Lázaro de Carvalho

110 – O ato de dar

In Artigos on 25 de agosto de 2011 at 14:55

Nossa reflexão de hoje está sedimentada na ‘Consideração Externa’ e nos preceitos Budistas.

Numa linguagem de ESCOLA, quando a Identificação se refere a pessoas passa a ser chamada de Consideração, e pode ser dividida em dois tipos: Consideração Interna e Externa.

A Consideração Interna mantém uma relação direta com ‘estar adormecido’. Trata-se de uma forma egoística de perceber as coisas. Ocorre quando nos colocamos como o centro de todas as atenções, de tal forma que somos prioridade em tudo. Portanto, tudo à nossa volta passa a estar a nosso serviço. Neste tipo de atenção DEUS é um serviçal do homem, sempre à disposição para solucionar eventuais problemas sociais, econômicos e familiares. A auto-importância (art. 053) é o seu traço principal. Tudo gira em torno dela. Nós somos mais importantes, portanto, Deus deve nos privilegiar e se colocar do nosso lado. Este é o traço de caráter que define a auto-importância.

NA CONSIDERAÇÃO INTERNA SOMOS SEMPRE VÍTIMAS OU MERECEDORES DE ALGUMA COISA.

Já a Consideração Externa é uma forma de Lembrança de Si Mesmo. Na Consideração Externa passamos a ver, além de nós, o outro (art. 061), e nele nossas próprias limitações e temores. Portanto, começamos a abandonar todas as formas pré-concebidas de julgamentos, pois passamos a ver em nós as mesmas qualidades negativas que repreendemos no outro.

A CONSIDERAÇÃO EXTERNA É UMA FORMA DE VER-SE A SI MESMO ATRAVÉS DO OUTRO.

A Consideração Externa é a base para um novo estado de consciência. É simplesmente impossível falar em evolução da consciência sem a Consideração externa.

QUEM VÊ A SI MESMO ATRAVÉS DO OUTRO NÃO MANTÉM PÁSSAROS EM CATIVEIRO, NEM AGRIDE O MEIO AMBIENTE.

A Consideração Externa nos torna mais humanos, despertando um grau apurado de sensibilidade. Lembrando que ‘despertar’ significa: o despertar da sensibilidade do homem.

Todos aqueles que nos acompanham através das páginas do Site são sabedores que não abraçamos individualmente nenhuma seita ou religião, antes, amamos todas na sua Essência, Verdade e Luz. Quando lançamos severas críticas a algum comportamento religioso não o fazemos de forma coercitiva e pessoal, mas antes com o intuito de despertar a ‘mente religiosa’ para o Verdadeiro Conhecimento. Também não apresentamos nenhuma alternativa religiosa, pedimos apenas reflexão dentro das comunidades já existentes atualmente.

O ato de dar é um Conhecimento Budista e vamos compartilhá-lo com você, segundo os seus preceitos.

De acordo com os Ensinamentos Budistas nós podemos dar três tipos de coisas: Bens materiais, conhecimento e destemor.

O DAR BENS MATERIAIS É UMA ATITUDE RELEVANTE, QUANDO REALIZADA SOB OS OLHOS DA CONSIDERAÇÃO EXTERNA.

Significa agradar o outro simplesmente pelo outro. Algo mais ou menos assim: Já não está aqui aquele que deu. Visa o despertar da consciência, a realização do outro enquanto pessoa humana. É um ato não contaminado por recompensas. É muito importante salientar que…

QUALQUER OBJETO DADO LEVA EM SI MESMO AS EMANAÇÕES DAQUELE QUE O DEU. PORTANTO, PODE SER AGREGADOR DE ENERGIAS OU DESARTICULADOR, DEPENDENDO DAS QUALIDADES INERENTES AO ATO DE DAR.

Os Monges Budistas da Ásia Oriental não participam de tarefas produtivas, portanto, não podem dar bens materiais. Em vez disso, concentram-se em dar destemor e ensinamentos. De acordo com Buda, há quatro tipos de destemor:

1 – Aquele que se origina do sofrimento;

2 – O que se origina da perfeição do caráter;

3 – O que se origina da superação dos opostos;

4 – E aquele que nasce com o fim do sofrimento.

Buda ensina que a vida se caracteriza pelo sofrimento. O sofrimento delineia o verdadeiro quadro da existência humana. Viver é sofrimento. Ser é sofrimento. O sofrimento humano existe pelo fato de não podermos ‘fazer’. A ânsia do ‘fazer’ gera sofrimento. O ‘fazer’ trás em si o ter, o possuir. Todas as ilusões das possibilidades humanas nascem a partir daí: ‘Eu tenho, portanto, eu posso’.

A ÂNSIA DO FAZER É QUE TORNA IMPOSSÍVEL AO HOMEM SONHAR OS SONHOS DE DEUS

A ÂNSIA DO FAZER É A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DE UMA CULTURA ADORMECIDA.

Precisamos nos libertar dos extremos, dos dualismos, das dicotomias. Embora estejamos bem no meio, é preciso integrá-los. E SOMENTE NÓS PODEMOS FAZER ISSO. Mas você dirá: “Estamos diante de um paradoxo, pois você acabou de dizer que não podemos fazer absolutamente nada. Então, como PODEMOS FAZER ISSO?” Eu lhe digo que a mágica do ‘fazer’ começa pelo ‘não-fazer’. Quando não permitimos a desarticulação, integramos; quando deixamos de odiar, amamos; quando deixamos de mentir, vivenciamos a verdade. Portanto, quando nos libertamos das dicotomias, dualismos e extremos, integramos. ISSO É FAZER.

É O NÃO-FAZER DO HOMEM QUE PERMITE O FAZER DE DEUS.

Quando tiver um tempinho, leia o nosso artigo ‘O não-fazer de escolher’ (art. 010). Ele diz muito a respeito do que estamos citando aqui.

Temos que ter consciência daquilo que ‘fazemos’ e do quanto nossas atitudes conspiram a favor ou contra nossas verdadeiras intenções.

PRECISAMOS ESTAR LIVRES DOS EXTREMOS PARA COMPREENDER O SOFRIMENTO E A SUA ORIGEM.

Só assim poderemos ver a quantidade imensa de ‘Sofrimento Inútil’ que levamos às costas. Precisamos não apenas manter indenes, mas integrar o Lobo e o Cordeiro que foram confiados à nossa guarda.

O caráter deve ser belo e cristalino, permitindo que através dele sejamos generosos, tolerantes, compassivos, amáveis e fortes. São traços de caráter em busca da perfeição que possibilitam a libertação de todo o sofrimento humano. É preciso que estejamos presentes e que a nossa energia se faça vibrar em uníssono com tudo à nossa volta. Lembrando que a estabilidade emocional é determinante para um caráter equilibrado. Quando exaltamos a Deus com gritos de louvor, estamos internamente desequilibrados, portanto, ausentes de nós mesmos. Esse caráter parece até um contra senso, mas não é divino, nem real.

SÃO NOSSAS ATITUDES QUE FUNCIONAM COMO FORÇA NEUTRALIZANTE (ART. 038), DIANTE DO DESESPERO DE UMA CULTURA FALIDA.

Traços conscientes de caráter permitem abraçar a beleza da existência, mesmo quando choramos, lutamos e nos desesperamos, diante das angústias e sofrimentos.

Precisamos simplesmente dar, sem contar com nenhum tipo de recompensa. E isso é muito difícil. A prática da Consideração Externa é muito difícil. Fomos criados dentro de uma cultura que nos ensinou a exigir sempre algo em troca. Estamos inseridos na cultura do ‘você vale o quanto tem na carteira’. Não importa quem você realmente é, mas quanto você possui. Mas, ninguém em sã consciência pode prever quando se dará nossa ‘última batalha na Terra’ (art. 019), portanto, é melhor estar atento.

TIRE O TAPETE SOB OS PÉS DO HOMEM QUE APENAS TEM, E ELE IRÁ SE AGARRAR AO RABO DO PRIMEIRO LOBO QUE CRUZAR O SEU CAMINHO, PENSANDO SER UMA CORDA QUE DEUS LHE JOGOU DO CÉU.

É esse artifício que as religiões estão utilizando para angariar pobres desgraçados para as sua fileiras. Oferecem incensos da Índia, óleos milagrosos do Oriente e pedras de Israel, para homens adormecidos que só vêem através das ilusões e dos sonhos.

Mas o ‘homem que é’ apenas pegará o que lhe cabe por direito de herança, e seguirá o caminho do seu coração.

A principal característica do ‘homem que tem’ é a ganância de ter mais. Essa ganância exclui todos os valores reais e objetivos à sua volta. Com a ganância vem a cobiça, e essa tem raízes ainda mais profundas.

QUANDO COBIÇAMOS ALGUMA COISA TUDO FAZEMOS PARA AGRADAR.

Nossas atitudes perdem o verdadeiro significado e nos inserimos no tipo de: ‘intenções que se escondem por detrás das atitudes’. Significa que estamos ‘adormecidos’. Portanto não estamos trabalhando para o ‘assentamento do mundo’, mas de comum acordo com a ‘Consideração Interna’. Ponha em prática apenas o ‘ato de dar’ e nada mais. É como se ofertássemos um imenso jardim repleto de rosas a alguém que nunca vimos, e jamais voltássemos para recolher ganhos ou recompensas. É tão simples, mas extremamente difícil. O verdadeiro dar significa: ‘eu estou aqui, agora’. Hoje é agora. Amanhã, talvez. (art. 020). Podemos ser naturalmente gratos, por nossa vida e presença, aqui e agora. Essa é a prática do dar.

A todo instante somos envolvidos por diferentes situações, as mais diversas. Portanto, não podemos praticar a Observação de Si Mesmo por um único ângulo. Quando estiver triste ou angustiado, observe o seu estado interior de tristeza, mas contemple os pássaros a cantar, mães alegres a amamentar os filhos, o fluir das águas do riacho, a Terra e as estrelas a viajar pelo espaço.

PORQUÊ ESTOU TRISTE, SE A PRÓPRIA NATUREZA NÃO CONDIZ COM A MINHA TRISTEZA?

Observe e verá que a tristeza é um ‘Sofrimento Inútil’. Ela talvez seja o único artifício que lhe restou para completar o vazio de sua existência, e a única prova convincente de que ainda continua vivo.

A IMAGINAÇÃO NASCE NO TERRENO FÉRTIL DA IDENTIFICAÇÃO. É MUITO FÁCIL IMAGINAR-SE TRISTE, DÁ UM SENTIDO EXISTENCIAL PALPÁVEL.

Parece inacreditável, mas é seguro sentir-se triste. Urge praticar a Observação de Si Mesmo. É preciso ir além do ‘aparente do aparente’. Aparências enganam, não se esqueça disso.

Essa página é uma porta que se abre á sua frente, mas será que está disposto a ir além dos seus limites? Estamos dispostos a dividir tudo aquilo que nos foi ensinado, mas será que o solo já está preparado para receber? Uma semente, mesmo sendo de rara qualidade, se for lançada ao solo fora de época, com certeza, não dará bons frutos.

O ATO DE DAR E A ARTE DE RECEBER (ART. 059) É UMA TROCA CONGÊNITA DE ENERGIA.

Entenda que até mesmo uma minúscula folha de grama é importante. Sem ela o solo não pode resistir. Se retirarmos apenas uma gota d’água do mar ele estará incompleto.

ENTÃO, BUSCARÁ POR ELA ATÉ OS CONFINS DAS NUVENS MAIS DISTANTES. E ENQUANTO NÃO A TIVER DE VOLTA, O SEU LEITO NÃO DESCANSARÁ.

Pode ser que todo o nosso esforço seja inútil, mas vamos continuar tentando.

“DIANTE DO IMPOSSÍVEL, TENTAREMOS”.

Que assim seja!

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  1. [...] Diz-nos a Tradição Judaica que ‘somos todos invejosos de todos’ à exceção de nossos filhos e discípulos, por serem uma extensão do nosso próprio sucesso ou fracasso. E completa dizendo que o significado maior da existência é ampliar a extensão da alma para abarcar todos que nos cercam ao convívio de filhos e discípulos. Talvez seja essa a principal meta da ESCOLA: A Consideração Externa (art. 110). [...]

  2. [...] Mas existe uma relação muito íntima entre dois fatores: Miséria por ter em excesso e riquezas por não se ter nada. Como estamos viajando num universo mental de fronteiras imaginárias (art. 022), cumpre rompê-las com determinação e consciência. Os excedentes fétidos, sobras residuais na mesa posta dos abastados (art. 067), apontam para misérias por ter em excesso, e a configuração de tirar leite das pedras, e ainda reparti-lo, acena para riquezas por não se ter nada (art. 110). [...]

  3. Amei cada palavra desse texto e concordo plenamente com tudo a maioria das pessôas são assim mesmo vivem como se o mundo girasse em torno de si e o que esta a sua volta e totalmente ignorado. Eu não sei nada da vida, mas sinto o mundo inteiro como que em dores de parto, a natureza sendo destruída a fome abrangendo uma imensa multidão, quanto aos que gritam aos berros por Deus e ate poderia sair de seus luxos e ajudar os que sofrem, não o fazem e mais cômodo terem seus carrões, morar em suas mansões e simplesmente se omitir. O que o mundo precisa e de mais pessoas disposta e agir, a começar abrindo a consciência, o que no meu ver e um pouco mais complicado, se a própria cultura ficou enterrada por longo tempo. Eu mesmo percebo que a muitos ensinamentos muita sabedoria, e que o mundo agora desperta pra essa realidade a qual eu também quero aprender… Abraços fraternos amigo.

  4. A evolucao do externo,depende da evolucao do interno.
    Os ensinamentos estao desmembrados e dogtimatizados.
    Encontrar a diferenca da Inspiracao e da Intuicao.
    Pessoas encontram o fragmento do saber,e logo patenteiam,como sendo a complecta verdade,e milhares a seguem.
    Aquele que recebe o conhecimento,pratica,pois esse e o caminho a ser seguido,nao ha tempo para ensinar,e tempo de Ser,sendo sera exemplo por emanacao,pois todo aquele que alcanca,tem que se manter nas vestes da humildade,para nao ser vitima dos que ainda nao alcancaram,um dia alcancarao,pois essa e a lei da evolucao,mais cedo ou mais tarde teremos todos que conhecer a Inteligencia de Deus.
    Viver o Eu Interior e viver para que o Planeta evolua.
    As vezes ouco as pessoas falarem de outras tomando um cha comendo um bolo e muitas vezes falam negativamente,apontando os defeitos e nao qualidades,e me pergunto porque se encontram para falar de quem nao esta fisicamente presente?porque nao aproveitam o sabor do cha o doce do bolo?porque nao falam de si mesmas?Dai reflicto,o quanto ja o fiz,nao falar,mas ouvir e se calar,e mais pesado do que o falar.
    E muito complicado chegar ao equilibrio.Por isso cada vez mais devemos procurar pessoas que tenham conhecimento,mesmo fragmentado,para uma Uniao solida,onde possamos dar amor (complecto,saude,educacao,conhecimento espiritual,fisico e moral)as criancas,talves num futuro havera a Nova Geracao,filhos legitimos da Era do Conciliador.
    Uma experiencia por mim vivida esta semana:
    “Estava eu esperando o sinal abrir para poder atravessar a rua,dai olhei para o ceu e pude presenciar uma das imagens mais lindas de toda a minha vida ate agora,um passaro grande(talves um corvo)voava acompanhado paralelamente de um passaro pequeno(talves uma especie de tico tico),um voo coordenado,a diferenca do tamanho dos corpos,nao destonava a harmonia de voar,precisa,em dado momento,exactamente em ritmo harmonico,se separaram em curvatura sincronizada,um para a esquerda e outro para a direita.”
    Meu coracao sentiu uma imensa felicidade,pois no Universo inteiro,so eu vivenciei essa sincronia da Natureza,sim os dois passaros,mostraram para mim o bale ensaiado naturalmente,o Universo todo preparou ese presente para mim,e senti e me sinto amada pelo Universo a quem amo cada vez mais,a imagem esta gravada,e agora descrevendo
    posso ver nitidamente em meu cerebro a imagem a se repetir,a cor do ceu,as nuvens,tudo esta gravado nas memorias de meu coracao.
    Se passarmos a vivenciar o momento vivido em tempo real,talves o mundo capital financeiro seja bastante prejudicado,mas talves galgando para o mundo espiritual verdadeiro em tempo real,nada precisemos.
    Christwier.
    Tokyo-2-12-2011.

  5. A vida é um eterno aprendizado, aprendemos em todos os momentos, todos os dias, aprendemos com a magnitude da natureza, com a amplitude do infinito, ao ouvir o cantar dos pássaros, ao ver e sentir as cores e o perfume das flores, com o calor do sol, o brilho das estrelas, porque esse contexto evidencia que aprendemos a admirá-los, a respeitá-los, porque eles fazem parte do universo, do nosso planeta e consequantemente, fazem parte da nossa vida.
    É primordial ao ser humano saber agradecer, amar, receber e retribuir, reconhecer os erros e procurar corrigí-los, constituir e agregar famílias, dar um pouco de sí para quem necessita e aqui não estou me referindo a valores materiais e sim em dar atenção, carinho, compreensão e guarida a quem precisa, entender a quem precisa ser entendido, dar amor a quem precisa ser amado, enfim, aprender e aprender, porque, na vida, somos eternos aprendizes e felizes àqueles que conseguem reconhecê-lo.

  6. [...] realmente capazes de entrar em contato com algo muito maior, e manifestar a Consideração Externa (art. 110) de forma autêntica e [...]

  7. [...] assim que novamente o encontrei: O Colecionador (art. 110). Com olhar fixo em mim, em momento algum impôs qualquer tipo de pensamento além do meu próprio. [...]

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