiro, ou intenções. O ponto fixo ou propósito maior, bem diante de seus olhos chama se Deus. A partir dessa simples visão é possível romper elos com o convencional. Deus responde segundo atitudes e intenções da parte do homem, qualquer que seja o nome que lhe dê, independente de crenças, dogmas ou religiões.

Não é nosso objetivo desvendar os mistérios, nem trazer à tona significados intrínsecos, pois a visão do inconsciente é pessoal, mesmo a visão do coletivo é pessoal. Basta Observar a Si Mesmo e refletir por alguns instantes para comprovar que não temos  visão completa sobre coisa alguma, nem a podemos conceber por inteiro. A nossa visão é sempre parcial. Então, porquê insistimos em julgá-las, segundo uma visão parcial? O inconsciente é a casa do Lobo, os três chakras inferiores, portanto, qualquer julgamento é uma revelação do Lobo sobre nossas fragilidades interiores. É como se dissesse: Essa forma de julgar o outro é um limitador de sua própria liberdade. O Lobo Cativo no inconsciente responde às circunstâncias da mesma forma que o preso, limitado pela cela, responde aos ideais de liberdade. O mais grave de tudo isso é que no caso específico do Lobo a cela somos nós.

Os sentidos, apesar de possibilitar a compreensão  e convivência com o mundo à nossa volta, limitam essa percepção do mundo a uma fração diminuta da realidade possível e imanente. E o Lobo e o Cordeiro são reflexos reais dessa percepção. O verdadeiro limitador do homem é sua visão distorcida da realidade. Por exemplo: temos uma visão de riqueza como posse a serviço da vaidade e do orgulho. Chamamos auto-estima aos nutrientes que agem sobre sobre ambos no sentido de nos manter em paz conosco mesmo. Se a aparente tranquilidade do imaginário não sofre intervenção direta do real, nos sentimos realizados e felizes. Eis aí um falso conceito de riqueza edificada sobre as ruínas de um consumo exagerado e sem bases reais. Os extremos do desperdício, da miséria e da fome nós não vemos, perdidos que estamos numa visão limitada e ocasional.

Como aspectos inconscientes de um fato o Lobo e o Cordeiro nos são revelados, não como um pensamento puramente racional, mas como imagens, símbolos do inconsciente. Por isso, temos pouca escolha ou nenhuma, pois o universo inconsciente ao homem é milhões de vezes maior que o campo de sua percepção linear. Por isso, a ESCOLA diz que não podemos fazer. Sem a Observação de Si Mesmo é praticamente impossível compreender essa limitação e ultrapassá-la. Tais como somos agora, atitudes respondem a impulsos ou intenções inconscientes, enquanto estes são movidos por circunstâncias. Mas o que será que mantém essa turbulência em  evidência, não permitindo uma reflexão mais apurada da realidade? Aquilo que a alimenta e mantém chama-se fluxo ininterrupto dos pensamentos. Só num estado de calmaria, ou silêncio interior, é possível lembrar-se de si mesmo, de nossas possibilidades, do propósito e origem da existência.

O convencionalismo resiste, naturalmente, a tudo que  vem do inconsciente, daquilo que é real em nós e também daquilo do qual fomos  privados e que foi relegado às sombras do desconhecido. Algo que guardamos no calabouço de nossa alma, cujas chaves trazemos em mais completa segurança e, certamente, oferecerá resistência à conscientização tanto do Lobo como do Cordeiro. Dissemos em páginas anteriores que o Lobo e o Cordeiro não são decisões nossas, mas sombras do inconsciente. Sei que todo ensinamento religioso cristão implica escolhas, mas aqui estamos interagindo com uma nova maneira de pensar, portanto, estamos dentro de um processo, cujos resultados, ou escolhas aparentes, é natural. Basta o pensar correto, a intenção correta e a atitude correta, para que aquilo que chamamos escolha possa fluir livremente em nós. O Tratado do Lobo e o Cordeiro é uma interação de Três Forças, por isso não está limitado por dicotomias de virtude e pecado. Ele não obedece a extremos de Inferno e Céu, antes é um caminho livre de dogmas. Basta naturalmente seguir, sem a ansiedade da busca, nem a certeza da chegada. Basta ao homem o chão, o vento, as estrelas e a lua, senão os próprios passos, e nada mais.

Sem que possamos perceber, tanto o Lobo, quanto o Cordeiro influenciam o modo pelo qual reagimos às pessoas e aos fatos. A aparente divisão do mundo interior em dicotomias infundadas manifesta sua influência até na magia, dividindo-a em Magia Negra e Magia Branca, quando na verdade o elo divisor somos nós mesmos. Comportamentos são polos que atraem ou repelem. É o ser de um homem que atrai sua vida. Nada chega até nós se não estivermos abertos ao seu raio de ação. Culpar o outro por nossos erros e fracassos é a atitude mais ingênua do homem civilizado. É o aval que nos consolida como seres inconsciente num universo inteligente e passível de evolução. Nossa percepção do mundo está fragmentada pelo simples fato da tradição ter compartimentalizado o homem, dividindo-o em extremos de escuridão e luz. Mas somos feitos de amor e desejo, de silêncio e sons, e nos isolarmos em qualquer desses compartimentos é ficar frágil diante do outro, diante da vida e suas exigências.

Os pensamentos que alimentamos na vida diária e segundo os quais gerimos nossa  sobrevivência e bem estar, aparentemente claros e objetivos, não são tão precisos como queremos crer. Estão alicerçados sobre a obstinação, auto importância, ressentimentos, auto indulgência, orgulho desenfreado, dúvidas e mentiras, e vários outros fatores. O homem é um veleiro num mar revolto de ondas imponentes. Quantos não conseguem chegar ao porto? Quantos não se sentem fortes o suficiente para enfrentar os desafios do mar? Os leitos dos hospitais estão repletos de mentes doentes, de corações fragilizados pela dor, miséria e insensatez. Muita coisa poderia ser evitada se víssemos a nós mesmos com outros olhos. A doença do homem não é física, torna-se física, mas não é física. Pensamentos são co-criadores, são na maioria esmagadora das vezes o reflexo de um inconsciente, que não aguenta mais tamanha fragilidade do corpo. Uma pedra é expressão da mente. Todo rio corre no interior do corpo, podemos nos purificar simplesmente contemplando as águas do rio. Sidartha aprendeu com o rio e fluiu com ele.

A sociedade nos ensinou ao longo dos séculos a sermos vítimas do Lobo. Desde criancinha nos legaram o medo do Lobo Mau e do Bicho Papão,  e ainda temos tais idéias arraigadas na psique. Aprendemos a meter o pau e queimar Judas no sábado de aleluia, sem que pudéssemos ao menos refletir sobre o verdadeiro papel representado por ele no Getsêmani. Tanto quanto você também fui vítima circunstancial dos fatos. A vida é assim, a cultura e suas sequelas são condizentes com isso. O homem não pensa, e isso é uma dura realidade. Como fazer um ser que não pensa, pensar diferente? Esse é o maior de todos os desafios do Tratado do Lobo e o Cordeiro.

Estamos todos dormindo, diz a ESCOLA, mas o que será que significa isso?  A ESCOLA também diz que isso acontece por estarmos identificados, mas qual o significado de identificação num contexto de ESCOLA? Identificação é um estado em que temos a atenção levada por alguém, algo ou alguma coisa. Deixamos de ser nós mesmos e passamos a ser esse alguém, algo ou alguma coisa. Quando nos identificamos com alguma pessoa ou objeto, ou ainda algum estado emocional, perdemos parte de nossa  energia que é sugada e fixada  pelo objeto da identificação. Toda essa energia é sugada pelo inconsciente e permanece ali à disposição daquele que se aventurar além dos limites de seu pequeno mundo. Mas é preciso coragem para essa viagem, pois junto de cada processo energético recolhido também está o estado de espírito que o originou. Mergulhar nas profundezas não é tão simples quanto o imaginário cristão possa conceber. Jung teve a visão daquele mundo e a classificou como aterradora. Alertou ao homem que ainda não está preparado para o confronto, para permanecer onde está e não se aventurar a despertar os cães dentro da noite escura.

Por meio de diversas manobras, entre elas o hipnotismo de massas, a sugestão, os ditames da cultura e a tradição, com seus dogmas e rituais, tentou-se de todas as formas possíveis romper o elo original que nos une ao Lobo.  Mas a verdadeira história é escrita por homens conscientes  e não por tradições. Homens conscientes são aqueles entes mágicos da alquimia que transmutaram o metal vil em ouro nobre, ou seja, energias grosseiras e inconscientes em consciência e luz. Não malograram o Lobo, antes o libertaram do cativeiro inconsciente das ações imaturas para servir de farol ao seu caminho em direção ao Cordeiro. A elevação espiritual do homem não tem outra alternativa a não ser evoluir a partir da base. O inconsciente é o pai do homem, mas o homem moderno continua acreditando nos pressupostos dos laboratórios, numa fecundação racionalizada a partir de um tudo de ensaio. A forma pode obedecer ao formato de um tudo, mas o abstrato jamais.

Que assim Seja!