Lázaro de Carvalho

009 – O Lobo e a lua

In Artigos on 9 de fevereiro de 2011 at 16:42

Era uma vez um Lobo, que passava longas horas uivando nas noites de lua cheia! Ouvimos dos nossos avós ou de pessoas mais idosas, principalmente do interior, relatos desse tipo, ou lemos nos contos de algum livro. Mas, você sabe o significado dessa lenda, que até hoje nos encanta e fascina?

Sou filho do interior, cria da terra. Só tivemos luz elétrica em nossa casa ao completar sete anos de idade. O jantar era servido às 17:00 hs e ao cair da noite a família se reunia à luz da lamparina a contar histórias, que jamais esqueci. Mamãe relembrava seus feitos de menina e papai tornava-se o herói das mil e uma noites. Assim as horas passavam rapidamente, pois às 20:00 hs em ponto a chama da lamparina se extinguia, era hora de dormir. Ainda era possível ouvir sussurros no escuro, não sem a intervenção de mamãe: ‘Já rezou pro seu anjo da guarda, menino? Fique quieto e vá dormir!’  Éramos felizes e não sabíamos. Bença, Pai! Bença, Mãe! E um gostoso silêncio tomava conta.

Foi assim que ouvi falar pela primeira vez num tal de Lobo. Muitas eram as suas nuances e respondia por vários nomes: Lobo mau, bicho-papão, dentre outros. Certa noite fui bater à cama de mamãe, com um estranho pedido. Queria que abrisse a janela para eu ver o Lobo uivar para a lua. Fui repreendido, é claro. Mamãe seguia a linha tradicional e me falou que o tal Lobo era perigoso e não gostava muito de ver alguém espiando. Mas o coração criança de seu filho respirava o aroma puro dos poetas líricos: devia ser muito lindo um Lobo uivando pra lua, pensava ele.

Agora já tinha dez anos e bastava apertar uma coisinha e a lamparina acendia sozinha. Ganhou até outro nome: lâmpada. Certa noite mamãe levou um susto, foi até a minha cama e não me encontrou lá. Acordou papai e ambos, depois de procurar por toda a casa me encontraram do lado de fora, sentado num toco de árvore, olhando para a lua cheia. Antes de me repreender, mamãe observou lápis e papel nas minhas mãos. Estendi-os e presenteei dizendo: É pra você, mamãe!  Ela olhou curiosa para o desenho: um Lobo uivando para a lua.

Então, disse para mamãe: Não precisa ter medo! O Lobo é meu amigo. E assim o adolescente menino Lázaro escrevia poemas para o Lobo. A minha primeira medalhinha em literatura veio do concurso da escola: O Lobo e a lua. Um poema que sofreu retaliações, afinal estudava num colégio católico. Disseram para mim que o Lobo matou Jesus, mas pensei com os meus botões: Como pode um Lobo tão belo matar o amor? Depois passei a abrir as janelas do quarto nas noites de lua cheia, com o som da vitrola ligada bem baixinho. Então, certa noite, ouvi uma canção que dizia: “Vem, Amigo! Não há perigo que hoje possa assustar. Não se iluda, pois nada muda se você não mudar”. Quem me apresentou ao Cordeiro foi o Lobo e sou muito grato a ele por isso.

‘Fuçando’ na biblioteca do colégio descobri um livro que falava do Lobinho. Ele passa várias semanas no útero da Mamãe Lobo, enquanto durar o seu período de gestação. Ele sonha e brinca nas águas do mar, pois o útero da Mamãe Lobo está cheio do mar, da mesma forma que nós flutuamos durante nove meses no útero de nossa mamãe. Descobri que o útero tem a mesma química, a mesma salinidade da água do mar. Meu Deus! Então, o útero de GAIA, a nossa Mamãe Terra, é o próprio mar?  As  águas que brotam das nascentes são o leite sagrado com que amamenta a nós, os seus filhos? Então, as águas dos regatos, ribeirões e rios, dos igarapés, das nascentes e das cachoeiras um dia se reencontram para reverenciar o Grande Mar da Vida. Que coisa linda este reencontro, meu Deus!

Estava escrito lá que o Lobinho passa, durante o período de gestação da Mamãe Lobo, por todas as fases que a humanidade já viveu em toda a sua história. Então, nós também vivemos milhões de anos de evolução em apenas nove meses? Estava eufórico com tamanha descoberta. Era simplesmente fantástico tudo aquilo! Mas bastou olhar para os semblantes próximos para tomar contato com a dura realidade à minha volta. Ninguém compartilhava da minha descoberta.  Que pena! Esquecemos o Nosso Verdadeiro Lar! Quem sabe um dia venhamos a compreender com toda a alma e com todo o nosso ser o que significa: A Lembrança de Si Mesmo.

O LOBO É O MAR,  REFLETE A LUZ DO LUAR EM SI MESMO. ASPIRA A PURA ESSÊNCIA DO SER, QUANDO CANTA ODES ÀS SUAS LEMBRANÇAS, ÀS SUA ORIGENS. 

Na alma do Lobo habita o Cordeiro; a poesia dos séculos; o aroma singelo das estrelas distantes. A alma do  Lobo reflete o mar. Ele é o próprio mar. Nós somos o mar. Quando mergulhamos nas suas águas nos tornamos unos com ele. Retornamos à Fonte, ao Princípio, ao Eterno. Por isso as suas águas exercem a um só tempo medo e fascínio sobre nós.

O Lobo é o poeta que se encanta com o luar. A lua é a sua morada, onde habita o mais íntimo do seu ser. O Lobo sabe por origem e tradição que:

A LUA É FILHA DA TERRA, DESTA MESMA TERRA QUE UM DIA VIRÁ A SER O NOVO SOL, POIS O SOL UM DIA FOI UM PLANETA, TAL COMO A TERRA É HOJE. SOMOS HERDEIROS DA NOVA TERRA E HABITANTES DA LUZ. 

Há mais mistérios no universo do que a alma do homem possa suportarMas não adianta ir ao encontro deles, antes é necessário se abrir para recebê-los. E a melhor forma de se abrir é dando o melhor de si. Parece um paradoxo, mas não é. Sem abrir mão de nossas convicções e certezas não vamos a lugar algum. Este é o significado bíblico de morrer. Mas antes de morrer é necessário despertar. Aqui está o grande mistério. O poeta sabe que o mundo que o rodeia é de um infinito azul, por isso é um contemplador de estrelas.

Estamos Renascendo, de um amontoado de entulhos para uma nova maneira de pensar; para uma nova vida, onde  resquícios de um passado distante não terão mais nenhum poder sobre nós. Então, talvez, voltemos a uivar em uníssono com o Lobo, quando o primeiro raio de luar romper as entranhas de nossas trevas interiores. Assim, as emoções negativas, o sofrimento inútil e as ilusões a respeito de nós mesmos cairão nus diante do verdadeiro EU.

Por que insistimos em morar no porão dessa casa magnífica, sem ao menos imaginar a grandeza de significado que reside nos andares superiores? Se tivéssemos energia suficiente para despertar, poderíamos ascender a esses andares, onde repousa a Lembrança de Si Mesmo. Teríamos assim a visão da unidade do Lobo e o Cordeiro e poderíamos contemplar toda a vastidão de estrelas e sóis.

“DISPÕE-TE, RESPLANDECE, PORQUE VEM A TUA LUZ  E A GLÓRIA DO SENHOR NASCE SOBRE TI”.

Que assim seja!

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  1. [...] Lobo (art. 009) jamais poderá ser vencido, apenas contido e observado. Quando nos tornamos conscientes da sua [...]

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